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Abstinência
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Análise estrutural da argumentação de Porfírio em Sobre a Abstinência, obra bem preservada que desenvolve uma crítica sistemática ao consumo de carne.
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Ponto central I: consequências negativas do consumo de carne.
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Primeiro aspecto: regime carnívoro é prejudicial por ser custoso, de difícil obtenção e nocivo à saúde, em contraste com uma dieta baseada em produtos naturais, silvestres ou cultivados.
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Segundo aspecto: a ingestão de carne constitui grave delito, pois implica dar morte a seres animados inocentes, sem autorização moral para usar sua vida em nosso proveito.
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Terceiro aspecto: consumo de carne causa dano moral, pois excita a sensibilidade, desata paixões e engrossa a matéria corpórea, prejudicando o elemento racional.
Ponto central II: rejeição dos argumentos a favor do consumo de carne.-
Primeira refutação: embora sacrifícios ritualísticos incluam imolação de animais, isso não justifica comer as vítimas, assim como não comemos os inimigos mortos em combate.
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Segunda refutação: é infundado o temor de que, sem matar animais (domésticos ou selvagens), a vida humana esteja em risco por superpopulação, pois muitos animais que não matamos não causam dano.
Conclusão prática e público-alvo da abstinência: uma prática restrita ao filósofo, especialmente a um modelo de sacerdote-filósofo pitagórico, que serve de exemplo para a maioria.-
A abstinência é obrigatória para os encarregados da salvação da cidade, por sua piedade para com os deuses, legitimando assim a utilidade social da prática.
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O filósofo porfiriano, com vida frugal, alma pura e pensamentos castos, busca sua essência e assimilação à divinidade, distanciando-se do modelo platônico do educador cívico em favor de uma vida contemplativa exemplar.
Contexto metafísico e teológico que fundamenta a ética da abstinência.-
Sistema teológico com um deus supremo (ho epì pâsi, ho prôtos theós), deuses parciais e deuses inteligíveis.
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Doutrina dos daimones, herdada de Plotino, com dualismo entre bons e maus, próximo a religiões orientais e ao cristianismo.
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Problema do mal: não proveniente do princípio supremo, mas da matéria, à qual a alma se une devido a uma queda (privação do bem) por sua própria má condição, gerando irracionalidade e união com o mortal.
Caminho ético e soteriológico do filósofo: retorno à essência intelectual e assimilação ao divino.-
Para evitar a paixão (pathos), o sábio deve voltar-se para o intelecto (noûs) mediante a atenção (prosochḗ), que orienta para os inteligíveis.
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A essência humana é o intelecto (I 29, 4); a abstinência é um exercício coadjuvante, não salvador por si, que evita o embotamento dos sentidos e facilita o regresso a essa essência.
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A contemplação (theōría) atinge seu ápice na identificação entre contemplante e contemplado, produzindo um sentido místico.
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Objetivo final: assimilação (homoíōsis) e apropriação (oikeíōsis) à divinidade, mediante as quais o filósofo retorna naturalmente à sua própria essência. (Edição Gredos)
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