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Protágoras – Mito e Logos (Reinhardt)

REINHARDT, Karl. Les Mythes de Platon. Paris: Gallimard, 2007

O Protágoras situa-se no início, ou quase, da carreira literária de Platão. E o sofista brilha nele por meio de um muthos. O sofista Protágoras já conhece um duplo tipo de instrução, pelo logos e pelo muthos. Mas muthos significa para ele, como mais tarde ainda para Platão, “fábula” ou “conto”. A primeira, a visão elevada de Platão, através dos conteúdos que ela posteriormente coloca no conto, confere à palavra o significado eminente que lhe é agora e para sempre atribuído. Em Platão, emerge do logos, como ideal metodológico, a realização constante, no progresso da dialética, da faculdade inata de conhecer — como poder da alma, o diálogo. Da mesma forma, emerge finalmente do muthos, como método, uma forma de metáfora, de cópia de um modelo na “verdadeira semelhança” — como poder da alma, um discurso sobre as coisas situadas além da palavra e da prova. Logos e muthos, outrora em coexistência pacífica e sem grande alcance, separam-se e atraem-se reciprocamente com uma tensão prodigiosa. Os dois pólos opõem-se e essa oposição, no próprio Platão, aumenta progressivamente. Se, através do desenvolvimento de Platão, procurássemos acompanhar, de acordo com a cronologia dos diálogos, a relação entre o logos e o muthos, chegaríamos à conclusão de que, de forma semelhante à elaboração progressiva do método dialético, a especificidade do mítico ressalta e triunfa com cada vez mais força. Seus elementos, inicialmente dispersos, ignorando-se uns aos outros, se reúnem em cosmos míticos.

O sofista Protágoras deixa a escolha entre logos e muthos; para ele, muthos significa “travestimento”. Para Platão, não há mais escolha possível. E, no entanto, o esboço externo do mito dos sofistas, sua forma literária, é também, em parte não negligenciável, a forma de Platão. Um elemento externo é novamente interiorizado. Assim como a ironia capta primeiro o que é antagônico, o que deve ser negado, caricaturado, o que deve ser superado e o que é superado, antes de se encontrar no próprio reino da alma, da mesma forma Platão nos propõe primeiro um modelo do mito dos sofistas, novamente ele faz a ironia atuar externamente, até que a alma seja forte o suficiente para transpassar as paredes, preencher formas e continuar a jogar — agora a seu próprio gosto e à sua própria vontade, com suas próprias forças — o jogo da rivalidade com forças estranhas e antagônicas. Mas, retrospectivamente, percebe-se, é verdade, que no mito do sofista o próprio desejo de Platão já está solidário ao mito.

“Antigamente, só existiam os deuses, nenhuma raça mortal. Mas quando chegou para elas o dia do destino em que deveriam vir ao mundo, os deuses as formaram nas entranhas da terra e as compuseram a partir da terra e do fogo, e de uma mistura de terra e fogo. Como pretendiam conduzi-las à luz, encarregaram Prometeu e Epimeteu de prover cada uma delas e conceder-lhes forças da maneira adequada. Mas Epimeteu quis convencer Prometeu a deixar a ele a tarefa de distribuir. Deixe-me fazer a distribuição, disse ele, você poderá controlar. Assim, ele o persuadiu e fez a distribuição. Então, deu a um a força sem a velocidade e, por sua vez, fez da velocidade o equipamento do mais fraco. A este, ele deu armas; para aquele, que ele deixou desarmado, ele pensou em outros meios de conservação. Àquele que ele vestia com roupas pequenas, ele deu a fuga alada ou um habitat subterrâneo; aquele cujo tamanho ele aumentou, ele protegeu ao mesmo tempo. Assim, ele fez a divisão e equilibrou os dons… Segue-se a descrição dos diferentes meios de defesa dos animais, descrição sustentada num estilo à moda e adaptada ao tom da fábula. Mas como a sabedoria de Epimeteu não era muito extensa, ele não percebeu que já havia esgotado as forças e que, no final, só lhe restava o homem, desprovido de qualquer ajuda. Ele não sabia o que fazer. Prometeu chegou então para examinar a distribuição; viu como todos os outros estavam perfeitamente equipados e que apenas o homem estava nu, sem sapatos, sem cobertor e sem arma. E já se aproximava o dia, fixado de antemão, em que o homem também deveria sair da terra para ir para a luz. Em tal necessidade, e porque não conhecia outra ajuda para os homens, Prometeu roubou o conhecimento técnico de Hefesto e Atena, bem como o fogo — pois sem o fogo não se podia nem detê-lo, nem usá-lo — e o doou aos homens… Embora fosse útil para garantir sua subsistência, graças à arte dos artesãos, essa ajuda não era suficiente na guerra contra os animais: faltava-lhes a arte do Estado, da qual faz parte a arte da guerra. Sem dúvida, eles tentaram se reunir, salvar-se fundando cidades, mas, cada vez que tentavam, cometiam injustiças uns contra os outros, voltavam a se dispersar e declinavam. Zeus começou então a temer pela perenidade de nossa raça e enviou Hermes aos homens, para que lhes trouxesse a vergonha e a justiça e para que se estabelecessem entre eles a organização das cidades e os laços de amizade. Hermes perguntou a Zeus: Como devo compartilhar a justiça? Da mesma forma que as artes? Um médico é suficiente para um grande número de pessoas, e o mesmo vale para os outros artesãos. É assim também que se deve dar aos homens a vergonha e a justiça? Ou devo dar a todos da mesma forma? — Da mesma forma, respondeu Zeus, todos devem ter. Pois é impossível que nasça uma cidade, se esta for propriedade apenas de um pequeno número, como acontece com as outras artes. E dê a eles em meu nome esta lei: se um homem não tiver vergonha e justiça, como um flagelo do Estado, ele deve morrer.

O sentido do mito é o seguinte: em si mesmo, o homem é fraco. A cultura que assegura sua conservação é dupla: em primeiro lugar, os artesãos, que servem à sua existência física; em segundo lugar, a justiça e o Estado, meios de sua conservação superior, social. Os dois são de naturezas distintas, de níveis distintos, e é também por isso que a partilha dos dois não se faz de maneira idêntica. O problema que o mito esconde resulta do conceito propriamente sofisticado de technè. Sua roupagem é transparente. Protágoras poderia muito bem ter analisado isso em um logos. Em vez do muthos, leríamos então uma consideração sociológica ou relacionada à história das civilizações. O que produz, então, o muthos? O gosto pelo disfarce, pela delicadeza, pela brincadeira, mas nada sobre a alma. Se quisermos procurar a alma, descobri-la-emos antes na negação, ou seja, no jogo com o que é negado. É claro, de facto, que o sofista, sendo uma criação de Platão, está incluído na alma deste último.

Na época em que Platão escreveu esse mito, ele provavelmente não imaginava que em breve colocaria seu coração em um muthos. Para isso, era necessária uma conversão, uma transformação de si mesmo.

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