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Uno-Poiesis

DECK, John N. Nature, contemplation, and the one: a study in the Philosophy of Plotinus. Burdett, NY: Larson Publ, 1991.

O Uno, autoconstituto, gera o Noûs permanecendo perfeitamente estável e inabalável, do mesmo modo que o sol gera a luz ao redor de si sem se inclinar adiante.

  • O exemplo da geração de luz pelo sol é empregado por Plotino com frequência para explicar a geração e a produção.
  • O ponto de comparação é duplo: a geração não implica nenhuma diminuição da fonte, e a fonte é simultânea ao gerado e ao emitido.
  • Essas comparações são possíveis porque Plotino aparentemente acreditava que o sol não é enfraquecido pela emissão de luz e que a luz não demora tempo para percorrer da fonte ao objeto iluminável (IV, 3, 10, 1-7).

O Uno possui todo o poder e é precisamente a potência de produzir todas as coisas (V, 4, 2, 39-40), sendo senhor dessa potência exatamente no sentido de que não necessita das coisas que vêm depois dele.

  • O Uno não necessita dessas coisas de modo algum: é o mesmo após gerá-las do que antes, e sua geração ou não geração lhe é indiferente (V, 5, 12, 39-44).

O Uno, sendo perfeito, transborda como que por superabundância e, desse transbordar, faz surgir outro — e esse transbordar é um quasi-transbordar porque o Uno é e permanece perfeito e em si mesmo inabalado.

  • “[O Uno], sendo perfeito, por não buscar nada, nem ter nada, nem necessitar de nada, transborda como que, e sua superabundância faz outro…” (V, 2, 1, 7-9.)
  • O Uno produz todas as coisas por não ter necessidade delas; por ser perfeito — e é perfeito — deve produzir, ou, mais propriamente, produz simpliciter.
  • “E, enquanto permanecem, todos os seres dão, de sua própria entidade, ao redor de si mesmos e em direção ao que está fora de si mesmos, e de seu poder presente, uma hipóstase necessariamente deles dependente. Essa hipóstase é como que a imagem do arquétipo do qual é produzida. O fogo dá o calor que dele emana: e a neve não retém o frio exclusivamente dentro de si. As coisas odoríferas dão testemunho especial disso. Enquanto são, procede algo delas, ao redor delas, de modo que a mais próxima das coisas que estão ao redor participa disso. Ora, tudo o que já é perfeito gera. O que é sempre perfeito gera sempre, e gera algo eterno.” (V, 1, 6, 30-39.)
  • A conexão completa entre perfeição e geração é o ponto central: tudo o que é perfeito gera, de modo que o Uno, sempre perfeito, sempre gera.
  • Ficino traduz menei por “perseverante” — o que perdura gera algo eterno.

A expressão “de sua própria entidade” (ek tes auton ousias) deve ser entendida no sentido de fonte originativa, não de material, conforme esclarece a distinção entre o ato da entidade e o ato a partir da entidade (V, 4, 2, 27-39).

  • Há um calor do fogo que é o mesmo que o fogo, e um calor que deriva do fogo.
  • Quando o fogo, permanecendo exatamente o que é, exerce o calor interior que é idêntico a si mesmo, o calor “em direção ao exterior” (pros to hexo) já necessariamente veio a ser.
  • O Uno, permanecendo em si mesmo, em seu próprio assento (V, 4, 2, 27-39), tem sua perfeição em si e exerce seu próprio ato co-subsistente, que é ele mesmo.
  • O Noûs necessariamente toma sua hipóstase desse ato íntimo do Uno e, ao fazê-lo, vem ao ser e à entidade.
  • O ato a partir da entidade é necessário quando o ato da entidade se está exercendo.

O que é inferior “vem em direção” ao superior para receber entidade, forma ou ordem — metáfora que chama a atenção para a relativa autocontinência de todos os princípios superiores e para sua indiferença em relação ao inferior.

  • É como se se dissesse que um artefato “vem em direção” ao artesão, na medida em que começa a corresponder ao seu habitus artístico ou “ideia criativa”.
  • A hipóstase dependente está “ao redor” da fonte (V, 1, 6, 31) — não conceito espacial, mas metáfora espacial para exprimir a contiguidade ôntica de gerador e gerado.
  • A hipóstase dependente é dada “do poder presente” (ibid., linha 32) do gerador — expressão explícita de uma noção central à doutrina plotiniana da produção: os agentes produtivos, isto é, gerativos ou poiéticos, agem pela mera presença.

A hipóstase dependente é imagem (eikon) do gerador — conceito que exprime a dependência completa do produzido em relação ao seu produtor e a relativa falta de realidade do inferior em relação ao superior.

  • O Noûs é o eikon (V, 1, 7, 1), o mimema e o eidolon (V, 4, 2, 26-27) do Uno.
  • A alma é o eikon, o mimema (V, 8, 12, 16-17) e o eidolon (V, 1, 7, 39) do Noûs.
  • Em geral, cada agente produtivo é o mimema de seus produtores (III, 8, 7, 6-7).
  • Para Plotino, o análogo sensorial primário de eikon não é a imagem no sentido de uma estátua, mas a imagem no sentido de um reflexo num espelho — imagem que toma sua entidade verdadeiramente do que está antes dela e nasce disso, não subsistindo quando cortada do gerador (VI, 4, 10, 1-15).

Na geração do Noûs pelo Uno, todos os efeitos possíveis são realizados, e o produzir do Ser e dos seres é necessário.

  • “Não convinha que o poder [do Uno] fosse detido, como que circunscrito pelo ciúme, mas avança sempre, até que todas as coisas, até a última, cheguem ao limite de sua possibilidade…” (IV, 8, 6, 12-14.)
  • “…se algo mais pudesse ser gerado a partir dele, nada seria para ele objeto de ciúme. Ora, porém, não há nada a ser gerado, não há nada que não tenha sido gerado, pois tudo foi gerado.” (V, 5, 12, 44-47.)

A noção básica de produção em Plotino é a de que o produzir é melhor exatamente quando o agente produtor não sai de si mesmo e não exerce esforço (V, 3, 12, 27-33) — não apesar dessas condições, mas precisamente por causa delas.

  • Agentes produtivos relativamente perfeitos, relativamente imutáveis e relativamente autocontidos produzem necessária e eternamente pela razão exata de que são perfeitos, imutáveis e autocontidos.
  • Essa noção de produção será aplicada, de modo diminuído, à concepção da natureza como agente produtivo.
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