V, 6 SOBRE O FATO DE QUE AQUILO QUE É ALÉM DO SER NÃO SE INTELECTUALIZA
Brisson & Pradeau
BP
O objeto do tratado é dissociar a excelência do princípio da atividade de pensamento, destituindo o Intelecto aristotélico de sua primazia para substituí-lo pelo Um — único princípio absolutamente perfeito por estar purificado de toda intelecção.
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A teologia aristotélica é o alvo mais direto: no livro da Metafísica, Aristóteles define a contemplação de deus por si mesmo como “o que é mais agradável e melhor” (7, 1072b24) e apresenta o Intelecto como “a mais divina das coisas” (9, 1074b16).
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Essa destituição do Intelecto representa um dos gestos inaugurais que abrem a história do neoplatonismo: em nenhum lugar do médio-platonismo anterior a superioridade do primeiro princípio sobre toda forma de pensamento havia sido afirmada com nitidez e radicalidade tão pronunciadas.
Para suplantar a “intelecção da intelecção” — a nóēsis noḗseōs aristotélica —, Plotino explora o vínculo entre unidade e primazia, mostrando que o Intelecto não escapa à dualidade e, portanto, não pode reivindicar a primazia absoluta.
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Apenas o que é absolutamente uno pode ser absolutamente primeiro; é preciso portanto sublinhar o afastamento, no interior da intelecção, entre o sujeito — o noûs — e o objeto — o noētón.
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Toda pensamento supõe uma forma de alteridade entre o que é pensado e o que pensa, entre o ser e o que o apreende: o Intelecto não pode escapar à dualidade.
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O Intelecto é ao mesmo tempo um e dois, “simples e não simples” (cap. 1, 13), e por isso não pode mais pretender à primazia — torna-se necessário postular um princípio anterior que seja absolutamente uno e idêntico.
A dualidade inerente à intelecção do noûs não exclui, porém, toda forma de unidade: ao pensar o ser inteligível, o Intelecto pensa a si mesmo e, nessa medida, permanece uno — o que leva Plotino a distinguir cuidadosamente dois modos de pensamento.
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Desde o início do tratado, Plotino precisa que é preciso distinguir claramente o que pensa outra coisa e o que se pensa a si mesmo (cap. 1, 1-2).
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O pensamento na alma é característico do primeiro caso: todo objeto — sensível ou inteligível — é apreendido pela alma como uma realidade outra que ela mesma, sem que ela seja capaz de se reconhecer nela ou de se identificar a ela (cap. 1, 1-3); a alteridade está assim em excesso sobre a identidade.
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No pensamento do Intelecto, ao contrário, há um equilíbrio perfeito entre identidade e alteridade, pois a intelecção do ser se identifica à intelecção de si: o Intelecto apreende necessariamente o ser inteligível como mesmo e como outro.
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Se não houvesse identidade, o Intelecto não seria o que pensa “em primeiro (protos)”: seria requerido um princípio de intelecção superior onde a identidade do pensante e do pensado estivesse plenamente realizada (cap. 1, 8-9).
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Se não houvesse alteridade, o Intelecto estaria privado de todo objeto e seria incapaz de pensar (cap. 1, 12-13).
Toda a argumentação de Plotino tende a dissociar a hierarquia dos modos de pensamento da hierarquia dos princípios de realidade, situando o Um acima do Intelecto como fundamento da unidade dual deste.
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Na hierarquia dos modos de pensamento, o Intelecto ocupa o primeiro lugar: o pensamento de si próprio do noûs constitui o arquétipo de todo pensamento, o pensamento “em sentido forte” (kyrios, 1, 11), do qual o pensamento da alma — incapaz de apreender o mesmo no outro — é apenas uma imagem enfraquecida.
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O que é primeiro na ordem do ser e do pensamento não é o absolutamente primeiro: a unidade dual do Intelecto requer, como seu fundamento, a existência da unidade absoluta do Um.
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Se a intelecção segunda da alma só é possível pela intelecção primeira do Intelecto, esta será por sua vez fundada no Bem superior a toda intelecção (cap. 2, 18-19).
Bréhier
Este tratado é, do início ao fim, uma discussão crítica do capítulo IX do livro Λ da Metafísica, onde Aristóteles definia a realidade suprema como o pensamento do pensamento ou o pensamento de si mesmo. Essa tese de Aristóteles contém dois pontos fortes distintos: 1° Não há, para a inteligência, pensamento superior ao pensamento de si mesmo (1074 b 31-35); 2° O Pensamento de si mesmo é a realidade suprema (1074 b 17-18).
