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Corpo e Matéria

Ennéades (tr. Bouillet)

O que é o ser? Seria o que chamamos de quatro elementos: a terra, o fogo e as duas naturezas intermediárias? Podemos chamar de seres essas coisas tomadas em conjunto ou cada uma separadamente? Não, uma vez que são geradas e suscetíveis de metamorfoses, uma vez que as vemos nascer umas das outras e se alterar, não permanecendo na forma de elementos nem na de agregados. Um corpo dessa espécie não poderia ser o ser. Mas então a matéria seria o ser? Ainda menos: pois ela é incapaz de permanência. A matéria é um rio de curso rápido e impetuoso, que tem comprimento, largura e profundidade incomensuráveis e infinitos…

Tiveram razão ao dizer que, se a matéria é infinita, ela é indeterminada; se é indeterminada, é irracional; se é irracional, é desconhecida. Sendo desconhecida, é necessariamente desordenada: pois é fácil conhecer o que tem ordem. O que é desordenado não tem permanência; o que não tem permanência não possui o ser. Ora, é precisamente isso que afirmamos acima, quando dizíamos que todas essas características não poderiam ser atribuídas ao ser. Gostaria, a esse respeito, de compartilhar minha convicção com todos os homens. Repito, portanto: nem a matéria, nem os corpos são o ser. O que, então? Não temos algo mais no universo? — Sim. — Não é difícil descobri-lo, desde que façamos a nós mesmos este raciocínio: uma vez que todos os corpos são, por natureza, perecíveis, inertes, móveis, sem qualquer permanência, não precisam eles de um princípio que os contenha? — Certamente. — Eles subsistiriam sem a ajuda desse princípio? Não, certamente. — Qual é, então, o princípio que contém os corpos? Se fosse um corpo, precisaria de Júpiter, o conservador, para escapar da dissolução e da dispersão. É necessário que esse princípio esteja livre das paixões corporais para poder conter os corpos e preservá-los da destruição. Nesse caso, não poderia ser outra coisa senão o incorpóreo: pois é a única natureza que é permanente, invariável e que nada tem de corpóreo. É por isso que o incorpóreo não é gerado, não cresce, não se move de forma alguma, e é justo conceder-lhe o primeiro lugar. (Fragmento em Eusébio, Preparação para o Evangelho, XV, 17.)

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