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Sobre o justo

Luc Brisson

Sem que se saiba qual o lugar e as circunstâncias da discussão, Sócrates põe ao interlocutor anônimo a questão que constitui o tema do diálogo: “Pode me dizer o que é o justo?” Depois de ter definido o método a seguir — é preciso descobrir o caráter comum que permite qualificar de “justas” todas as nossas ações —, Sócrates coloca breves questões que podem ser reagrupadas sob dois temas: 1) O que serve para distinguir o justo do injusto? Trata-se do discurso, da palavra. 2) Então, em que consistem o justo e o injusto? Sócrates começa por fazer admitir a seu interlocutor que ninguém é injusto de bom grado. Mas como os mesmos atos podem ser qualificados ora de “justos” e ora de “injustos, convém prosseguir a discussão. Um ato é justo se é cometido quando deve e no bom momento, e injusto em caso contrário. Em seguida, se é verdade que ninguém é injusto de bom grado, segue-se que é graças ao saber que permite determinar quando se deve agir e em que momento se é justo, e por ignorância disto, que se é injusto.

O diálogo não é mencionado por Diógenes Laércio na lista das obras de Platão, e é impossível explicar porque se encontra em certos manuscritos como um texto atribuído a Platão. Por conseguinte, estes diferentes manuscritos não se entendem sobre os interlocutores: para uns, é Sócrates e um anônimo, para outros Sócrates e um discípulo e para outros ainda Sócrates e Clínias. Não se conseguiu ainda avançar hipóteses sobre autoria e data de composição, que trata de temas desenvolvidos no Górgias, na República, no Político e nas Leis. (Brisson, PLATON, OEUVRES COMPLÈTES)

Gredos

O diálogo Sobre o Justo não consta do catálogo de obras apócrifas de Platão mencionado por Diógenes Laércio (III 62). Quanto ao seu possível autor e à data de composição, as opiniões divergem, uma vez que, apesar de sua insignificância, já se tentou até mesmo defendê-lo como uma obra autêntica, dos primórdios de Platão. Há quem acredite que talvez pertença a uma época posterior à do fundador da Academia, como parece demonstrar sua relação e semelhança com o Minos, razão pela qual, precisamente, Boeckh[3] o associa, ao contrário, a um tipo de diálogo socrático muito rudimentar, de modo que considera o correio Simão como possível autor, dando crédito talvez à notícia de Diogenes Laércio (II 122), segundo a qual entre os skytikoì lógoi de Simão havia dois com o título de Sobre o Justo. Pavlu atribui a ele, assim como a Sobre a Virtude, que considera obra do mesmo autor, uma data pós-aristotélica, enquanto Joël defende que Aristóteles já conhecia o Sobre o Justo, uma vez que o estagirita cita e discute na Ética a Nicômaco (III 7, 1113b14) o aforismo poético utilizado pelo autor do diálogo em 374a. Souilhé, por outro lado, atendendo ao tipo de argumentos utilizados, ao desenvolvimento e à forma dialógica da obra, pensa em uma época mais antiga, talvez o ambiente socrático que o próprio Platão combateu.

Quanto ao tema do diálogo, este é um dos mais amplamente tratados pelos autores antigos. Além da República de Platão, encontramos em Diogênes Laércio (IV 4) uma referência a um Perì dikaiosynes catalogado entre as obras de Espeusipo, sucessor de Platão na Academia; ele cita Jenócrates como autor de um Sobre a justiça e de um Arquedamo ou Sobre a justiça (IV, 12 e 13). Da mesma forma, Aristóteles teria escrito quatro livros relativos a esse assunto, enquanto Heráclides, o Póntico, teria composto três diálogos morais intitulados também Sobre a Justiça.

Este breve diálogo pseudoplatônico, árido e insípido, baseado na definição socrática — segundo o julgamento de Guthrie —, pode muito bem ser, como seu «gêmeo[10]» Sobre a virtude, um exercício escolar no qual se encadeiam as ideias banais e superficiais que alimentavam a retórica dos sofistas ao tratar do tema da justiça e do que é justo.

Sem qualquer preâmbulo, sem situar o local ou as circunstâncias da discussão — de forma tão contrária à maneira como Platão inicia seus diálogos—, Sócrates tenta determinar a natureza da justiça conversando com um interlocutor anônimo. Antes de tudo, é preciso resolver uma questão metodológica, já que se deve obter uma boa definição do conceito de «justo», que permita atribuir às ações tal qualidade de justas, a partir de uma série de casos particulares de justiça (372a). Uma vez estabelecido esse problema de método, o diálogo avança em três aspectos. Em primeiro lugar, é preciso encontrar o instrumento através do qual se pode distinguir entre o justo e o injusto, tendo em conta que a palavra, o discurso, o raciocínio — isto é, lógos, em grego —, contribui para operar tal distinção. Em seguida, Sócrates propõe investigar qual é a natureza do justo (373d-e) e, diante do espanto de seu interlocutor, levanta novamente a questão com base no fato de os homens cometerem injustiça conscientemente ou involuntariamente. Após examinar uma série de exemplos, conclui-se que as mesmas ações podem ser boas ou más, uma vez que uma ou outra avaliação depende sempre das circunstâncias de tempo, de lugar e até mesmo das pessoas envolvidas (374a-375a). Sendo assim, recorre-se a uma nova precisão, importante, para discernir entre o justo e o injusto, a saber, à noção de oportunidade (kairós), solução paralela à que oferece o autor dos díssoi lógoi. Ora, a ação oportuna e conveniente deriva, necessariamente, do conhecimento (epístasthai), de modo que se pode afirmar que a injustiça é pura ignorância e, se esta for involuntária, tal como parece defender a tese socrática, a conclusão deve ser, sem dúvida alguma, que a injustiça é um ato involuntário.

Estrutura dada por Léon Robin à versão francesa da obra completa de Platão: PLATON : OEUVRES COMPLÈTES, TOME 2

  • Prólogo
  • O instrumento e o procedimento da discriminação
  • A natureza do objeto a discriminar
  • Saber ou não saber, fundamento do valor moral do ato

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