No capítulo I, Plotino adere sem reservas ao primeiro desses dois pontos: somente o ser que pensa a si mesmo pensa no sentido pleno do termo. É preciso notar, no entanto, que ele acrescenta duas observações à exposição de Aristóteles: em primeiro lugar, o ser que pensa a si mesmo é um, na medida em que é a si mesmo que pensa; mas é dois, na medida em que pensa, uma vez que não há pensamento sem duplicação (21-24); além disso, o pensamento de si mesmo pode ser concebido como uma espécie de limite do pensamento de outra coisa, tal como se encontra na alma, onde sujeito e objeto se compenetrariam pouco a pouco, como se, na visão, a luz que está no olho se misturasse com a luz exterior (15-21): duas observações que, em vez de deixar o Pensamento de si mesmo em seu isolamento, como em Aristóteles, já o situam entre o Um e a Alma.
Todo o restante do tratado contém a argumentação contra o segundo ponto da tese peripatética. Entre os argumentos, alguns são desenvolvidos; outros são indicados em poucas linhas, ou mesmo em poucas palavras: parece que Plotino, aqui [110] como frequentemente em outros lugares, segue o esquema de uma argumentação contra Aristóteles já existente em algum comentário de Platão, desenvolvendo-a apenas nos pontos que lhe parecem mais importantes e conservando, para o restante, fórmulas muito breves. Distinguimos, assim, dez argumentos (cada novo argumento sendo indicado, em geral, pela palavra ἔτι).
1° O inteligível é necessariamente anterior à inteligência, caso contrário esta seria vazia. A palavra “inteligível” é aqui empregada, como no Tratado IV, capítulo II (ver a nota), no sentido de realidade suprema, ou Primeiro; mas Plotino tem o cuidado de indicar que, empregada nesse sentido, ela não indica o que o Primeiro é em si mesmo, mas a relação que a Inteligência mantém com ele; e veremos mais adiante que ele é inteligível, não no sentido de que a Inteligência o conhece, mas no sentido de que ela conhece por meio dele. Tratar o Primeiro como inteligível é, portanto, dizer apenas que ele é anterior à inteligência e que, consequentemente, ele não pensa (cap. II).
2° A Inteligência é, como o Um da segunda hipótese de Parmênides, um um múltiplo (143 a); ora, esse um múltiplo pressupõe, antes dele, o Um da primeira hipótese, que é sem qualquer multiplicidade e que, consequentemente, não pensa (cap. III).
3° O Um, sendo sem necessidade, não necessita do pensamento (cap. IV, 1-4).
4° O Um, sendo único, não tem objeto de pensamento (cap. IV, 5).
5° O Primeiro é o Bem; a inteligência apenas participa dele por meio do pensamento (cap. IV, 6-7).
6° Trata-se da indicação de um argumento amplamente desenvolvido no capítulo IV do tratado anterior (ver nota). As duas unidades que, somadas uma à outra, formam o número dois, devem ser precedidas por uma unidade que serve de modelo e de princípio para as unidades que compõem o número: Platão havia dito, a respeito do Um da segunda hipótese do Parmênides (145 e), que ele está «em outra coisa»; Plotino, retomando a expressão para aplicá-la à inteligência, conclui que ela deve [111] depender de um termo superior. Em seguida, ele se afasta da dialética, imaginando a hierarquia das três hipóstases como a de uma luz originária que banhava tudo, o Um; do sol, que, por meio dele, se torna fonte de luz, a Inteligência; e da lua, que o recebe, a Alma (cap. IV, 8-24).
7° Todo pensamento intelectual tem duas condições que não se realizam no Bem: a primeira é ser uma espécie de concentração e síntese de uma multiplicidade (cap. V, 1-5); a segunda é ser posta em movimento e produzida pela aspiração ao Bem; é por meio de seu desejo do Bem que o pensamento pensa a si mesmo; o pensamento imanente a si mesmo não pode ser um absoluto; ele necessita de um fim anterior a si mesmo (cap. V, 5-18).
8° Plotino, por meio de um argumento ad hominem, demonstra em seguida a incompatibilidade dos termos empregados por Aristóteles; este afirma que o termo supremo, o pensamento do pensamento, é o Primeiro Ato; ele deve, portanto, afirmar que o Primeiro Ato pensa, ou seja, que um primeiro ato possui um ato, o que é absurdo (cap. VI, 1-9).
