Noeton e Noûs
FESTUGIÈRE, André-Jean. Contemplation et vie contemplative selon Platon. Paris: Vrin, 1936.
Estrutura e propósito do Fedro
O diálogo se organiza em três discursos principais sobre a imortalidade da alma, precedidos por um prólogo e intercalados por seções de transição e objeções.
-
A disposição dos discursos no texto segue uma ordem que equilibra os dois primeiros (61c-84c) com o terceiro (91c-115a), sendo todos separados por intervenções que incluem silêncio, alegorias e críticas.
-
Cada um dos três discursos se encerra com uma exortação moral e religiosa que reforça a necessidade de purificação antes da morte, conferindo ao conjunto um caráter ético.
-
O primeiro discurso se baseia em crença e opinião, sem ultrapassar o verossímil, enquanto o segundo oferece certezas por meio de três argumentos dialéticos que mostram a alma como princípio da vida e do pensamento.
-
O terceiro discurso, após refutar as objeções de Simmias e Cebes, estende a doutrina das Formas do ponto de vista do conhecimento para o do ser, provando que a alma, por ser princípio de vida, é não-mortal e indestrutível.
A contemplação como determinação da vida filosófica
A vida filosófica é apresentada como uma preparação para a morte, na qual o verdadeiro bem consiste na separação da alma em relação ao corpo.
-
Sócrates, mesmo estando próximo da morte, rejeita a ideia de suicídio com o argumento de que os seres humanos pertencem aos deuses.
-
A morte é definida como a separação entre alma e corpo, e as preocupações do filósofo se voltam inteiramente para o cuidado da alma, não para o corpo.
-
Os sentidos não fornecem a verdade, e a alma só toca o que é real quando exerce a razão pura, livre de qualquer perturbação externa ou sentimento.
-
Afirma-se a existência de realidades como o justo em si, o belo em si e o bom em si, cuja essência não é vista pelos olhos do corpo, mas alcançada pelo pensamento que as caça com a razão sem mistura.
-
A aquisição da verdade e da sabedoria exige o divórcio completo de tudo o que é corporal, de modo que o puro, em nós, se una à pureza das Ideias por meio de uma contemplação da alma.
A contemplação como união entre alma e Ideia
O segundo discurso do Fedro visa fundamentar a esperança na imortalidade, mostrando a solidariedade de existência entre a alma e as Ideias por meio de argumentos que partem dos contrários, da reminiscência e da semelhança com o incomposto e o divino.
-
Pelo argumento dos contrários, estabelece-se que o reviver nasce da morte, de modo que as almas dos mortos continuam a existir.
-
A doutrina da reminiscência prova que a alma existiu antes do corpo, uma vez que o aprender é um recordar; além disso, ela demonstra que há um igual em si, um belo em si, um bem em si, um justo em si e um santo em si, dos quais a alma teve conhecimento em uma existência anterior.
-
O argumento da semelhança com a Ideia incomposta afirma que o que é sempre idêntico a si mesmo, como o igual em si e o belo em si, é incomposto e, portanto, indissolúvel, ao passo que o corpo pertence à espécie do visível e mutável.
-
A alma, por ser invisível e tender a se concentrar em si mesma para se unir ao que é puro, eterno e imutável, demonstra ter uma parentela de essência com o invisível e o imutável.
-
O segundo aspecto do argumento mostra a parentela da alma com o divino: enquanto o corpo obedece, a alma comanda, e o que comanda se assemelha ao divino, que por sua vez é imortal e indissolúvel.
A contemplação como explicação última do cosmos
A contemplação, ao ser vinculada às Ideias, fornece a explicação última para a existência do mundo, superando as explicações meramente mecânicas dos físicos.
-
Sócrates buscou nos sistemas dos físicos, incluindo o de Anaxágoras, uma causa que fosse verdadeiramente causa, capaz de explicar o porquê do mundo e dos atos humanos com base na escolha do melhor.
-
A conclusão a que se chega é que a alma, por ser princípio de vida, exclui a morte e, por participar da Forma do imortal, que é indestrutível, também se torna indestrutível.
O inteligível
O Fedro estabelece um divórcio radical entre o objeto dos sentidos, que é mutável, e o objeto do pensamento, que é imutável, verdadeiro e inteligível.
-
Os sentidos não alcançam o ser, que é invisível e só pode ser visto por um outro olho, o olho da alma; essa distinção separa o mundo sensível do mundo inteligível, e a contemplação se volta exclusivamente para este último.
-
A imutabilidade das Formas não apenas oferece termos fixos para o conhecimento, mas também o funda, pois só se conhece ao participar de um conhecer em si, que jamais abandona sua própria essência.
-
A Ideia funciona como causa material, formal e final da contemplação: ela fornece a matéria a ser conhecida, constitui o próprio ser do conhecimento e move a alma a exercê-lo por ser um bem.
-
No caso particular do conhecimento, a participação na Ideia se aproxima de um vínculo de identidade, porque a reminiscência revela que a alma é essencialmente conhecedora e retorna, por natureza, a ser Ideia entre Ideias.
-
O intelectualismo platônico é aristocrático: o mundo existe para ser conhecido, e o conhecimento deve conduzir o sábio à visão das Formas puras, sendo o bem supremo unir-se o mais possível ao Ser verdadeiro.
-
A existência real das Ideias tem para Platão o caráter de uma verdade absoluta que não precisa ser demonstrada, sendo aceita como postulado primeiro, digno de confiança, porque é a condição de todo pensamento lógico e de toda ciência.
O intelecto
A contemplação exige um órgão apropriado para apreender o inteligível, e esse órgão é o intelecto, que funciona segundo o princípio geral de que o semelhante conhece o semelhante.
-
No Fedro, afirma-se que o corpo é incapaz de contemplar a essência de cada coisa, e aquele que se prepara para pensar exclusivamente com o pensamento puro, sem a interferência dos sentidos, é quem mais se aproxima do verdadeiro conhecer.
-
A lei do semelhante, já presente em Empédocles e na tradição grega, explica que o conhecimento resulta do encontro de dois semelhantes: vê-se a terra pela terra, a água pela água, e o pensamento opera pelos semelhantes.
-
Platão aplica esse princípio ao afirmar que a alma, por ser invisível e comandar o corpo, assemelha-se ao divino e, portanto, participa dos privilégios do ser em si, embora essa prova não tenha força apodítica porque o comando é uma condição de fato e não essencial.
-
A República sugere que o filósofo, ao contemplar a harmonia das Formas imutáveis, termina por imitá-las e a elas se assimilar, tornando-se tão ordenado e divino quanto possível para um ser humano.
-
O Timeu compõe a alma de três elementos – o indivisível (inteligível), o divisível (sensível) e um intermediário que combina o Mesmo e o Outro – justamente para que ela possa conhecer tanto os objetos inteligíveis quanto os sensíveis, obedecendo à lei da similitude.
-
A dificuldade central permanece: a lei da similitude é um axioma, mas a natureza exata da semelhança entre a alma e a Ideia não é plenamente demonstrável, e a psicologia do Timeu é uma consequência teórica, não um princípio primeiro.
