V, 7 SE HÁ MESMO IDEIAS DOS SERES INDIVIDUAIS
Brisson & Pradeau
BP
Apesar de sua brevidade, este tratado é um dos textos mais originais de Plotino, por pensar a participação não apenas como enraizamento do sensível numa forma inteligível universal, mas também como participação de um ser particular a um indivíduo em si.
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A teoria da participação não se limita aqui à evocação de arquétipos como “o homem em si” — mencionado no tratado 5 (V, 9), 14, e retomado no tratado 38 (VI, 7), 4 —, mas inclui o “Sócrates em si” do capítulo 1, 4.
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Essa tese, que Platão não sustentara explicitamente, tem duas consequências principais: uma epistemológica e outra escatológica.
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Epistemologicamente, ela permite estender a racionalidade do mundo sensível para além de uma simples evocação de arquétipos realizados “lá”, no mundo inteligível: a oposição dos dois mundos não é radicalmente a do uno (inteligível) e do múltiplo (sensível).
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O inteligível é uma “unidade-múltipla” que contém em si todas as coisas; não se deve portanto “temer a infinidade (apeiría) no inteligível” (cap. 1, 25): a apeiría indica que não há nenhum limite (péras) à potência da primeira realidade oriunda do Um.
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O Intelecto contém tanta variedade quanto o sensível — como sublinhava o final do tratado 5 —, mas sem que essa multiplicidade se acompanhe do tempo, do espaço e do modo de ser inferior que é o ser em potência (ver 25 (II, 5)).
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A multiplicidade dos indivíduos sensíveis e de seu modelo inteligível não é, porém, uma ilimitação numérica aberta para um futuro indeterminado: há um número preciso de indivíduos em si, assim como há um número determinado de Formas inteligíveis.
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Daí a tese cosmológica — retomada de Platão — segundo a qual o mundo sensível se desenvolve num tempo cósmico cuja unidade de medida mais ampla é o “período” ou Grande Ano (ver República, VIII, 546b4), ao cabo do qual tudo recomeça identicamente, ou melhor, as mesmas almas se reencarnam todas, quaisquer que tenham sido seus destinos ulteriores.
Tersites, o malvado (tratado 47 (III, 2), 13), e Sócrates, o justo, participam ambos do homem em si, mas têm parte em duas formas distintas que constituem seu eu verdadeiro — de modo que suas diferenças de caráter não se devem a contingências materiais ou circunstâncias históricas.
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À morte, a alma não se desfaz do que foi quando associada a um corpo: ela conserva sua personalidade e sua unicidade, que correspondiam a “diferenças formais” (idikai diaphoraí, cap. 1, l. 21).
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O tratado 27 (IV, 3), Sobre as dificuldades relativas à alma, conclui-se meditando sobre o destino da alma de Hércules no mundo inteligível (cap. 32, l. 28), retomado no penúltimo tratado, 53 (I, 1), O que é um vivente?, capítulo 12.
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Esse destino pessoal da alma após a morte é um dos pontos do sistema plotiniano que a teologia cristã aprofundará, pensando-o fora do quadro da metempsicose.
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Plotino recusou identificar individualidade e irracionalidade e soube conferir um estatuto positivo — isto é, inteligível — a cada uma das almas humanas.
Os capítulos 2 e 3 confrontam a tese aos problemas ligados ao nascimento dos seres individuais: de um lado a gestação, de outro a influência do conjunto da natureza sobre o nascimento das crianças.
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Quanto à concepção da criança, Plotino não retoma a doutrina comum a Platão e a Aristóteles, exposta no tratado peripatético Sobre a geração dos animais: “O macho fornece a forma e o princípio de movimento, a fêmea, o corpo e a matéria” (I, 20, 729 a 9-11), e parece aceitar um papel ativo da mulher na formação do feto (cap. 2, l. 3).
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Quanto às circunstâncias ligadas ao nascimento, Plotino anuncia aqui o que estará no centro do tratado 52 (II, 3), Sobre a influência dos astros: elas colaboram com a atividade das razões seminais sem ser determinantes; a posição dos planetas no dia da concepção ou do nascimento não é de modo algum a causa principal de nossa identidade.
Em ambos os casos, Plotino conclui pela importância preponderante das razões seminais em ação no vivente.
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O lógos spermatikós que se desenvolve no vivente e nele permanece imanente explica a permanência dos traços próprios de um animal, apesar da transformação de sua causa material.
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Como afirma o capítulo 3: “Há tantas razões quantos indivíduos diferentes.” (l. 4-5)
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Essas “razões” são o meio de ação da Providência e, nesse sentido, têm um conteúdo determinado que tem seu equivalente no mundo inteligível contemplado pela alma providencial.
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Plotino não exclui que haja viventes indiscerníveis ou diferenças que se expliquem apenas pela deficiência da forma ao encontrar a matéria — como ocorre nos produtos da técnica, onde dois objetos produzidos identicamente parecem diferir apenas numericamente; Plotino evita assim entrar na polêmica estoica sobre os indiscerníveis.
