Distinção Ontológica Fundamental
A distinção entre “ser belo” e “ser o belo”, estabelecida no Hípias Maior, corresponde a uma distinção ontológica fundamental entre “as coisas que são” e “o que cada coisa é”.
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A distinção não se reduz à diferença linguística entre adjetivo e substantivo, nem à diferença metalinguística entre predicado e sujeito ou entre “acidente” e “substância”.
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O que cada coisa é aponta para o “é” da própria coisa — esse “é” que nunca é coisa nem a coisa, mas que esta vai sendo.
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À pergunta “o que são estas coisas?” responde “são belas”; à pergunta “o que é aquilo que cada uma delas é?” responde “é o belo”.
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A distinção se coloca entre as coisas na sua imanência total e o caráter ontológico que as determina.
Essa distinção não apenas aponta “o que é” em sua diferença em relação ao que “vai sendo”, mas está ela mesma na base da própria questão “o que é”.
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A emergência dessa questão está expressamente descrita na República, no quadro das ciências que convêm àquele a quem está reservada a contemplação do bem.
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Para fundamentar o estudo dos números, Platão recorre à análise das sensações que implicam percepção dupla ou contraditória — como as que registram simultaneamente grandeza e pequenez numa mesma coisa.
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Essas sensações contraditórias requerem a intervenção de uma instância não sensível — o pensamento ou a reflexão — para que sua aporia interna seja resolvida.
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É a essa operação de distinguir, acessível apenas ao pensamento, que Platão atribui a origem do perguntar pelo “o que é”.
A propósito da dupla percepção do “grande” e do “pequeno”, Sócrates enuncia na República o momento em que a questão “o que é” surge pela primeira vez.
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Sócrates afirma a Glauco que o pensamento é obrigado a ver o grande e o pequeno não confundidos, mas separados, ao contrário da visão.
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Sócrates conclui: “Daqui, então, surge pela primeira vez em nós o questionar pelo que é afinal o grande e o pequeno.”
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Sócrates acrescenta que, quando há sempre simultaneamente naquilo que é visto uma contradição, “a alma, forçosamente suspensa nisso, investiga, movendo em si mesma o pensamento, e interroga o que é afinal o próprio um.”
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Esse estudo pode assim ser um dos que impele e converte para a contemplação daquilo que é.
Entre os dois trechos da República opera-se uma sutil mudança de registro: no primeiro, é a própria sensação que é contraditória; no segundo, é aquilo mesmo que é visto que contém a contradição.
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No primeiro trecho, a visão percebe os contrários num só e como um só, por embaraço que precede e causa a contradição.
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No segundo, o pensamento tem de distinguir perguntando “o que é afinal o próprio um”, orientando-se não para a coisa que aparece como uma, mas para “o próprio um”.
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Essa é precisamente a caracterização com que o Hípias Maior descreve a distinção entre “ser belo” e “ser o belo”.
O perguntar por “o que é” descobre sua pertinência a partir da evidência, revelada pela sensação, de que nenhuma das coisas é puramente o que é.
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Esse perguntar surge, na ordem psicológica, de um testemunho estésico, mas funda-se, em ordem mais radical, na necessidade que força a alma a mover em si mesma o pensar para superar a aporia.
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A distinção entre “coisas que são” e “o que é” é ao mesmo tempo causa primeira do perguntar e seu resultado mais flagrante, quando esse perguntar expressa a própria ordem da razão.
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A pergunta “o que é?” revelou-se uma exigência da própria razão quando confrontada com aquilo que, sendo, nunca é inteiramente.
A distinção entre os dois tipos de ser funda dois tipos de olhar, dois tipos de alma e dois tipos de homem.
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Há aquele que descobre a dimensão irredutivelmente diferente de “o que é” e que, não sabendo ainda o que efetivamente é, sabe que ignora — e é por isso filósofo.
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Há o que resiste a reconhecer tal dimensão e que, não sabendo sequer que não sabe, é, como Hípias, uma “sombra errante”.
O que há de fundamental nesse passo é que a questão “o que é” se coloca a partir da própria indigência ontológica que “as coisas que são” manifestam.
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A sensação dá algo como sendo A e não-A; isso não é possível, e a alma fica suspensa em si mesma, sendo então necessário apelar ao pensar.
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A razão subjacente — lição corrente de Platão, ainda que não alegada nesse ponto — é que nenhum ente pode ao mesmo tempo sofrer, ser ou fazer coisas contrárias segundo o mesmo aspecto e em relação à mesma coisa.
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Nada pode ser simultaneamente A e não-A, a menos que o seja segundo dois aspectos diversos ou duas perspectivas diferentes — ou seja, a menos que “tome parte” em dois distintos modos de ser.
A pergunta “o que é?” radica na convicção fundada de que o que quer que seja que é e não é não pode simplesmente ser, a menos que aquilo de que participa seja mais originariamente o aspecto ou a perspectiva de que simultaneamente toma parte.
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Esse aspecto e essa perspectiva são a ideia — princípio fundador da própria adveniência — como os modos de ser de que “as coisas que são” tomam parte.
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Na questão “o que é?” e no modo de sua emergência está já a ideia, não ainda como resposta, mas como sentido último e último motivo da questão.
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A ideia é apontada e circunscrita pela questão como aquilo que há ainda a saber.
