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neoplatonismo:plotino:eneada-iii:2:start

Enéada III, 2

Jesús Igal

Já indicamos na introdução a III 1 que, dos três fatores que ali concorriam como causas das coisas e eventos do cosmos — a Alma do universo, a alma individual e a fatalidade —, o primeiro deles ficava muito em segundo plano nesse tratado inicial. Em contrapartida, todo o interesse deste magnífico tratado Sobre a providência, dividido, e mal dividido, em dois livros na edição porfiriana, centra-se precisamente na atividade providencial da Alma do cosmos e na sua relação com as outras duas causas concomitantes. Vista como propriedade imanente ao cosmos, a providência consiste na conformidade deste com a Inteligência, para o que é preciso, em primeiro lugar, que todas e cada uma das coisas do mundo estejam bem dispostas e, em segundo lugar, que o conjunto de todas elas esteja perfeitamente coordenado. Por isso, considerada em sentido estrito como atividade da Alma, a providência compreende duas grandes operações: uma de “diordenação” (diátaxis) de todas as coisas consideradas individualmente, e outra de “coordenação” (sýntaxis) do conjunto de todas elas, incluindo aquelas não causadas diretamente pela providência, mas pelas outras duas concausas. Agora bem, embora ambas as operações apareçam descritas de forma entrecruzada ao longo de III 2-3, não é menos verdade que, se nos guiarmos pelos pontos tratados e até mesmo pelo vocabulário empregado, o tema dominante de III 2, 4-14 (após a introdução dos três primeiros capítulos) é o da “diordenação”, e o tema dominante em III 2, 15-18 e III 3 é o da “coordenação”. Por isso, se formos dividir o tratado em dois livros, o segundo deveria ter começado em III 2, 15, 1, que é precisamente o ponto de transição do tema da “boa disposição” das coisas consideradas individualmente para o de seu “entrelaçamento” (symploke). Tanto a “diordenação” quanto a “coordenação” são operações da Alma concebida como Logos em seus dois níveis: o superior e o inferior. Por isso, Plotino distingue correspondentemente na “providência total” dois níveis, um superior e outro inferior, constituídos por dois Logoi. É importante perceber que o Logos, cuja gênese e natureza são descritas detalhadamente em III 2, 16, não é mais do que o Logos da Alma inferior, ou seja, o componente inferior da providência total e não o Logos total nem o constitutivo da providência total, uma vez que tanto a “diordenação” quanto a “coordenação” pressupõem uma sabedoria maravilhosa e uma presciência que não se dão na Alma inferior, mas sim na superior. A proeminência dada ao Logos da Alma inferior em III 2-3 deve-se precisamente, embora pareça paradoxal, ao fato de ser inferior. Esclareçamos este ponto: Plotino aplica à constituição dos graus de realidade inferiores ao Um-Bem uma concepção quase hilomórfica inspirada em Aristóteles. A Inteligência autossubsistente consiste em Matéria e Forma inteligíveis. A Alma superior consiste em uma matéria psíquica e no Logos primário como princípio formal. Por sua vez, a Alma inferior é constituída pela vida como matéria e por um Logos de segunda ordem como forma. Finalmente, o mundo sensível é um composto sui generis de matéria como substrato e da soma dos Logoi de terceira ordem como forma. O princípio imperante na concepção dessa gradação escalonada, ao mesmo tempo que quase-hilomórfica, é o da degradação progressiva da realidade, um princípio no qual Plotino insiste no presente tratado. Daí a proeminência do Logos da Alma inferior em III 2-3, porque, precisamente por ser inferior, é a causa próxima, ao mesmo tempo que justificativa, do cosmos como composto multiforme e integrado por elementos díspares e até contrários. A análise precedente nos serve, além disso, para precisar a relação existente entre a Alma, a providência e o Logos: o Logos superior ou inferior é o princípio formal constitutivo, respectivamente, da Alma superior ou inferior. É o ato da Alma perfeita em ato; é para a Alma em ato o que a Forma é para a Inteligência autossubsistente em ato. Segundo isso, pode-se dizer que, de certa forma, o Logos é distinto da Alma e está na Alma; mas precisamente porque o Logos é o princípio formal da Alma, também se pode dizer que a Alma é seu Logos ou que o Logos é Alma. Os dois pontos de vista são igualmente legítimos. Por outro lado, a providência é a atividade da Alma em ato orientada para o cosmos; por isso, a providência se identifica com o Logos da Alma; e por isso, também, a providência total, assim como a Alma total e o Logos total, existe em dois níveis, um superior e outro inferior. Finalmente, como a Inteligência não é Logos, mas é o princípio do Logos, também não é, estritamente falando, providência, mas é o princípio da providência. Cronologicamente, o tratado Sobre a providência pertence ao terceiro período (Vida 6, 7-10) e vem imediatamente a seguir a I 4, Sobre a felicidade, com o qual apresenta não poucas afinidades. Plotino inspira-se, antes de tudo, no Timeu e nas Leis de Platão e, em grande medida, também nos estoicos. Os adversários que ele tem em mente são os epicuristas e os gnósticos, bem como os estoicos, na medida em que estes identificavam a providência com o destino.

SINOPSE

I. INTRODUÇÃO: TEMA E PRÉ-REQUISITOS (III 2, 1-3).

1. Tema: partindo do pressuposto da existência da providência, estudemos seu modo de ser e de agir e, prescindindo da providência particular, examinemos as consequências que decorrem da admissão da existência da providência universal (1, 1-15).

