Contemplação e vida contemplativa... – Prefácio
FESTUGIÈRE, André-Jean. Contemplation et vie contemplative selon Platon. Paris: Vrin, 1936.
Prefácio
O livro foi preparado por longas reflexões sobre as origens da teologia mística do cristianismo, reconhecendo-se que o movimento originado em Jesus dotou de vida nova um organismo preexistente cuja estrutura remonta a Platão.
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Clemente, Orígenes e Agostinho também perceberam que, ao pensarem sua mística, os Padres platonicamente agiam.
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Nem tudo no edifício místico cristão é original, podendo ser comparado, conforme imagem paulina, a uma velha árvore revitalizada por uma enxertia.
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Para se definir essa mudança provocada pelo cristianismo, é preciso conhecer o ponto de partida, isto é, a árvore original.
Muitas razões, como a ambiguidade da palavra contemplação e a dificuldade de sintetizar um pensamento fluido e sutil, desviavam o autor do empreendimento, mas ele se engajou na tarefa com a esperança de ser útil a espíritos atentos ao problema, porém menos familiarizados com o platonismo.
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O autor sentia também o incômodo de ter que resumir textos já centenas de vezes descritos e muito bem explicados.
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Foi Platão quem decidiu o autor a prosseguir, quando este ainda duvidava, ao marcar o objetivo e o método da investigação.
O sentido próprio e técnico da palavra “theoria” é fornecido pelos próprios Diálogos, nos quais a contemplação não se reduz à consideração ou intelecção de essências ou primeiros princípios.
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Aquele que percebe, na essência de homem, a relação da diferença específica com o gênero não é um contemplativo, nem aquele que abraça a unidade indivisível de uma proposição como o princípio da contradição.
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Mesmo que toda a ciência formasse um discurso coerente e analítico apreendido por um olhar imediato e simples, ainda assim não se teria a contemplação.
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A “theoria” designa um sentimento de presença, um contato com o Ser apreendido em sua existência, ultrapassando a linguagem e a intelecção.
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O objeto visto está além da “ousia” (essência), é inefável e não se deixa circunscrever em definição alguma.
É a um tal contato e união que a dialética ascendente do Banquete e da República faz chegar, sendo o Ser supremo, que é mais que uma Forma, o objeto da contemplação no sentido próprio.
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Esse Ser puro é apreendido pelo “nous” (intelecto) quando este se purifica do corpo, da imagem sensível e de toda expressão inteligível.
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A doutrina nasce de uma experiência que só pode ser atribuída à mística, e essa apreensão intuitiva do Ser existente funda a existência das Ideias.
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A dialética descendente, que subordina toda a ordem inteligível a um Primeiro por modo de explicação interna, passa do domínio conceitual ao plano do ser.
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A realidade do objeto de ciência depende da realidade desse primeiro objeto que se viu, conforme oferecem os Diálogos, se se der às palavras seu sentido óbvio e não metafórico.
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A ideia de contemplação, com suas exigências, é o centro da doutrina, o foco de onde jorram e para onde convergem os raios.
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Os Diálogos ensinaram o autor a tomar a ideia pela raiz para seguir sua gênese, sendo necessário remontar, além de Platão, aos pré-socráticos, aos sofistas e à Atenas do século V.
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Três problemas se descortinaram então: a deficiência da “theoria” do sábio e da “theoria” cultual, ambos com a mesma origem na impossibilidade de afirmar uma realidade transcendente, além de questões sobre o governo do Estado e o papel do sábio.
Certos filósofos pré-socráticos tinham como fim o conhecimento das leis do ser, dedicando-se inteiramente à especulação pura, mas, sem sair do mundo visível, seu pensamento se chocava com a contradição.
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Nenhuma ciência é possível sem um critério de certeza, e esse critério faltava aos pré-socráticos.
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A religião que se dirigia a deuses belos, felizes e bons não sabia coordenar esses três aspectos, sentindo-se que a excelência visível significava um valor moral, sem, contudo, demonstrar esse vínculo.
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A “theoria” do sábio e a “theoria” cultual revelavam-se deficientes, ambas com a mesma origem na impotência de afirmar a existência de uma realidade transcendente.
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O futuro da cidade estava em jogo, pois sem justiça a cidade não pode durar, e o dogma do útil só favorece querelas incessantes que levam à anarquia ou à tirania.
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A questão de como conhecer a justiça e se existe uma ciência do justo se colocava como fundamental.
