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Górgias

Brisson

O Gorgias é um diálogo animado, até mesmo violento. Ele aborda uma série de questões que se agrupam em torno de dois eixos: por um lado, aquelas relacionadas à retórica, que não é uma arte ou uma técnica, mas um saber-fazer, uma rotina que tem como objetivo seduzir seus ouvintes pelo discurso — ela se situa do lado da bajulação, cujo fim é o prazer; e as que se referem à justiça e à filosofia, como modo de vida e como busca do verdadeiro e do bem.

Assim como o Fedro, o Gorgias questiona o bom uso do discurso como instrumento de ação política, na Assembleia, e judicial, no Tribunal. Ele define a filosofia como a busca do verdadeiro e do bem, sendo o bem e o verdadeiro indissociáveis, como ilustra a máxima segundo a qual “ninguém comete o mal por vontade própria”. Podemos negligenciar o verdadeiro e contentar-nos com o verossímil? O direito do mais forte deve prevalecer, como defende Calicles? O que explica que o homem cometa o mal? Estas são as questões levantadas por Gorgias. O diálogo termina com o relato de um mito que descreve o julgamento da alma após a morte e suas peregrinações sob a terra, um mito que lembra que a alma sobrevive após se separar do corpo que habita temporariamente e que terá de prestar contas após a morte.

O diálogo se passa na casa de Calicles, onde reside Gorgias, o famoso retórico, originário de Leontinoi, na Sicília. Vindo com Queréfon, aquele que interrogou o Oráculo de Delfos, Sócrates encontra lá Gorgias, Polos, um siciliano que seria o autor de um tratado de retórica, e Calicles, um personagem conhecido apenas por este diálogo. Este ataque à democracia direta então praticada em Atenas, cujo discurso era o instrumento privilegiado, pode ser interpretado como uma denúncia da injustiça que constituíram o julgamento de Sócrates e sua condenação à morte, descritos em Eutífron, Apologia, Críton e Fedão.

Monique Canto-Sperber

Todo o diálogo Gorgias é ritmado pelas mudanças de interlocutores. Sócrates conversa com Gorgias, depois com Polos e, por fim, com Calicles, antes de passar a falar, por assim dizer, apenas consigo mesmo. Essas quatro sequências principais são precedidas por uma breve introdução que apresenta os participantes do diálogo; e elas se concluem com um mito, narrado por Sócrates, que parece servir como conclusão do diálogo. O Gorgias é uma conversa direta, na qual os interlocutores falam por si mesmos e que, com exceção do mito final, não contém nenhuma narrativa.

Apresentação: local e participantes.

O diálogo se passa na residência de Calicles, onde mora Gorgias, o retórico siciliano. É, portanto, na casa de Calicles que Sócrates e seu amigo, Querofonte, chegam. Lá, eles encontram Gorgias, Polos e Calicles. A intenção deles é explícita: querem conversar com Gorgias e aprender com ele em que consiste a retórica que ele ensina. Querofonte faz as perguntas, mas Gorgias nem sequer tem tempo de responder que Polos, também orador e admirador de Gorgias, se interpõe. Para cortar curto todas as perguntas adicionais, Polos começa a elogiar a arte ensinada por Gorgias: a retórica. Sócrates intervém então e critica o discurso de Polos. Ele pede a Gorgias que responda pessoalmente. Polos e Querofonte retiram-se. A discussão começa entre Gorgias e Sócrates.

Objeto

Sobre o que trata o Gorgias? Ao ler o resumo acima, é fácil elaborar uma lista dos temas abordados. E essa lista é bem longa: a retórica, é claro; mas também a diferença entre conhecimento e crença; a possibilidade de uma ciência da justiça; a arte e suas falsificações (empirismo, rotina, bajulação); a relatividade do poder; a definição do mal (cometer injustiça) e a do bem (praticar a justiça); a utilidade da punição; a incompatibilidade entre a natureza e a lei; o prazer como bem; o valor da filosofia; a finalidade da ação política e a sanção dos homens de Estado; o destino da vida e as ligações entre justiça e felicidade. Sem contar as numerosas observações de Sócrates que definem o diálogo dialético (que procede por meio de perguntas e respostas e exige a precisão das condições de verdade de todas as conclusões alcançadas) para opô-lo ao discurso retórico, preocupado sobretudo com o efeito produzido sobre o público e com o poder conquistado sobre ele.