9° A mesma incompatibilidade entre o termo Pensamento, aplicado à realidade suprema, e a tese de que essa realidade pensa; pois não se pode dizer que o pensamento possua o pensamento (cap. VI, 9-11). Em seguida, seguindo a sugestão de Platão sobre a dualidade indefinida do Um da segunda hipótese do Parmênides (142 b-e), ele mostra como o pensamento, se é verdadeiramente pensamento, não pode ser tomado isoladamente e de forma abstrata, mas deve ser pensado pelo ser, sendo o ser e o pensamento formando uma díade, como o ser e o Um no Parmênides, ou melhor, formando tantas díades diferentes quantos forem os pensamentos diferentes (cap. VI, 11-30).
10° O último argumento complementa o anterior, mostrando, na sequência da conexão entre o ser e o pensamento, que a famosa fórmula de Platão, que coloca o Bem além do ser, deve, por essa mesma razão, situá-lo além do Pensamento.
Igal
BCG57
Este tratado ocupa o número 24 na ordem cronológica de Porfírio. Segue-se imediatamente, nessa ordem, ao grande tratado VI 4-5 [22-23]. Nesse tratado, Plotino negligenciou a ênfase na distinção entre as três hipóstases e deixou o Primeiro, o Um além do Ser, em segundo plano. No entanto, no presente tratado, ele parece preocupado em deixar bem claro que as distinções entre as três hipóstases são reais e importantes para ele. Em particular, ele insiste na diferença marcante entre o Primeiro Princípio, o Um que não pensa, e a Segunda Hipóstase, a Inteligência viva que forma uma unidade na dualidade com o Ser. Plotino sabe que esta é uma das partes mais controversas de sua filosofia. Aqui, ele expõe sua posição contra Aristóteles e seus seguidores, bem como contra os platônicos que fizeram do Primeiro Princípio uma Inteligência transcendente. A Terceira Hipóstase, a Alma, é mencionada de forma bastante superficial, com a única intenção de ajudar os leitores a perceber como o pensamento primário da Inteligência — do qual é preciso distinguir a perfeição que não pensa do Um — difere do pensamento secundário das mentes humanas em estado normal.
Armstrong
APE
Este tratado, o vigésimo quarto na ordem cronológica de Porfírio, segue imediatamente, nessa ordem, a grande obra VI. 4-5 (22-3): Sobre a razão pela qual o Ser está presente em toda parte, sendo Um e o Mesmo. Nesta obra, Plotino havia dado menos ênfase do que em qualquer outra parte das Enéadas às distinções entre suas três hipóstases, e havia permitido que a Primeira, o Um além do Ser, ficasse bastante em segundo plano. No presente tratado, ele parece preocupado em deixar claro que as distinções entre as hipóstases ainda eram reais e importantes para ele e, em particular, em insistir na nítida diferenciação entre o Primeiro Princípio, o Um que não pensa, e a Segunda Hipóstase, o Intelecto vivo que forma uma unidade-na-dualidade com o Ser. Ele sabia que essa era uma das partes mais controversas de sua filosofia e defende aqui sua posição — como costuma fazer em outras partes das Enéadas — contra tanto Aristóteles e seus seguidores quanto aqueles platônicos que haviam feito do Primeiro Princípio um Intelecto transcendente. A Terceira Hipóstase, a Alma, é mencionada de forma bastante incidental, e apenas para ajudar seus leitores a perceber como o pensamento primário do Intelecto — do qual se deve distinguir a perfeição não pensante do Um — difere do pensamento secundário das mentes humanas em seu estado normal.
Lloyd
LPE
O objetivo deste tratado é demonstrar que o primeiro princípio de tudo não pensa ou, inversamente, que o pensamento primário não pode ser o primeiro princípio de tudo. Entre os que se opõem à posição de Plotino estão os peripatéticos e os platônicos que identificavam o Demiurgo ou um intelecto divino com o primeiro princípio de tudo. Plotino argumenta aqui que o Motor Imóvel de Aristóteles não pode ser o primeiro princípio de tudo. Uma vez que seu pensamento é o Ser primário, o primeiro princípio deve estar além do Ser primário. Isso não significa, no entanto, que o primeiro princípio não exista. Plotino explica por que aquilo que está além do Ser é idêntico ao Bem.