2. Pressupostos sobre a gênese e a natureza do cosmos (1, 15-3, 41):

a) O cosmos sensível é eterno; portanto, não é resultado de um cálculo de Deus (1, 15-26).

b) Embora seu modelo inteligível seja um Todo unitário e concordante, o cosmos sensível está fragmentado em uma multiplicidade de partes não bem harmonizadas (1, 26-2, 7).

c) O cosmos sensível é uma mistura de Razão e matéria, porque é resultado da criatividade connatural da Inteligência, que o originou enviando uma Razão à matéria (2, 8-42).

d) Mesmo assim, não há motivo para reprovação nem contra o cosmos nem contra o Criador do cosmos (cap. 3).

II. A “NÃO-ORDENAÇÃO” DE CADA COISA PARTICULAR (III 2, 4-14).

1. Explicação de certas anomalias aparentes: destruições mútuas, injustiças, infelicidade, privações, doenças e outros males (cap. 4-5).

2. O problema das sortes imerecidas (cap. 6-14):

a) Exposição do problema (cap. 6).

b) Solução (cap. 7-14):

1) Nos seres mistos, não se deve buscar a perfeição absoluta; basta uma perfeição relativa (7, 1-12).

2) A responsabilidade pelos atos ruins é do homem (7, 12-28).

3) As sortes imerecidas não provam que a providência não se estenda até a terra nem que domine (7, 29-43).

4) O homem ocupa uma posição intermediária no universo (8, 1-11).

5) O fracasso dos medíocres se deve à sua própria negligência (8, 11-52).

6) O homem não é anulado nem pela providência nem por qualquer outra causa (cap. 9-10).

7) É a própria Razão que tornou as coisas desiguais (cap. 11) e que as distribui de acordo com sua posição (cap. 12), aplicando-lhes a lei do talião (13, 1-15) e a mais estrita justiça distributiva (13, 16-33).

8) A ordenação do cosmos, sem ter sido planejada, é mais perfeita do que se tivesse sido: o cosmos é composto de partes desiguais, mas o conjunto é como uma estátua grandiosa (cap. 14).

III. A “COORDENAÇÃO” DO CONJUNTO (III 2, 15-18 + III 3, 1-7).

1. Primeira objeção: a guerra sem quartel de alguns animais contra outros e de alguns homens contra outros desmente essa suposta coordenação (15, 1-17).

— Resposta: as devorações mútuas são trocas necessárias ou mudanças de disfarces; os ataques mútuos são jogos: como danças guerreiras ou representações teatrais que não afetam o homem interior (15, 17-62).

2. Segunda objeção: não haverá mais pecado (16, 1-10).

— Resposta: gênese, natureza e efeitos da Razão do cosmos (16, 10-17, 11):

a) Gênese: não é uma Inteligência autossustentável nem a Razão da Alma superior, mas uma irradiação de ambas e nascida de ambas (16, 10-17).

b) Natureza: é uma vida “racionalizada”, conformada, conformadora e artística; uma Razão multiforme e “unitotal” composta de elementos conflitantes, como o drama, e contrastantes, como a harmonia (16, 17-58).

c) Efeitos: o cosmos sensível, como produto da Razão do cosmos, é menos um do que esta e consiste em elementos mais antagônicos; os bons e os maus são como personagens opostos encarnados pelo mesmo dançarino (17, 1-11).

3. Terceira objeção: não haverá mais maus ou, pelo menos, eles não serão maus por culpa própria (17, 12-16):

— Resposta (17, 16-18, 26):

a) Analogia do drama: no drama cósmico, o Autor é a Razão, e os atores, as almas; o Autor distribui às almas os papéis que lhes correspondem de acordo com sua categoria; a boa ou má atuação depende delas (17, 16-64).

b) O cosmos é um conjunto harmonioso de elementos opostos; analogias da harmonia e da cidade (17, 64-89).

c) Existem almas melhores e piores devido, em parte, a diferenças naturais e, em parte, à sua boa ou má conduta (18, 1-5).

d) Analogia do drama: no drama cósmico, tanto as almas boas quanto as más e tanto as ações boas quanto as más fazem parte integrante do plano do Autor (18, 5-26).

4. Quarta objeção: o mal não pode ser parte integrante da Razão; a alma superior não pode ser mera parte da Razão (18, 26-29).

— Resposta (III 3, 1-5):

a) As almas formam um sistema unitário; portanto, também o formam as razões e as ações; analogia do gênero (cap. 1).

b) Analogia do general que controlava não apenas seu próprio exército, mas também o exército e os planos do inimigo (cap. 2).

c) Você foi considerado como você é, mas a providência não é culpada nem pela degradação natural progressiva das coisas nem pelos atos maus do malvado (3, 1-4, 9).

d) A providência total engloba e coordena todas as coisas, mas o responsável pelos atos maus é o malvado, tendo em conta o seu livre arbítrio e as vidas passadas (4, 9-54).

e) Uma única providência, mas diversificada e hierarquizada: acima, apenas providência; abaixo, providência, fatalidade e livre arbítrio, tudo coordenado pela providência (cap. 5).

5. A adivinhação: é possível, mesmo a dos males, pela co-implicação de uns contrários em outros e pela analogia que reina no universo (cap. 6).

6. O cosmos é composto de coisas melhores e piores; de uma única Razão indivisível brota a variedade hierárquica do cosmos, assim como da raiz indivisível de uma árvore brota uma árvore multiforme e hierarquizada: galhos, ramos, folhas, frutos e até, de certa forma, as excrescências supérfluas que preenchem os espaços vazios (cap. 7).


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