Gredos

==== Da Natureza Dialética e do Contexto Histórico do Diálogo Górgias ==== * A arquitetura do Górgias distancia-se dos diálogos cronologicamente anteriores pela sua extensão considerável e pela sucessão de três interlocutores distintos que abandonam o silêncio apenas para retificar erros morais de seus predecessores, revelando um texto escrito com um apaixonamento que transcende o rigor lógico habitual e que parece decorrer de uma profunda crise pessoal de Platão após seu retorno da Sicília aos quarenta anos de idade, num período em que as marcas da Guerra do Peloponeso e da execução de Sócrates ainda ecoavam em sua consciência política. * A experiência acumulada por Platão, marcada por sucessivos desastres militares e pela instabilidade institucional de Atenas, conduz a uma reflexão sobre a organização política que prioriza o estabelecimento de uma sociedade justa em detrimento da mera posse de poder, estabelecendo que a eficácia administrativa não possui valor positivo se estiver desvinculada da moralidade, o que posiciona a política como uma extensão necessária e obrigatória da ética individual e social. * No contexto da vida ateniense, a retórica configurava-se como o instrumento exclusivo da ação pública e jurídica, fundindo as figuras do orador e do político sob o termo rhtor, o que justifica o ataque sistemático de Sócrates a ambas as esferas ao demonstrar que a persuasão desprovida de conhecimento sobre o justo e o injusto reduz a atividade estatal a uma forma de adulação irracional voltada para o controle das massas.


==== Do Embate com os Sofistas e a Anatomia da Moralidade ==== * A refutação de Górgias consubstancia-se na admissão de que o orador deve possuir a ciência do justo para exercer sua profissão, ao passo que o confronto com Polos eleva o debate para a esfera do paradoxo ético ao asseverar que cometer uma injustiça é o maior dos males e que o castigo é um benefício para a purificação da alma, contrapondo-se à visão pragmática que identifica a felicidade no poder despótico e impune de tiranos como Arquelau da Macedônia. * A posição de Cálicles representa o desafio mais contundente ao postular a superioridade da natureza sobre a lei e ao defender que a justiça legal é uma invenção dos fracos para conter os fortes, tese que Sócrates desconstrói ao provar que a vida moderada é superior ao desenfreio das paixões e que o prazer não se identifica ontologicamente com o bem, uma vez que a satisfação de apetites desordenados não conduz à eudaimonia ou ao florescimento humano. * A utilidade da retórica é subvertida para servir unicamente à autodenúncia, transformando o orador em alguém que utiliza a palavra para expor suas próprias faltas perante o juiz e acelerar o processo de cura espiritual, rejeitando-se o uso do discurso para a ocultação de crimes ou para a obtenção de uma felicidade ilusória baseada na manipulação das percepções alheias.


==== Da Verdadeira Política e da Escatologia Final ==== * Sócrates reivindica para si o exercício da autêntica política em Atenas por ser o único a buscar o aprimoramento moral dos cidadãos em vez de sua lisonja, censurando estadistas ilustres como Péricles, Milcíades e Temístocles por terem meramente saciado os apetites materiais do povo e negligenciado a repressão das paixões, que constitui a única missão legítima do bom cidadão e do governante virtuoso. * O encerramento da obra por meio do mito do juízo dos mortos eleva as conclusões éticas a um plano sublime, descrevendo um tribunal onde as almas, despojadas de seus corpos e prestígios sociais, são julgadas em sua nudez absoluta por Minos, Éaco e Radamanto, assegurando que o castigo seja proveitoso para os delitos reparáveis e sirva de exemplo eterno para as injustiças incuráveis cometidas por aqueles que abusaram do poder. * A conclusão final assevera que o melhor gênero de vida consiste na prática incessante da justiça e de todas as virtudes, aceitando a morte com serenidade desde que o indivíduo não tenha cometido atos injustos contra os homens ou contra os deuses, reafirmando que a integridade moral é o único escudo efetivo diante do juiz que decidirá o destino da alma após a dissolução da existência física.

