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Esfera (Sphairos)
BRUN, Jean. Empédocle. Paris: Seghers, 1966.
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A leitura das duas obras de Empédocles leva a questionar se ele foi um filósofo do Ser ou da substância, ou seja, se concebeu o mundo como uma história divina ou como um sistema cognoscível.
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Busca-se saber se ele quis narrar a odisseia do cosmos em uma gesta ontológica ou estudar a mistura dos elementos para apreender as transformações das substâncias.
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A grandeza de Empédocles teria sido se situar aquém dessa alternativa, no ponto onde ontologia e gnoseologia divergem.
O que Empédocles apresenta é uma biofísica na qual a Vida é a força animada pelo Amor que une e pelo Ódio que divide, e a física é o estudo do campo magnético que é também um campo de batalha.-
Nessa biofísica, os indivíduos que nascem e morrem são átomos de tempo e espaço que se unem e se enfrentam.
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A impossibilidade de definir o Ser, pois toda definição faria entrar o verbo “é” na fórmula, foi notada por Pascal.
Parmênides e os Eleatas afirmavam que o Ser é a permanência, e que o múltiplo e o movimento são aparência ilusória que condena ao erro.-
Para Parmênides, a rota da Verdade conduz ao Ser, do qual não há gênese nem devir.
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As aporias de Zenão de Eléia visavam mostrar que o movimento é não-ser, ou seja, o impensável do qual não pode haver discurso nem ciência.
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No seu poema, Parmênides dava uma imagem do Ser como uma esfera (Sphairos) bem arredondada, imóvel, contínua e contígua a si mesma.
Heráclito propôs uma visão do mundo onde o Ser se move no coração dos contrários que se enfrentam, sendo o próprio Devenir que flui e se refaz sem cessar.-
Para Heráclito, tudo flui e nada permanece, o combate é o pai de todas as coisas, e o enfrentamento dos contrários é a palpitação da harmonia que se constitui.
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Todas as coisas nascem do Uno e o Uno nasce de todas as coisas, havendo um combate pelo qual o múltiplo deixa o Uno e outro pelo qual o múltiplo tenta reencontrar sua origem.
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A filosofia de Heráclito é uma filosofia do Logos, e o devir se desdobra no seio do próprio Ser, como atesta a teoria do Eterno Retorno.
O Sphairos parmenidiano foi colocado em movimento por Heráclito, mas a esfera possui a particularidade de se mover em torno de seu centro sem descrever outra figura que não a sua própria.-
A luta dos contrários se situa no coração do Ser que é harmonia, pois o Sol não franqueará seus limites sob pena de ser descoberto pelas Erínias, auxiliares da Justiça.
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O Sphairos se move sobre si mesmo, e o rugido dos contrários que lutam em seu seio é a expressão de uma harmonia interior feita inteiramente de oposições.
Empédocles faz do Sphairos a esfera ontológica da qual nada ainda divergiu, sendo Espírito sagrado e inefável, pura Luz que não conhece as sombras que individualizam.-
O Sphairos é fixado na espessa envoltura da Harmonia e é alegre em sua revolução solitária, sem discórdia nem lutas indecentes em seus membros.
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Ele é igual em todos os sentidos, sem limites, circular, sem pés, sem joelhos ágeis e sem órgãos genitais, sendo esférico e igual a si mesmo.
O Sphairos é o absoluto divino, inacessível aos homens persuadidos apenas pelo que veem ou tocam, não tendo corpo nem membros, e sua rotundidade expressa que nada nele é excêntrico.-
Feliz é aquele que adquiriu as riquezas dos pensamentos divinos, mas maldito aquele que tem na mente apenas uma obscura opinião sobre os deuses.
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Não é possível trazer Deus ao alcance dos olhos nem segurá-lo com as mãos, pois ele não possui cabeça humana, nem dois ramos, nem pés, nem joelhos, nem sexo peludo.
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Ele é Espírito sagrado e inefável que, de seu pensamento rápido, percorre o universo inteiro.
O Sphairos ignora todo Ódio e toda separação, sendo de antes de toda cisão e toda ruptura, ele é Mundo e Divindade, não sendo presa da luta nem entregue ao Múltiplo, ele É, sem ação nem paixão.-
A filosofia de Empédocles pode fazer lugar a uma idade de ouro primitiva, um paraíso perdido onde reinavam a inocência e a harmonia, de onde os homens foram precipitados na caverna chamada terra.
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H. Ritter vê nessa idade de ouro a caracterização da existência mesma do Sphairos, onde todos os elementos da existência, encerrados no amor, vivem felizes e em perfeita santidade.
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Ed. Zeller critica Ritter afirmando que a lenda da idade de ouro não pode ter feito parte da descrição do sphérus, pois este não continha ainda seres individuais.
A idade de ouro deve ser ligada ao Sphairos não como o modo de vida deste, mas como o modo de vida das coisas do mundo sobre as quais a origem ainda irradia a amizade da proximidade e da unidade que está prestes a se perder.-
No fragmento 130, todas as criaturas eram domesticadas e doces com os homens, tanto as feras selvagens quanto os pássaros, e a amizade resplandecia entre eles.
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O Deus de Empédocles é a esfera e esse estado de unidade perfeita que precede a divisão em pluralidade operada pelo ódio, sendo a mesma esfera em sua unidade reconstituída pelo amor.
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A história do universo vai da unidade primitiva do sphéros divino à sua unidade reconstituída, onde o deus original é um globo material perfeito.
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