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Filosofia

DILLON, John M. The middle platonists: 80 B.C. to A.D. 220. Rev. ed. with a new afterword ed. Ithaca (N.Y.): Cornell university press, 1996.

  • A filosofia de Albino, tal como exposta no Didaskalikos, começa com algumas definições de base, nas quais a filosofia é “um anseio pela sabedoria” ou uma “libertação e distanciamento da alma do corpo”, sendo esta segunda definição inspirada na República e a preferida por Albino.
  • Sobre a ordem dos ramos do saber filosófico, Albino não apenas fornece a ordem Física-Ética-Lógica, mas equipara a Física à teoria e a Ética à práxis, reconduzindo assim as subdivisões da filosofia à distinção entre as duas Vidas, a teórica e a prática, e, para o propósito do ensino prático, ele as considera na ordem Lógica-Física-Ética – a costumeira ordem estoica.
  • Na teoria do conhecimento, Albino distingue três elementos: a faculdade de operar o julgamento, o objeto do julgamento e o julgamento propriamente dito, sendo este último mais propriamente chamado de kritérion, ou padrão de julgamento, e o julgamento é o resultado do assentimento concedido pela mente a uma impressão.
  • O tipo de logos que apreende os inteligíveis é definido por Albino como logos epistémonikos, e seu produto é o conhecimento científico, epistéme, enquanto aquele que se ocupa do mundo sensível é o logos doxastikos, e seu produto é a opinião, doxa.
  • Esta distinção de uma categoria de conhecimento independente da percepção sensível representa um distanciamento radical de Antíoco e um elemento fundamental do médio-platonismo em sua forma evoluída, sendo o nome desta atividade da mente noêsis, “intelecção”, definida como “a atividade da mente que contempla os inteligíveis primeiros”.
  • “Os inteligíveis primários são julgados pela intelecção ou sem o EL, por apreensão imediata e não-discursiva; os inteligíveis secundários são julgados pelo EL ou sem intelecção; os sensíveis primários e secundários são julgados pela percepção sensível ou sem o DL; o corpo composto é julgado pelo DL ou sem percepção sensível.”
  • “A reta razão não julga da mesma maneira o que é objeto respectivamente da contemplação e da ação, mas, no âmbito da contemplação, busca o verdadeiro e o que não é verdadeiro, enquanto, no âmbito das ações, busca o que é próprio e o que é estranho ao agente e qual é o conteúdo da ação.”
  • “Pois, porque possuímos uma noção natural do belo e do bom, utilizando a razão e fazendo referência às noções naturais como a parâmetros bem definidos, julgamos se determinadas ações são belas e boas, ou não.”
  • A abordagem de Albino ao problema da exposição da lógica de Platão é a de atribuir-lhe sem reserva todo o sistema de lógica peripatética descrito por Aristóteles e reelaborado por Teofrasto e por Eudemo, encontrando nos diálogos exemplos que ilustrem não apenas os silogismos categóricos, mas também os hipotéticos “puros” e “mistos”.
  • O princípio fundamental da dialética é examinar a substância de cada coisa e, depois, seus acidentes, sendo que a substância pode ser examinada ou por via “descendente”, com o processo de divisão e definição, ou por via “ascendente”, com a análise, e os acidentes podem ser examinados ou “pelo aspecto das coisas contidas”, por indução, ou “pelo das coisas que contêm”, com a silogística.
  • “A indução é muito útil para suscitar os conceitos inatos.”
  • “O silogismo é um discurso em que, postas algumas premissas, deriva necessariamente algo diferente delas, pelo simples fato de que elas foram postas.”
  • “Os silogismos podem ser categóricos, hipotéticos e mistos dos dois precedentes: são categóricos aqueles cujas premissas e conclusões são proposições simples; hipotéticos aqueles constituídos por proposições hipotéticas; mistos aqueles que contêm proposições dos dois tipos.”
  • Albino também reivindica as Categorias para Platão, fazendo uma vaga referência ao “Parmênides e em outro lugar”, adotando assim as categorias aristotélicas como platônicas, mas subordinando-as às mais gerais categorias veteroacadêmicas do Absoluto e do Relativo.
  • Em relação aos princípios primeiros, Albino fornece uma síntese da doutrina do Timeu sobre a Matéria, na qual há apenas uma expressão que é aristotélica, em vez de platônica: a Matéria é descrita como “não corpo, […] mas corpo em potência”.
  • Acerca das Ideias, eis a sua definição: “Considerada respeito a Deus, a Ideia é sua intelecção; respeito a nós, é um inteligível primeiro; respeito à matéria, é medida; respeito ao mundo sensível, é modelo; respeito a si mesma, é substância.”
  • Albino prossegue com a definição de uma ideia como “um paradigma eterno de coisas naturais”, que é simplesmente a definição de Xenócrates e representa uma doutrina médio-platônica de base, com a qual são definitivamente excluídas entidades como os objetos artificiais, as perversões de estados naturais, os indivíduos, os conceitos relacionais e até mesmo “as coisas de pouco valor”.