Reale

Esquema do conteúdo do «Górgias»

I. Prólogo [447 A - 448 D]

II. Primeira parte. Diálogo de Sócrates com Górgias [448 D - 461 B]

  • 1. Górgias apresenta-se como um especialista em retórica [448 D - 449 C]
  • 2. Primeira definição de retórica e sua análise crítica [449 C - 450 A]
  • 3. Segunda definição de retórica e sua análise crítica [450 A - 451 D]
  • 4. Terceira definição de retórica e sua análise crítica [451 D - 452 C]
  • 5. Quarta definição de retórica e sua análise crítica [452 C - 454 A]
  • 6. Quinta definição de retórica e sua análise crítica [454 A - E]
  • 7. Sexta definição de retórica e sua análise crítica [454 E - 455 A]
  • 8. A pergunta de fundo de Sócrates: qual vantagem se obtém da retórica de Górgias [455 A - 456 A]
  • 9. A resposta de Górgias: a retórica fornece o poder de persuadir [456 A - 457 C]
  • 10. Breve interlúdio: algumas observações de caráter metodológico [457 C - 458 E]
  • 11. Tese de Sócrates: a retórica produz persuasão sem o saber [458 E - 459 C]
  • 12. As relações entre retórica e justiça [459 C - 460 C]
  • 13. Conclusão de Sócrates e crise da posição de Górgias [460 C - 461 B]

III. Segunda parte. Diálogo de Sócrates com Pólo [461 B - 481 B]

  • 1. Intervenção improvisada e polêmica de Pólo [461 B - 462 B]
  • 2. Sócrates define a retórica gorgiana como prática empírica [462 B - 463 A]
  • 3. A retórica é uma forma de adulção [463 A - 464 B]
  • 4. As várias formas de adulção do corpo e da alma [464 B - 466 A]
  • 5. A retórica não tem um poder verdadeiro porque opera sem o conhecimento do bem [466 A - 467 C]
  • 6. A retórica pode ajudar o homem naquilo que lhe parece, não naquilo que por natureza ele quer [467 C - 468 E]
  • 7. A injustiça é o maior dos males [468 E - 470 C]
  • 8. Um homem injusto não pode ser feliz [470 C - 471 D]
  • 9. Breve interlúdio. Uma questão de método [471 D - 472 D]
  • 10. Cometer injustiça é mais feio do que sofrê-la [472 D - 474 C]
  • 11. Cometer injustiça é também mais danoso do que sofrê-la [474 C - 476 B]
  • 12. Pagar a pena é libertar-se do mal da injustiça e, portanto, é um bem [476 B - 477 A]
  • 13. Pagar a pena não é apenas libertar-se de um mal, mas do maior dos males [477 A - 477 E]
  • 14. Quem não recebe castigo pelas injustiças cometidas é mais infeliz do que quem o recebe [477 E - 479 C]
  • 15. Recapitulação dos resultados da discussão [479 C - 480 A]
  • 16. Reflexões conclusivas e confirmação da inutilidade da retórica [480 A - 481 B]

