Origens da ideia de contemplação
FESTUGIÈRE, André-Jean. Contemplation et vie contemplative selon Platon. Paris: Vrin, 1936.
A palavra theoria se relaciona com a ideia primeira de visão, sendo reconhecida como um composto de dois temas que indicam igualmente a ação de ver.
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A raiz Fop designa originalmente a ação de cuidar de, supervisionar, donde “observar”.
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A escola peripatética quis relacionar a primeira metade da palavra a theos (deus), mas o dórico theaoros torna essa etimologia caduca.
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Os latinos deram cedo a “contemplari” um sentido religioso, relacionando-o a “templum”, entendendo que contemplar é admirar o grande templo que é o mundo.
Não é seguro que theoros e seus compostos tenham tido de imediato, na Grécia, valor religioso, embora Teócrito e Epicarmo usem a palavra para designar “aquele que consulta um oráculo”, e o sentido cultual esteja presente.
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Em Ésquilo, em “Prometeu”, a expressão “theoros de meus sofrimentos” mostra tratar-se apenas de uma simples visão, sem ideia religiosa, conforme a etimologia.
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A acepção técnica de “assistente a uma festa, a um espetáculo religioso” deve ter aparecido bem cedo, como no título de uma tragédia de Ésquilo.
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É provável que “theoria” e “theorein” tenham rapidamente conotado uma referência ao divino, significando um ato de culto pelo qual, admirando as honrarias prestadas à divindade, dela se aproxima e com ela se regozija.
Embora o vocábulo talvez não remonte aos pré-socráticos, o que ele expressa já não seria para eles uma realidade, pois eles não teriam fundado, à sua maneira, a vida teorética na qual se entrega à ciência pura?
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Como tal existência induz ao desinteresse pelas coisas da cidade, não se vê o filósofo exposto, por esse fato, à censura pública?
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Esses dois traços se reencontrarão na doutrina platônica: primeiro, a sublimação do objeto de conhecimento transforma, a partir do Fédon, a ideia de conhecimento e, por conseguinte, a de theoria.
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Em segundo lugar, um dos maiores cuidados da República será provar que o filósofo, longe de ser um “inútil”, deve pretender ao governo.
A obra de Platão fará sofrer à contemplação religiosa um progresso análogo, pois, como o objeto divino dessa contemplação não é mais uma bela forma visível, mas a invisível Beleza, o amor que move em direção ao objeto eleva daquilo que era apenas um reflexo até o Exemplar.
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A dialética da Ideia comanda, ao mesmo tempo que uma dialética do conhecimento, uma dialética do amor.
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A Ideia é duplamente “telos”: sendo o Ser por excelência, ela é eminentemente o termo do conhecer; sendo o divino mais divino e, portanto, o mais belo, ela é o mais alto objeto que se possa amar.
O esforço de Platão parece ter consistido, desde então, em espiritualizar a theoria sob seus dois aspectos de consideração científica e de contemplação religiosa, esforço que talvez tivesse tomado outra direção sem a influência de Sócrates.
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Platão frequentou Sócrates desde 412 até a morte do mestre, e Sócrates fez do adolescente um homem.
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Se esse homem não foi apenas um sábio ou um artista, mas um contemplativo no sentido próprio, e se teve o cuidado de subordinar tudo a uma experiência de vida interior, é a Sócrates que o deve.
A introdução visa, portanto, um tríplice objetivo: traçar a imagem do sábio que, como Anaxágoras, leva o “bios theoretikos” na acepção mais larga que essa palavra comporta antes de Platão; definir a theoria nas práticas do culto; e discernir, entre os traços da fisionomia de Sócrates, aqueles que explicam o império desse raptor de almas.
