Transposição do Conhecimento
FESTUGIÈRE, André-Jean. Contemplation et vie contemplative selon Platon. Paris: Vrin, 1936.
O principal cuidado de Platão como filósofo foi constituir uma ciência, o que exigia encontrar uma noção do ser que servisse de fundamento a um saber certo e o conduziu do visível ao invisível.
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De maneira geral, os filósofos da natureza (physikoi) pré-socráticos se detinham no visível, e a inteligência se porta ao espetáculo das aparências (horan ta phainomena) para ordená-las e compreendê-las.
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As aparências estão num fluxo perpétuo, e nós mesmos, que as percebemos, não cessamos de mudar, mas toda ciência supõe a apreensão de um ser estável.
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A Ideia, em sua gênese, está imediatamente ligada à consideração da mudança, nascendo de uma deficiência e da necessidade de suprir a ela, tendo desde as origens todos os caracteres de um objeto de fé.
A Ideia aparece primeiramente ao final do Crátilo, diálogo que segue de perto a fundação da Academia (388-387) e precede o Fédon de um ano, fazendo parte de uma primeira série onde o autor desobstrui o terreno antes de expor detalhadamente a teoria das Ideias.
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É o fluxo indefinido dos sensíveis (aistheta) que serve de ponto de partida para a alusão à teoria das Formas, sendo preciso remontar, além dos nomes, a princípios sem nome, os únicos garantes da verdade dos nomes porque exprimem a verdade dos seres.
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Esses princípios se deixam descobrir por si mesmos ou, quando são aparentados, um pelo outro, e o que se pergunta é qual ciência ou qual espécie de descoberta conduz a esses entes (onta).
A questão de saber se existe um belo e um bom em si mesmo (auto to kalon kai to agathon), e assim para cada um dos seres em particular, é colocada, considerando-se esse ser em si mesmo que não está em fluxo perpétuo.
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O belo em si não permanece sempre tal como é, necessariamente, enquanto as coisas belas sensíveis mudam constantemente.
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Se o ser em si nunca é da mesma maneira, como poderia existir? Pois se ele é sempre da mesma maneira e idêntico a si, não pode mudar nem se mover, já que não se afasta em nada de sua própria forma (idea).
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A própria noção de conhecimento está em jogo: se o que conhece (o sujeito) e o que é conhecido (o objeto) estão em perpétua mudança, nem o que deve conhecer nem o que é para ser conhecido existirão mais.
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Se, ao contrário, o que deve conhecer existe sempre, e do mesmo modo o que é para ser conhecido (o belo, o bem, cada ser em particular), então essas realidades não têm nada que se assemelhe ao escoamento e à mobilidade.
Nenhum conhecimento é possível sem a imutabilidade das Formas, ponto doravante adquirido que o Fédon em toda parte supõe, servindo o Crátilo de introdução ao diálogo que se segue imediatamente.
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A vida contemplativa sendo uma vida de conhecimento, quatro problemas se apresentam: como a Ideia é, de direito, objeto primeiro do conhecer e como a alma, por essência, se ordena à visão da Ideia (problema do noeton e do nous).
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Pergunta-se também como a ascensão em direção à Ideia exige uma purificação moral do sujeito (problema da katharsis) e paralelamente uma purificação intelectual do nous e de seu objeto (problema da dialética).
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Finalmente, ao termo da dialética, questiona-se como se completa a união do nous ao noeton, qual o modo próprio do theorein, e em que essa visão difere do dianoesthai (discurso) e pode ainda ser dita uma visão (problema do conhecimento de contemplação).
A análise procede por graus, segundo uma sequência de aproximações onde se procura apertar cada vez mais de perto a natureza própria do theorein.
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Consideram-se primeiramente os elementos em estado bruto, que não dão toda a resposta, examinando apenas as condições sem as quais não há contemplação.
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É preciso que o inteligível, separado do sensível, exista com o mesmo caráter de realidade que o sensível, e que o intelecto, para apreender o inteligível, seja da mesma natureza que seu objeto.
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Para contemplar no sentido preciso da palavra e experimentar o sentimento da presença do Ser, é preciso ultrapassar a inteligência pura e elevar-se a um modo de conhecimento que não seja simplesmente percepção de uma ideia, mas união a um Ser.
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A questão seria vã se não se tivesse mostrado primeiro que o inteligível, sem ser do sensível, é bem do ser, e que essa realidade é suscetível de ser vista pelo pensamento.