IV. Terceira parte. Diálogo de Sócrates com Cállicles [481 B - 505 C]

  • 1. Intervenção de Cállicles [481 B - 482 C]
  • 2. A tese de Sócrates, para Cállicles, é contra a natureza [482 C - 483 C]
  • 3. A justiça segundo Cállicles é o direito do mais forte [483 C - 484 C]
  • 4. A filosofia defendida por Sócrates tornaria os homens uns inúteis [484 C - 485 E]
  • 5. Sócrates deveria abandonar a filosofia e dedicar-se à vida prática [485 E - 486 D]
  • 6. Resposta de Sócrates e elogio (em tom irônico) da intervenção de Cállicles [486 D - 488 B]
  • 7. Quem é o mais forte? O indivíduo ou a multidão? [488 B - 489 B]
  • 8. O melhor é o mais inteligente e o mais poderoso [489 B - 490 B]
  • 9. Os mais inteligentes e poderosos segundo Cállicles são os competentes nas coisas do Estado e os corajosos [490 B - 491 D]
  • 10. Os mais poderosos segundo Cállicles são aqueles que dominam os outros e não a si mesmos [491 D - 492 D]
  • 11. A vida exaltada por Cállicles poderia ser vida na dimensão da morte e aquela defendida por Sócrates, vida verdadeira [492 D - 493 D]
  • 12. Maiores esclarecimentos das implicações da vida dissoluta defendida por Cállicles [493 D - 494 C]
  • 13. Segundo Cállicles, o verdadeiro bem para o homem é o prazer em todos os sentidos [494 C - 495 E]
  • 14. Demonstração da tese de que bem não pode ser o prazer e mal a dor [495 E - 497 D]
  • 15. Demonstração ulterior de Sócrates da impossibilidade de identificar bens e prazeres [497 D - 499 B]
  • 16. A distinção entre prazeres bons e maus, subitamente admitida por Cállicles, e suas consequências [499 B - 500 A]
  • 17. Para distinguir prazeres bons e maus é necessário um conhecedor do bem [500 A - E]
  • 18. Retomada do conceito de retórica como adulção das almas dos homens [500 E - 502 D]
  • 19. A verdadeira retórica e o verdadeiro retor deveriam tornar as almas dos cidadãos o mais boas possível [502 D - 503 D]
  • 20. O homem competente e bom produz ordem e harmonia nas coisas de que se ocupa [503 D - 504 D]
  • 21. O verdadeiro retor deve fazer com que nos cidadãos se produzam ordem, justiça e temperança [504 D - 505 C]

V. Interlúdio. Cállicles quer parar de discutir com Sócrates [505 C - 506 C]

VI. Quarta parte. Sócrates dialoga prevalentemente consigo mesmo [506 C - 523 A]

  • 1. A alma boa é ordenada e temperante [506 C - 507 A]
  • 2. A alma boa e temperante é feliz [507 A - C]
  • 3. O homem injusto e dissoluto não pode ser amigo nem dos outros homens nem dos deuses [507 C - E]
  • 4. Dimensão cósmica da ordem, da comunhão e da temperança [507 E - 508 C]
  • 5. Retomada das grandes teses éticas [508 C - 509 C]
  • 6. Seria preciso encontrar o poder e a arte de não cometer injustiça e de não sofrê-la [509 C - 510 A]
  • 7. Fazer-se amigo dos poderosos coloca nas condições de, para não sofrer injustiças, cometer injustiça [510 A - 511 B]
  • 8. A retórica poderia salvar a vida física, mas somente esta [511 B - 512 D]
  • 9. O que vale não é o viver como tal, mas o viver segundo a justiça [512 D - 513 C]
  • 10. A verdadeira tarefa do político está em cuidar para que os cidadãos se tornem o mais possível melhores [513 C - 515 B]
  • 11. Foram realmente grandes políticos homens como Péricles, Címon, Milcíades e Temístocles? [515 B - 517 A]
  • 12. Diferença entre os famosos políticos do passado e os contemporâneos [517 A - 518 C]
  • 13. Aos famosos políticos do passado remontam as causas dos males presentes de Atenas [518 C - 519 B]
  • 14. Os políticos são causa dos modos como os súditos os tratam [519 B - D]
  • 15. Em que consiste a responsabilidade política [519 D - 521 A]
  • 16. Sócrates está convencido de ser um dos pouquíssimos que exerce a verdadeira arte política e sabe que sorte o espera [521 A - 522 B]
  • 17. O verdadeiro poder em que Sócrates acredita é ajudar a si mesmo a não cometer injustiça [522 B - 523 A]

VII. Epílogo. Os destinos das almas [523 A - 527 E]

  • 1. Narração do grande mito escatológico [523 A - 524 A]
  • 2. Interpretação do mito [524 A - 525 B]
  • 3. Retomada de temas de fundo do diálogo em conexão com o mito [525 B - 526 B]
  • 4. O destino da alma do filósofo que viveu segundo a verdade [526 B - 527 A]
  • 5. Mensagem conclusiva de Sócrates [527 A - E]

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