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Radicalidade ontológica do saber

Mesquita

O saber como pergunta e resposta em Platão se define inteiramente pela questão “o que é”, que orienta ao mesmo tempo o proceder filosófico e a vida humana em sua busca de sentido.

  • A questão “o que é” não é um método entre outros, mas o único procedimento possível de um saber que não se abstrai da vida.
  • O perguntar “o que é” corresponde à natureza intrínseca daquilo que se busca conhecer.
  • A radicalidade dessa questão é tanto de exigência especulativa quanto de coerência e sentido existencial.

A ignorância radical é o ponto de partida necessário e inaugural do verdadeiro saber platônico, pois não saber “o que é” equivale a não saber coisa alguma.

  • Não saber “o que é” implica não saber nada, porque sem esse saber nenhum outro se sustenta.
  • A ignorância provoca simultaneamente um radical desejo de saber e um radical desejo de ser.
  • Essa tomada de consciência percorre a totalidade dos diálogos platônicos, especialmente os do primeiro período.

A ignorância generalizada aparece em múltiplos diálogos como condição infamante que ameaça o sentido da vida, conforme Sócrates declara em várias ocasiões.

  • No Górgias, a instabilidade dos “pareceres” é sinal de uma ignorância monumental e infamante.
  • No Mênon, Sócrates declara jamais ter encontrado alguém que soubesse a excelência.
  • No Laques, o reconhecimento final da ignorância sobre a coragem vem acompanhado da proibição socrática de que os presentes permaneçam nesse estado.
  • Na Apologia, Sócrates declara a “sabedoria humana” como “algo de pouco ou mesmo de nenhum valor”.

No Hípias Maior, a ignorância atinge sua formulação mais radical, sendo comparada à morte pelo interlocutor interno que Sócrates chama de “terrível adversário”.

  • Sócrates descreve esse adversário como alguém que habita sua casa e não o deixa descansar com a questão “o que é”.
  • O adversário pergunta a Sócrates: “Como é que estabeleces que um qualquer discurso tem uma forma bela ou não, e do mesmo modo para os outros atos, desconhecendo o belo?”
  • O adversário conclui: “Pensas tu, porventura, que, quando se está nesta situação, a vida seja muito melhor do que a morte?”

Quatro traços fundamentais definem a ignorância em Platão e seu valor maiêutico como situação germinal do verdadeiro saber.

  • Saber é saber “o que é”.
  • Ninguém sabe “o que é”.
  • Tal ignorância é equivalente à morte.
  • Urge saber.

A ignorância tem uma dupla função no pensamento platônico: expõe seu caráter infamante e indica ao mesmo tempo o caminho para superá-la.

  • Por um lado, patenteia a ignorância, mostra seu caráter vergonhoso e incentiva a superá-la.
  • Por outro, aponta o que justamente se ignora, ou seja, “o que é”, indicando a direção do verdadeiro saber.

Na Apologia, a questão “o que é” se autonomiza de seu vínculo exclusivo com a excelência e passa a abranger a totalidade dos possíveis saberes humanos.

  • A declaração de que a sabedoria humana é “de pouco ou mesmo de nenhum valor” tem alcance absolutamente genérico.
  • Sócrates examina políticos, poetas e artesãos, representando metonimicamente a totalidade dos homens.
  • Nenhum dos examinados sabe em que consiste aquilo que diz saber, revelando uma ignorância total e opaca a si mesma.
  • Não saber significa não saber nenhuma coisa, não saber as coisas tais como elas são — o que cada coisa é.

A descoberta da ignorância universal abala o mundo desde suas raízes, revelando que as coisas não são como se julgava e que a própria noção de “coisa” se torna estranha.

  • O mundo familiar se transforma no inquietante mar do que provoca a saber, justamente porque mostrou primeiro que não era sabido.
  • Apodera-se de quem descobre isso a vertigem de um mundo diferente que é, de modo mais inquietante ainda, o mesmo mundo.
  • Essa ignorância recém-descoberta é já a ignorância do sábio, pois detecta um outro domínio de saber que supera e justifica o anterior.

