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Segundo Alcibíades

Luc Brisson

Também chamado “Da Oração”, o diálogo se engaja de modo abrupto entre Sócrates e Alcibíades que vai orar a um deus por um assunto que lhe parece importante. Sócrates demanda a Alcibíades se bem refletiu, pois o exemplo de Édipo mostra que a oração pode ter por consequência terríveis infelicidades. Alcibíades replica que Édipo era louco. Sócrates então faz notar que a loucura é o contrário da reflexão. Ora se a loucura é o contrário da reflexão, e se as pessoas que não refletem são mais numerosas que as que refletem, então devemos estar cercados de loucos, o que os fatos desmentem. Por outro lado, a falta de reflexão comporta várias espécies, mas pode-se assim caracterizar: como a reflexão consiste no fato de saber o que deve se dizer e fazer, a falta de reflexão, que é seu contrário, reside no fato de ignorar o que é preciso dizer e fazer. É portanto a ignorância do que é o bem que prejudica a oração. Em certos casos, no entanto, a ignorância é preferível. Pois o pior de tudo é crer que se sabe, quando não se sabe. Os lacedemonianos (segundo Xenofon) eram conscientes que só se dirigiam suas orações aos deuses com uma extrema prudência. Assim, é preciso que Alcibíades espere que um mestre o instrua.

Desde o primeiro século de nossa era paira a dúvida se este diálogo teria sido realmente escrito por Platão. Como o Primeiro Alcibíades também é objeto de controversas sobre sua autenticidade e data que foi escrito, do mesmo modo não se cogita qual seria a data do Segundo Alcibíades. O fato é que o autor deste diálogo usa passagens do Primeiro. (Brisson, Platon, oeuvres complètes)

Piero Pucci

Sócrates encontra Alcibiades, que se dirige ao templo para rezar: é preciso ter muita cautela na oração, para evitar pedir algo que se considera um bem, mas que, na verdade, é um mal. O exemplo de Édipo. Mas Édipo, objeta Alcibiades, tinha enlouquecido (I 138a-c). Mas, responde Sócrates, se ser louco é o contrário de ser sensato, teremos de dizer que ser louco é idêntico a ser tolo, já que também a tolice é o contrário da sensatez e não podem existir dois contrários diferentes de uma única coisa (II 138c-139c). Deve-se então admitir que a maioria dos homens, sendo tola, é louca? Como mostra a analogia com a doença, a tolice é de muitos tipos e, se é verdade que todo louco é tolo, não é verdade o contrário (III 139c-140d). A insensatez identificada com a ignorância: Exemplo de oração imprudente (IV 140d-141c). Outros exemplos de orações sugeridas pela ignorância do que é bom pedir (V 141c-143a). Mas há casos em que ignorar o bem é melhor do que acreditar conhecê-lo (VI 143a-c). Outro exemplo para demonstrar este princípio (VII 143e-144c). Nenhum conhecimento é verdadeiramente útil se estiver separado do conhecimento do que é melhor. (VIII 144d-145c). A sensatez não pode, portanto, prescindir da ciência do bem; e, no entanto, pior do que a ignorância é acreditar que se sabe sem realmente saber (IX 145c-146d). Mesmo a erudição não serve de nada sem a ciência do bem. Caráter enigmático da poesia (X 146d-147e). Alcibiades não sabe mais o que pedir em sua oração e Sócrates, então, lembra a oração sensata dos lacedemônios, que se limitam a pedir que os deuses concedam o bem e afastem o mal (XI 147c-148d). A resposta do oráculo de Amon (XII 148d-149c). Mais do que a riqueza e a abundância dos sacrifícios e das oferendas, os deuses olham para a alma, se ela é piedosa e justa (XIII 149c-150d). Conclusão: Alcibiades coroa Sócrates (XIV 150d-151e).


Estrutura dada por Léon Robin à versão francesa da obra completa de Platão: Platon : Oeuvres complètes, tome 2

  • Prólogo
  • Irracionalidade e Loucura
  • Diversas espécies e diversos graus de irracionalidade
    • A ignorância é o que é comum a todas as formas de irracionalidade
    • Exemplos de votos inconsiderados
  • Ignorar não vale mais que saber?
    • Que se imaginar saber ou que saber, sem saber o que vale mais?
    • Muito Saber… não se confunde com saber o que é bom
    • Como orar?
  • Epílogo
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