IV, 1 A ALMA É INTERMEDIÁRIA ENTRE AS REALIDADES INDIVISÍVEL E DIVISÍVEL
TEMA: EXEGESE DE PLATÃO, «TIMEO» 35a.
1. O melhor do mundo inteligível é a Inteligência; mas também existem nele almas desencarnadas (1-4).
2. Lá, a Inteligência está sempre unida e indivisível; e a Alma também, mas esta possui, mesmo lá, uma natureza pela qual é capaz de se dividir nos corpos, encarnando-se neles (5-12).
3. A Alma é ao mesmo tempo indivisível e divisível, pois consiste de uma essência superior, que é indivisível, e de outra inferior, que se divide nos corpos (12-17).
4. Mas mesmo a parte da Alma que se divide nos corpos se divide neles de forma indivisível (17-22). (Gredos)
Pradeau
BRISSON, Luc; PRADEAU, Jean-François. Plotin Traités 7-21. Paris: GF-Flammarion, 2003.
O argumento deste único capítulo consiste na demonstração da indivisibilidade da alma. Plotino, nos tratados 2 (IV, 7), 4 (IV, 2), 6 (IV, 8) e 8 (IV, 9), já havia aproveitado a frase do Timeu platônico que afirma que a alma é composta de uma mistura de indivisível e divisível “nos corpos”, para sustentar que a alma só se divide relativamente e não realmente, ou seja, que ela exerce aquelas de suas potências que a colocam em relação com os corpos sob a forma de divisão, sem ser ela própria dividida. Assim, não é da natureza da alma ser divisível, como o são os corpos, mas é precisamente a natureza corporal que obriga a alma a exercer suas potências em diferentes partes e em diferentes lugares. O tratado 21 relembra isso, antes de acrescentar uma última precisão: não só a alma se divide apenas nos corpos e não de fato, mas essa divisão em si não é uma divisão. Plotino sustenta, de fato, correndo o risco de um oxímoro que o tratado 27 (IV, 3), 19 se esforçará por justificar, que a parte divisível da alma é ela própria «divisível apenas de forma indivisível». Isso significa que a divisibilidade da alma, inclusive nos corpos, não implica, em última análise, divisão. Portanto, apenas a recepção pelos corpos dos cuidados ou dos efeitos das potências psíquicas é que pode, propriamente falando, ser dividida; mas a alma, sustenta firmemente Plotino, nunca se entrega senão inteiramente.
Observação:
A numeração deste tratado mudou de acordo com as edições, ocupando por vezes o lugar do tratado 4 (IV, 2) nas Enéadas; em sua edição, Porfírio parece ter hesitado quanto ao lugar que este capítulo isolado deveria ocupar, sendo ele sem dúvida um fragmento de um texto mais longo, e optou por torná-lo o segundo tratado da quarta Enéade (Vida de Plotino, 25, 12-15, e 4, 63-65, que dão títulos diferentes ao tratado). Ficino, por sua vez, publicou-o no início da quarta Enéada; é essa numeração que adotamos.
Gredos
A transmissão deste brevíssimo tratado nos códices que o contêm apresenta uma curiosidade singular: todos eles, com exceção do códice E, o transcrevem duas vezes: uma, no final de III 9, imediatamente após a última palavra do referido tratado, como se fizesse parte dele, sem interrupção e sem novo título; e outra, entre IV 2 e IV 3, com o título Sobre a essência da alma, livro II. É fácil verificar que esta segunda localização, com seu título correspondente, corresponde exatamente ao esquema de Porfírio no catálogo sistemático da Vida (25, 12-15), que coloca IV 2 à frente de IV 1. Na lista cronológica anterior, IV 1 havia sido catalogado como o 21º, com o título Em que sentido se diz que a alma é intermediária entre a essência indivisível e a divisível (ibid. 4, 63-64), o que corresponde bastante bem ao conteúdo do tratado como exegese da famosa frase do Timeu platônico (35 a). Todos esses dados apontam para a existência, na mente do biógrafo-editor, de um processo de hesitações no qual seria possível distinguir três momentos: inicialmente, Porfírio pensou em incluir IV 1 entre as questões diversas ou Miscelânea de III 9 como mais uma questão e mandou copiá-lo de acordo com esse plano; posteriormente, ao redigir a lista cronológica, e, talvez, com o objetivo de elevar para 54 o total de tratados, preferiu separá-lo de III 9, atribuindo-lhe um título próprio e sem relacioná-lo com IV 2; finalmente, ao decidir a ordenação sistemática, optou por colocá-lo atrás de IV 2 com o novo título Sobre a essência da alma, livro II, mas esquecendo-se de dar a ordem para apagar a transcrição anterior; ou talvez tenha sido seu amanuense que se esqueceu de cumpri-la; daí a existência de duas transcrições. A numeração que ele possui atualmente (IV 1 em vez de IV 2) deve-se a Ficino, que, em sua tradução, o colocou como o primeiro da Enéada IV.