Quem ignora “o que é” vive como se o conhecesse, e sua vida torna-se ilusória, participando do estatuto fluido do sonho e da sombra.

  • O que não conhece “o que é” julga conhecê-lo, de modo que sua vida é ilusória duplamente: quanto ao ato de conhecer e quanto ao objeto que julga conhecer.
  • Aquilo que o ignorante chama de ser não é; e do que verdadeiramente é, nem sequer suspeita.
  • Só quem autenticamente sabe autenticamente é — e quem nada sabe na verdade nada é, sendo apenas uma pálida sombra de si mesmo.
  • O ser de “nulo valor” é o ser da maior parte dos homens.

Os diálogos socráticos visam mostrar que nada sabemos e apontar simultaneamente o que há a saber, revelando a alternativa entre o verdadeiro caminho e os falsos caminhos.

  • O que há a saber é justamente o que não se sabe e o que, por não ser sabido, faz de todo saber um puro nada.
  • Esse que não se sabe, que há a saber e que faz do saber existente um nada, é “o que é”.
  • O diálogo socrático coloca o homem diante da alternativa radical entre a filosofia e a sofística, entre o saber que é nada e o saber do que verdadeiramente é.
  • A verdadeira aporia não é aquela a que os diálogos chegam — essa é simultaneamente o lugar do caminho; a verdadeira aporia é o estado de quem vive o “nada” sem o saber.
  • Nenhum interlocutor sai do encontro com Sócrates sem ter escolhido: esse encontro foi o encontro com a própria escolha.

O Hípias Maior divide-se estruturalmente em prólogo, onde se caracteriza o sofista, e diálogo propriamente dito, onde se discute a natureza do belo — sendo seu tema real o saber e suas condições.

  • As condições do saber expostas nesse diálogo correspondem ao que nos diálogos posteriores receberá o nome de “ideias”.
  • O caráter aporético do diálogo advém da incapacidade de Hípias de alcançar a compreensão da exigência contida nessa exposição.
  • À progressiva caracterização do sofista como ignorante corresponde simetricamente a progressiva caracterização do filósofo como aquele que parte da ignorância assumida em direção ao projeto do saber.

A contraposição entre sofista e filósofo no Hípias Maior é a contraposição entre saber aparente e saber real, expressa na exigência socrática do “próprio belo” diante das meras “coisas belas”.

  • Hípias não compreende que perguntar “o que é o belo” é absolutamente diverso de perguntar “o que é belo”.
  • O saber verdadeiro está vinculado desde o início à dimensão do “próprio”, ou seja, à dimensão das ideias.
  • É o desconhecimento dessa dimensão de “o que é” — mais do que o desconhecimento do que efetivamente é — que configura toda a espessura da ignorância sofista.
  • O conhecimento dessa mesma dimensão, ainda quando desprovida do conhecimento do que efetivamente é, eleva a ignorância socrática ao estatuto de um saber germinal.

A ignorância e o saber em Platão não se opõem de modo simples, mas se articulam em uma circularidade dialética que define o lugar próprio da filosofia.

  • A ignorância absoluta não é o mero desconhecimento do que as coisas são, mas a radical desatenção ao plano específico de “o que é”.
  • O saber projetado começa pela assunção desse mesmo plano como campo a prosseguir e pesquisar.
  • O verdadeiro saber é imediatamente filosofia porque não se dá como radical conhecer do que é, mas como simples projeto desse conhecer.
  • Sabendo que se ignora, sabe-se o que se ignora — e só é possível saber que se ignora quando se sabe o que se ignora.
  • A filosofia como projeto de adveniência ao saber nada mais é do que a tematização daquilo que a um tempo se sabe e se ignora — ou seja, da anamnese.
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