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Porfírio

PORPHYRIUS. Porphyry’s letter to his wife Marcella: concerning the life of philosophy and the ascent to the gods. Tradução: Alice Zimmern. Grand Rapids, Mich: Phanes Press, 1986.

Porfírio, nascido em Tiro, capital da Fenícia, por volta de 233 d.C., era de descendência semítica e língua materna síria, mas foi educado em grego e tornou-se verdadeiro mestre dessa língua — tendo o biógrafo Eunapio de Sardes observado que era impossível determinar em qual ramo do conhecimento ele mais se aprofundou.

  • Tiro era cidade portuária e principal centro de produção do púrpura de Tiro, com economia ativa e posição de nexo no comércio internacional — ambiente que ofereceu ao jovem Porfírio a oportunidade de estudar uma variedade de línguas, culturas e crenças religiosas.
  • Ainda jovem, Porfírio teve a oportunidade de ouvir Orígenes, o grande intelectual cristão, lecionando em Cesareia; Porfírio considerou a tentativa de Orígenes de conciliar o cristianismo com a tradição intelectual grega profundamente absurda.
  • A crítica de Porfírio a Orígenes: “um grego educado no pensamento grego, mergulhou de cabeça na imprudência não grega; imerso nisso, vendeu a si mesmo e sua habilidade em argumentação. Em seu modo de vida comportou-se como cristão… em suas ideias metafísicas e teológicas jogou o grego, dando um tom grego a contos estrangeiros.”
  • Para Porfírio, a síntese tentada por Orígenes entre metafísica platônica e revelação cristã era um exercício de sofística intelectual e, mais gravemente, uma traição à filosofia grega e aos princípios da investigação intelectual.

No início dos seus vinte anos, Porfírio foi a Atenas estudar sob o retor e filósofo Longino, caracterizado por Eunapio como “uma biblioteca viva e museu ambulante” — e foi Longino quem lhe conferiu o nome “Porfírio”, tradução grega do sírio “Malchus” (rei), sugerindo o nome da cor real.

  • Em Atenas, Porfírio publicou sua primeira obra de crítica literária, as Questões Homéricas, e firmemente dominou as habilidades de crítica literária, textual e histórica que empregaria mais tarde em suas análises das Escrituras cristãs.
  • Foi sob a tutela de Longino que a clareza retórica de Porfírio — evidenciada de modo inconfundível em toda a sua escrita — foi conduzida à plena maturidade; Eunapio comparou-o a “uma corrente de Hermes baixada aos mortais.”
  • Porfírio teve sua primeira exposição real às profundidades do pensamento platônico possivelmente sob Longino, embora nesse período tenha se dedicado principalmente à crítica literária e à erudição textual.

Ao ouvir falar dos ensinamentos de Plotino, Porfírio partiu para Roma em 263 d.C., quando tinha 30 anos e Plotino cerca de 60 — encontrando nele o homem que procurava, assim como Plotino havia encontrado o seu em Amônio, filósofo autodidata, após anos de insatisfação com as conferências de outros filósofos em Alexandria.

  • Em torno de Plotino em Roma reunia-se um círculo de estudantes e admiradores — senadores romanos, médicos e outros ouvintes ilustres de ambos os sexos; até o imperador e sua esposa “honravam e veneravam” Plotino.
  • Porfírio rapidamente se tornou o amigo mais próximo de Plotino e foi encarregado de editar seus escritos, que agrupou em seis conjuntos de nove (ennea) — daí o nome Enéadas.
  • Ao chegar a Roma, Porfírio escreveu um tratado contra Plotino para demonstrar que os objetos do pensamento existem fora do intelecto; após um longo debate mediado por Amelius — discípulo de longa data —, Porfírio mudou de opinião e escreveu uma retratação que leu na reunião da escola; a partir daí passou a estimular Plotino a organizar e redigir sua doutrina de modo mais extenso, e incentivou também Amelius a escrever livros.
  • Em um banquete platônico anual, Porfírio recitou um poema alegórico sobre O Sagrado Casamento; diante de quem o chamou de “louco”, Plotino declarou em voz alta: “Você se mostrou ao mesmo tempo poeta, filósofo e expositor de mistérios sagrados.”

Após seis anos com Plotino, Porfírio caiu sob o efeito da melancolia e chegou a contemplar o suicídio — foi Plotino quem, percebendo o estado do discípulo, sugeriu uma viagem, e Porfírio partiu para a Sicília; Plotino morreu em 270 enquanto ele ainda estava ausente.

  • Na Sicília, Porfírio trabalhou nos problemas da lógica aristotélica, compondo a Isagoge (Introdução) às cinco categorias de Aristóteles — obra escrita para o senador romano Crisaório para explicar os cinco predicáveis aristotélicos: gênero, espécie, diferença, propriedade e acidente.
  • Na Sicília também escreveu uma comparação entre o pensamento de Platão e Aristóteles e seu maciço polêmico Contra os Cristãos — obra posteriormente condenada à fogueira pelo Concílio de Éfeso (431) e por uma lei de Teodósio II (448), sobrevivendo apenas em fragmentos de autenticidade duvidosa.

Porfírio foi escritor prolífico, produzindo comentários sobre os grandes filósofos e tratando de história e biografia, metafísica, psicologia, ética, interpretação filosófica de mitos, retórica e gramática, matemática, astronomia e harmônica musical — sendo o número de títulos conhecidos do corpus porfiriano superior a 75.

  • Entre as obras sobreviventes estão: A Vida de Pitágoras, A Vida de Plotino, Pontos de Partida para o Reino da Mente, O Tratado sobre os Cinco Predicáveis (Isagoge), Sobre a Caverna das Ninfas, Comentário sobre a Harmônica de Ptolomeu, Epístola a Anebo o Egípcio (sobre teurgia), Sobre a Abstinência de Alimentos Animais, As Questões Homéricas, Excertos Sobre a Alma, A Carta de Porfírio a Marcela e numerosos fragmentos.
  • A amplitude do saber exibido por Porfírio assegura-lhe posição como uma das grandes figuras da tradição intelectual ocidental; até seu arquicrítrico Santo Agostinho não pôde deixar de referir-se a ele como “o mais erudito dos filósofos.”
  • Após a morte de Plotino, Porfírio retornou a Roma para assumir a liderança da escola; por volta de 298 publicou as Enéadas e a Vida de Plotino; pouco depois do ano 300, já próximo dos 70 anos, casou-se com Marcela; acredita-se que tenha morrido, provavelmente em Roma, entre 302 e 306 d.C.

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