Supondo-se que a ciência do justo existe e que é precisamente a contemplação do sábio, pergunta-se qual papel atribuir a esse sábio no Estado, dado que o regime político e social da cidade grega só permite o florescimento do homem na medida em que ele se incorpora ao conjunto.
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Quem se destaca do conjunto é um “inútil” e é desprezado, mas o sábio tem menos direito que qualquer outro de viver isolado, pois a salvação do Estado depende do conhecimento da justiça, que só ele possui.
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O governante deve ser filósofo, mas surge a dificuldade de conciliar o exercício da contemplação, que exige recolhimento e afastamento da multidão, com a ação de governar, que exige envolvimento.
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Uma reforma se impõe: Sócrates conhecia a justiça e podia salvar a cidade, mas foi condenado e morreu, acusando a tarefa do regime.
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Propõe-se unir o poder e a filosofia, reservando-se ao filósofo um modo de existência onde se conciliem seus deveres de sábio e de cidadão.
Os problemas enfrentados por Platão implicam-se uns aos outros, apoiando-se, em definitivo, na possibilidade de atingir o Ser e dependendo de uma certa teoria do conhecimento.
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Só haverá ciência verdadeira se se possuir um objeto perfeitamente imutável, inteligível e existente.
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Imutável, a essência deixa o plano visível pelo invisível, tornando-se, por definição, um “noeton” (inteligível), cuja inteligibilidade lhe é devida em virtude de sua natureza.
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Ordenada a um sistema de “noeta”, a dialética platônica conduz, por si mesma, a uma ciência dedutiva que exclui a experiência.
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O “noeton” é dito existente porque a própria dialética conduz a um Primeiro que ultrapassa a intelecção, a um Ser além da “ousia” cuja existência é apreendida como presente por uma visão, ligando-se assim o problema do ser e da ciência à contemplação.
Só haverá moral e religião verdadeiras se os privilégios de onde os deuses tiram sua felicidade forem legítimos de direito, respondendo a hierarquia do divino à dialética do ser.
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O mais ser é o mais divino porque é também o mais belo e o melhor, pois a ordem inteligível determina a ordem moral e fornece a base da beatitude.
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Ser feliz é imitar a Deus, Medida Soberana, mas imitá-lo é conhecê-lo, e esse conhecimento é contemplação.
Só haverá cidade verdadeira onde reinar a justiça, e aquele que viu sua essência é o único fundado para governar.
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Longe de a contemplação desviar do serviço, o filósofo traz ao bem comum a ajuda mais eficaz, e, em retorno, os sentimentos cívicos inspiram a “theoria” e lhe imprimem o ímpeto.
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Forma-se um círculo: é o amor à pátria e a seus deuses que move o sábio a contemplar, e esse mesmo amor o arranca da solidão para enviá-lo de volta à caverna.
Os três problemas, que formam um único problema sob três aspectos, jorraram das circunstâncias, sendo Platão o contrário de um sonhador, e sua grandeza mais autêntica está em ter reconhecido as necessidades de Atenas e reportado essas faltas à sua causa primeira.
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Daí vem a unidade de sua obra e de sua pessoa, com uma lógica interna, sem rigidez, flexível como a vida, regulando seu desenvolvimento.
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Platão não viu de imediato todo esse progresso nem fixou a sequência dos Diálogos desde o primeiro dia, mas estes obedecem a uma preocupação comum: reduzir toda dificuldade religiosa, moral ou cívica ao problema do conhecimento.
Essas divisões naturais decidiram o plano do livro, que, após ter introduzido à “theoria” mostrando as condições em que ela nasceu, delineia seu tríplice aspecto.
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O autor acredita ter seguido apenas os dados da história, devendo o mérito do livro, se houver algum, a essa fidelidade escrupulosa.
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A tarefa obrigou a longas análises e a muitas discussões, mas o convívio com um espírito tão grande e uma alma tão nobre já traz sua recompensa.
Os encorajamentos recebidos foram de grande socorro, sendo um dos mais agradáveis deveres do autor agradecer aqui ao Sr. L. Robin.
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O Sr. L. Robin aprovou o desígnio da obra e suas observações penetrantes permitiram corrigir mais de um erro e expressar o pensamento de forma menos imperfeita.
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Foi considerado perfeitamente inútil indicar uma bibliografia, pois, estando a “theoria” no coração do platonismo, seria necessário nomear todas as obras concernentes a Platão.
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O autor declara ter lido muito e espera que nada de essencial lhe tenha escapado até junho de 1935, data em que pôs o último ponto ao manuscrito.
