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Colli
Giorgio Colli (1917-1979)
Perfil Intelectual e Metodologia Filosófica
Nota de Miguel Morey, em sua tradução da obra de Colli, “La naturaleza ama esconderse”
- Reconhecimento de Colli através da edição crítica das obras de Nietzsche.
- Colaboração monumental com Mazzino Montinari na edição completa dos escritos filosóficos de Friedrich Nietzsche.
- Decisão controversa e paradigmática: publicar integralmente os fragmentos póstumos em ordem cronológica, desconstruindo a entidade editorial A Vontade de Poder.
- Impacto terminante para as gerações posteriores de intérpretes, deslocando leituras canônicas (ex.: Heidegger, Deleuze).
- Trajetória prévia como editor e helenista.
- Diretor da coleção Classici della filosofia (Einaudi): publicou primeira tradução italiana completa do Organon de Aristóteles (1955) e nova versão da Crítica da Razão Pura de Kant (1957).
- Responsável pela Enciclopedia di autori classici (Boringhieri, 1958-1965): 90 títulos que harmonizam cânones ocidentais e orientais, desde as origens arcaicas até a modernidade.
- Projeto inacabado La sapienza greca: edição crítica dos filósofos pré-socráticos em 11 volumes (concluído postumamente o volume sobre Heráclito, 1980). Critérios rigorosos e polêmicos.
- Virada filosófica: Filosofia dell'espressione (1969).
- Revelação de Colli como pensador sistemático, além do helenista e editor.
- Crítica radical ao pressuposto moderno do conhecimento como representação (Vorstellung) entre um sujeito substancial e um objeto exterior.
- Tese central: o logos não é representação, mas expressão.
- A expressão remete a um fundo irrepresentável, de pura imediatez.
- Deste eco expressivo é que se abrem, derivadamente, a possibilidade de algo como um sujeito e um objeto.
- O sujeito psicológico não é fundamento, mas resultado deste movimento.
- Hipótese expressiva desdobra a interrogação em dois caminhos (ascendente e descendente) que são um só:
- Inmediatez como primeira expressão balbuciante.
- Inmediatez como última representação que aponta para além do discurso.
- Gênese do pensamento: La natura ama nascondersi (1948) e La ragione errabonda (1982).
- La natura ama nascondersi antecipa o duplo percurso do eros e da philia, explorando o amor pela verdade e a dificuldade de dizê-la.
- Estabelece os problemas filológico-filosóficos decisivos para pensar a gênese do logos: fontes, autores, fragmentos, termos essenciais.
- Estrutura clara e firme:
- Abertura: “A Grécia dos filósofos”.
- Três lições sobre a transmissão aristotélica da sabedoria arcaica e o problema das Diadochai (sucessões).
- Retratos dos três grandes sábios arcaicos: Parmênides, Heráclito, Empédocles.
- Método: utiliza poucos problemas filológicos precisos como fulcro para abrir uma fenda na opacidade que sepulta o logos antigo.
- Estilo e estratégia escriturística: uma prosa enigmática e desafiadora.
- Escrita para ser lida em voz alta, com tempo cordial.
- Uso exaustivo do hipérbaton (incisos aclaratórios entre vírgulas cujo sentido só se completa ao fim da frase).
- Encadeamento de parágrafos onde a chave de abóbada é enigmática, adquirindo inteligibilidade plena apenas páginas adiante.
- Convite a uma leitura dupla, ativa, que meça a força do pensamento do leitor.
- Enigma entendido em seu sentido originário: desafio aos limites do pensamento do leitor, convite a ir além do explicitamente dito.
- Prosa sapiencial em Filosofia dell'espressione; tonalidade filológica em La natura ama nascondersi, mas com idêntico desafio.
- Opções tradutórias e respeito à integralidade do texto.
- Recusa de simplificar ou explicar o enigma, o que deslocaria o plano de enunciação.
- Evitação de notas explicativas que imporiam a força interpretativa do tradutor.
- Tradução fiel das versões de Colli para os fragmentos gregos, mesmo quando controversas, pois são parte constitutiva dos enigmas propostos.
- Inclusão dos textos originais em grego para permitir a controvérsia e o cotejo.
- Avaliação final: a transformação do olhar.
- O valor da obra não reside numa “verdade inapelável”, mas em sua capacidade de transformar a perspectiva do leitor.
- Após a leitura, não é possível retornar aos temas tratados da mesma maneira.
- O legado é um convite a pensar de novo e de modo diferente, inaugurando um novo começo para a reflexão.
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