  • São fornecidas quatro provas silogísticas da necessidade da existência das Ideias: (1) pela natureza de Deus; (2) pela natureza da matéria; (3) pela natureza do Cosmo; (4) pela diferença entre Conhecimento e Opinião.
  • No capítulo 10, chega-se à terceira archê, o próprio Deus, tendo-se aqui três entidades dispostas em ordem ascendente de importância: a Alma, a Mente e o Primeiro Deus, segundo uma modalidade que sugere uma hierarquia de Seres.
  • “Dado que a Mente é melhor do que a alma, e da Mente em potência é melhor aquela em ato que pensa ao mesmo tempo e eternamente todas as coisas, e mais belo do que este é a sua causa e o que pode existir ainda acima destas realidades, este será o Primeiro Deus, que é causa da eterna atividade do intelecto de todo o céu.”
  • “Pur sendo imóvel, o Primeiro Deus age sobre o cosmo como o sol age sobre a visão, quando ela se volta para ele, e como o objeto desejado move o desejo, permanecendo imóvel; assim, pois, esta mente moverá a mente de todo o céu.”
  • “Visto que a primeira Mente é sumamente bela, também o objeto inteligível do seu pensamento deve ser forçosamente sumamente belo; mas nada é mais belo do que Ela. Portanto, ela pensará eternamente si mesma e os seus pensamentos, e esta sua própria atividade é a Ideia.”
  • Segue-se uma lista escassa de epítetos aplicáveis ao Deus Supremo, sendo que ele é eterno e indescritível, e três epítetos em -teles são apresentados com uma glossa explicativa: “que não deseja nada”, “eternamente perfeito” e “inteiramente perfeito”.
  • “[Deus] é Pai, porque é causa de todas as coisas, e porque ordena a Mente celeste e a Alma do Mundo em relação a si e aos seus pensamentos. Com efeito, encheu de si cada coisa segundo a sua vontade, despertou a Alma do Mundo e a voltou para si, sendo causa da Mente desta. Esta, tornada ordenada pelo Pai, confere por sua vez ordem à Natureza inteira neste cosmo.”
  • Albino procede ilustrando três métodos para “descrever” Deus: o primeiro é o da Negação ou da “remoção dos atributos”, a partir da Primeira Hipótese do Parmênides; o segundo é o da Analogia, como exemplo do qual ele reporta a metáfora do Sol no livro VI da República; o terceiro é o da Anagôgê (“subida”), cujo exemplo é fornecido pelo famoso discurso de Diotima no Banquete.
  • Sobre o mundo físico, no capítulo 13, em relação à descrição das figuras geométricas de base no Timeu, tem-se um tratamento detalhado da quinta figura, o dodecaedro, que Albino conecta com os doze signos do zodíaco, onde as 360 subdivisões do círculo do zodíaco correspondem aos 360 triângulos no dodecaedro.
  • “Quando Platão diz que o mundo é 'criado', isso não deve ser entendido no sentido de que houve um tempo em que o mundo não existia, mas, antes, no sentido de que o mundo está em perene devir e revela uma causa mais originária da sua própria existência.”
  • “Também a Alma do Mundo, que é eterna, Deus não a cria, mas simplesmente lhe dá ordem; poder-se-ia dizer que Ele a cria no sentido de que a desperta, voltando para Si a Mente da alma e a própria alma, como de um profundo letargo ou de um sono, para que, fixando seu olhar nos inteligíveis, ela acolha as Ideias e as Formas, por desejo dos pensamentos de Deus.”
  • Sobre os demônios, Albino descreve que há também outros daimones, que se poderiam também chamar de “deuses criados”, para cada um dos elementos, alguns são visíveis, outros invisíveis, no éter e no fogo, no ar como na água, de modo que nenhuma parte do mundo é desprovida de alma ou de um ser vivo superior à natureza mortal, e a estes estão submetidas todas as coisas abaixo da lua e todas aquelas acima da terra.
  • Os demônios – diz – encarregam-se de todos os tipos de adivinhação, natural e “artificial”, e o fato de que os oráculos são administrados pelos demônios, em vez de pelos próprios deuses, é uma consolidada doutrina médio-platônica.
  • No capítulo 18, que é uma discussão sobre a visão, há uma passagem sobre os espelhos e sobre a teoria da refração, que não parte da doutrina de Platão, mas a formaliza adicionando numerosos termos técnicos, um dos quais é anaklasis, “refração”.
  • Sobre a natureza da alma, Albino combina uma formal aceitação da tripartição platônica da alma com uma subdivisão da alma, de fato, em racional e irracional, ou “passional”, como ele a denomina.
  • “O conhecimento, com efeito, não pode consistir em outra coisa que não uma reminiscência de coisas conhecidas numa existência precedente. Com efeito, se pensássemos os conceitos universais a partir dos objetos particulares, (a) como poderíamos passar em revista todos os particulares, que são infinitos, ou, antes, (b) como poderíamos basear-nos apenas em alguns deles? Assim fazendo, por exemplo, cairíamos no erro de julgar como animal somente aquilo que respira. Ou, como poderiam os conceitos revestir a função dominante? O nosso pensamento opera, pois, em termos de reminiscência a partir de pequenas fagulhas: com base em dados sensíveis individuais, nos lembramos das coisas conhecidas numa existência precedente, das quais depois nos esquecemos com a encarnação da alma no corpo.”