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Segundo ele, as verdadeiras diferenças provêm de uma racionalidade transcendente ao mundo sensível — onde nem tudo é integralmente racional, ao contrário do que sustentavam os estoicos; a matéria é causa de perturbação e feiúra, de deformação e irracionalidade.
Bréhier
A tese corrente — devida em grande parte à exposição do platonismo por Aristóteles — era a de que as Ideias platônicas são universais realizados, gêneros e espécies, não havendo portanto Ideias dos indivíduos; Plotino, nas três primeiras linhas do tratado, enuncia a tese contrária e indica em resumo suas razões.
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Negar Ideias dos indivíduos equivale a excluir o próprio eu do mundo inteligível e a excluir dele todo conhecimento desse mundo.
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No início do Parmênides (133 b-134 c), Platão mostrou que a alma não poderia ter conhecimento das Ideias porque “a ciência de nosso mundo será ciência apenas de uma verdade de nosso mundo.”
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Plotino admite que é o próprio eu que, pela dialética ascendente, sobe até o mundo inteligível: o eu, por sua parte superior e em sua intimidade, é membro do mundo inteligível.
O verdadeiro objetivo do tratado não é desenvolver essa solução, mas discutir os argumentos que se opõem à tese — argumentos de grande interesse pelo que revelam de preocupações pouco habituais na filosofia grega clássica.
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Primeiro argumento: a tese das Ideias está ligada à exigência de que haja sempre, na realidade sensível, uma ou várias coisas que participem de cada Ideia — mas o indivíduo Sócrates nasce e perece sem ser substituído por outro Sócrates; além disso, segundo a ortodoxia platônica, a alma de Sócrates não pertence a ele mais do que a qualquer outro personagem em que ela se reencarna pela metempsicose (I, 3-7).
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Segundo argumento: a periodicidade do mundo — tese dos estoicos segundo a qual cada período reproduz o anterior — obrigaria a admitir uma única e mesma Ideia para os múltiplos Sócrates que renascem em cada período; um mesmo modelo bastaria para uma infinidade de indivíduos, ou seria preciso admitir uma infinidade de Ideias (I, 13-18).
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Terceiro argumento: as teorias da geração das escolas médicas e das filosofias por elas inspiradas explicam a individualidade do recém-nascido pela razão seminal — a força interna presente no germe que contém todos os caracteres individuais que se desenvolverão no animal; uma teoria corrente entre os estoicos explica a razão do recém-nascido pela combinação das razões do pai e da mãe, dispensando assim qualquer Ideia eterna do indivíduo (II, 1-5).
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Quarto argumento: há casos, como o dos gêmeos, em que se deve admitir que uma mesma razão basta para vários indivíduos (II, 18-20; III, 1-3).
Nota-se que Plotino não discute a objeção clássica de Aristóteles — segundo a qual a individuação se faz pela matéria e não pela forma —, pois visa apenas adversários que partem do mesmo princípio que ele: as diferenças individuais são essenciais e da ordem da forma, não da matéria.
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Os estoicos, com sua teoria da qualidade própria (idíos poión), foram os representantes mais característicos dessa ideia.
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Os adversários com quem Plotino debate são platônicos que admitem a metempsicose, mas impregnados de espírito estoico — com suas doutrinas do retorno eterno e das razões seminais.
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Toda a crítica desses adversários se reduz a um ponto fundamental: não basta admitir, contra Aristóteles, que a individuação se faz pela forma para concluir que há Ideias dos indivíduos.
As respostas de Plotino repousam sobre um único princípio: os adversários têm uma falsa ideia da individualidade, atribuindo-a à presença na alma de um logos que exclui todos os outros, vendo nela algo que separa os seres — sem compreender o verdadeiro pensamento de Platão no Timeu.
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Toda alma contém em si todas as razões, ela é todas as coisas (I, 9-10; II, 5-6; 10).
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As diferenças de individualidade consistem em que as razões estão mais ou menos dispostas a agir (II, 6).
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Cada indivíduo é como o desdobramento, a entrada em ação de uma razão acima das outras (III, 16).
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O conjunto dos indivíduos forma um sistema bem articulado, cada um desenvolvendo e revelando um aspecto do mundo inteligível, e todos juntos revelando-o sucessivamente por inteiro (III, 14-19).
As respostas às quatro objeções decorrem diretamente desse princípio único.
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Primeira objeção: não é apenas a alma de Sócrates e a de Pitágoras, mas todas as almas que possuem as mesmas razões (I, 7-13).
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Segunda objeção: a teoria dos períodos não supõe uma infinidade de Ideias dos indivíduos, se é verdade que cada período reproduz a mesma evolução (I, 18-27; II, 14-17); e a infinidade que ela supõe — a infinidade das razões em cada alma — não é incompatível com a natureza do mundo inteligível (II, 23-27; III, 21-24).
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Terceira objeção: a geração não cria a razão, pois a alma as possui todas (II, 5-6); a diferença entre filhos dos mesmos pais vem da preponderância de certas dessas razões (7-8); se o adversário insiste em concluir daí que a individualidade da criança tem por causa a desigual resistência da matéria às razões (10-12), Plotino responde que essa resistência explica a feiúra — coisa negativa —, e não a individualidade; o nascimento de gêmeos igualmente belos prova que existe uma forma para cada um, pois seres não podem ser igualmente belos e conformes à natureza sem ter uma razão formal distinta (II, 14-17).
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Quarta objeção: Plotino inclina-se a crer que não há indiscerníveis na natureza, pois nem mesmo os produtos da arte os apresentam (II, 20-23; III, 3-4; 5-13).
O tratado — de uma obscuridade rara nas Enéadas — testemunha a existência de um platonismo estoicizante e implica um esforço de tipo novo para compreender e tornar inteligível o advento ao mundo de indivíduos que nascem e desaparecem.
Igal
BCG57
Este breve tratado é o 18º na ordem cronológica de Porfírio e contém a exposição mais clara de todas as Enéadas de que existem Ideias platônicas dos indivíduos. Antes de Plotino, a opinião geral dos platônicos parecia consistir em que só existem Ideias dos universais, e não dos indivíduos. Os estoicos, embora não acreditassem em ideias transcendentais, sustentavam que nenhum indivíduo era exatamente igual a outro. Cada um tinha sua própria diferença qualitativa. Muito se discutiu se Plotino sustentou de forma contínua e coerente a doutrina aqui exposta: que existem Ideias ou Formas de indivíduos. Há um bom número de passagens nas Enéadas que parecem negá-la. Talvez a conclusão mais cautelosa seja que ele sustentava que existiam Ideias de indivíduos humanos além da (e incluídas na) Ideia do Homem. Sócrates é algo mais do que uma mera instância da humanidade, embora possa ter encarnado várias vezes como Pitágoras e muitos outros personagens. Com relação às Ideias de outras coisas individuais (incluindo os corpos humanos), talvez sua opinião tenha mudado. Provavelmente ele estava decidido a postulá-lo, desde que achasse que os fatos assim o exigissem, mas nem sempre tinha certeza de que fosse assim. Neste tratado (especialmente no capítulo 3), ele insiste mais do que em qualquer outro lugar das Enéadas na aceitação total de toda a posição estoica, segundo a qual cada coisa individual difere essencialmente de outra (doutrina que exigiria de um platônico que postulasse uma Forma para cada indivíduo).
Armstrong
APE
Este breve tratado, o décimo oitavo na ordem cronológica de Porfírio, constitui a afirmação mais clara nas Enéadas de que existem Ideias platônicas de particulares. (A opinião geral dos platônicos antes de Plotino parece ter sido a de que existiam apenas Ideias de universais, e não de particulares. Os estóicos, embora não acreditassem em Ideias transcendentais, sustentavam que nenhuma coisa individual era exatamente igual a outra; cada uma tinha sua própria diferença qualitativa particular.) Tem havido muita controvérsia sobre se Plotino defendia a doutrina aqui exposta, de que existem Ideias ou Formas de indivíduos, de forma contínua e consistente: há várias outras passagens nas Enéadas que parecem negá-la. Talvez a conclusão mais segura seja que ele sustentava consistentemente que havia Ideias de seres humanos individuais, além da (e incluídas na) Ideia do Homem. Sócrates é algo mais do que um mero exemplo da humanidade (embora possa encarnar em vários momentos como Pitágoras e muitas outras personalidades empíricas). No que diz respeito às Ideias de outras coisas individuais (incluindo corpos humanos), sua opinião pode ter variado: ele provavelmente estava disposto a postulá-las se e quando achasse que os fatos exigiam que o fizesse, mas nem sempre tinha certeza de que assim fosse. Neste tratado (especialmente no capítulo 3), ele vai mais longe do que em qualquer outro lugar nas Enéadas no sentido de aceitar a posição estoica completa de que cada coisa individual difere essencialmente de todas as outras (a aceitação disso por um platônico implicaria postular uma Forma para cada indivíduo).
Lloyd
LPE
Plotino aceita o princípio platônico fundamental de que uma Forma é um “um sobre muitos”, ou seja, muitas coisas que são a mesma coisa. Isso deixa em aberto a questão de se ou como aquilo que é incondicionalmente único tem seu paradigma no mundo inteligível. Pelo menos no caso dos intelectos individuais, Plotino quer argumentar que seus paradigmas estão no mundo inteligível como intelectos não descendentes para cada pessoa, além da Forma do Ser Humano. Se essa conclusão é, de alguma forma, extensível a coisas sem intelecto, não fica claro neste tratado nem em algumas outras passagens ao longo das Enéadas.