  • Albino sanciona como doutrina platônica a da imortalidade da alma racional, mas considera as almas irracionais mortais, porque não participam da mente, e, segundo o testemunho de Proclo, “Ático, Albino e outros como eles” sustentam que só a alma racional é imortal, e abandonam à destruição toda alma irracional e o veículo pneumático da alma.
  • A alma divina tem três aspectos: o crítico ou cognitivo, que corresponde à nossa parte racional; o apetitivo ou “disposicional”, que corresponde à nossa parte irascível; e o “apropriativo”, que corresponde à nossa parte desiderativa, e isso vale também – acrescenta Albino – quando as almas ainda não desceram nos corpos.
  • Quanto ao motivo da descida das almas nos corpos, Albino fornece quatro indicações: 1) a manutenção de um número constante de almas; 2) a vontade dos Deuses; 3) a intemperança, isto é, a pecaminosa obstinação por parte da alma; 4) o amor do corpo.
  • A respeito do Fato, da Providência e do Livre Arbítrio, eis a teoria de Albino: 1) Todas as coisas estão no âmbito do Fato e, no entanto, nem tudo é fatal; 2) o Fato tem o papel de lei: ele não diz, por exemplo, o que uma dada pessoa fará ou o que outra pessoa sofrerá; 3) porque faltaria o que está em nosso poder, além dos motivos de louvor e de censura; 4) antes, o Fato diz que, se uma alma escolhe uma vida de um certo tipo e realiza determinadas ações, irá ao encontro de determinadas consequências.
  • “A alma é, pois, autônoma: o fato de agir ou de não agir depende dela; isso não é fruto de coerção, mas as consequências de suas ações se cumprirão em conformidade ao Fato.”
  • Sobre a ética, o bem para o homem consiste na “conhecimento e contemplação do Bem Primário, que se poderia chamar Deus ou Primeiro Intelecto”, e Albino defende o princípio da autossuficiência da Virtude, estando inesperadamente de acordo com o platonismo alexandrino (e com Ático), segundo o qual a Felicidade se encontra apenas nos bens da alma.
  • O escopo da vida é “a assimilação a Deus”, um princípio que é remontado a Teeteto 176b, e, por “Deus” – bem entendido – Albino entende o Deus celeste, e não, por Zeus, o supra-celeste, que não tem virtude, mas é superior a ela.
  • “Poderemos chegar a tornar-nos semelhantes a Deus (a) se dispusermos de adequadas faculdades naturais, (b) de costumes, de uma educação e de uma prática de vida conformes à lei e, sobretudo, © se usarmos a razão, o ensino e a tradição das doutrinas, de modo a mantermo-nos afastados de muitas das ocupações humanas e a cuidarmos, ao invés, sempre das verdades inteligíveis.”
  • A virtude é definida, em termos derivados de Aristóteles, como “a condição perfeita e melhor da alma, que torna o homem bem ordenado, harmônico e seguro no falar e no agir em relação a si mesmo e aos outros”.
  • “As virtudes são certamente umas vetrices, dada a sua perfeição e a sua semelhança com a retidão; no entanto, por outros versos elas são termos médios, porque ao lado de cada virtude, ou da maioria delas, captam-se dois vícios, um por excesso e um por falta.”
  • “Se alguém experimenta um impulso em direção ao vício, primeiramente se lançará em direção a ele na convicção de que se trata não de um vício, mas de um bem; se alguém cai no vício, o faz apenas porque se enganou, acreditando, ao preço de um mal menor, evitar um mal maior; nesse sentido, ele chegará ao vício involuntariamente.”
  • “A virtude política é uma virtude ao mesmo tempo teórica e prática, que busca tornar a cidade boa, feliz, concorde e harmônica; ela exerce uma função de comando, à qual estão submetidas a arte da guerra, a estratégia e a função judiciária.”
  • Sobre a atividade de Albino como mestre, a partir de sua breve obra Introdução aos Diálogos de Platão, ele divide os diálogos, segundo as linhas guia ditadas por Trasilo, em diálogos expositivos e investigativos, mas simplifica drasticamente o elaborado esquema diarético de Trasilo.
  • Albino nega que a ordem dos diálogos estabelecida por Trasilo seja útil para os fins do ensino, preferindo começar com o Alcibíades I, que diz respeito ao conhecimento de si, o primeiro requisito para quem quer ser filósofo, passando depois ao Fédon, depois à República, e enfim ao Timeu.
  • Antes de estudar a doutrina positiva, seria preciso purificar a mente das falsas opiniões e exercitar as faculdades mentais, estudando os diálogos investigativos, e essa breve Introdução lança um olhar sobre a natureza do ensino em pelo menos uma escola platônica do período.
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