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Sensação – Crença – Imaginação ...

Chaignet: Livro

A sensação consiste na faculdade de adquirir conhecimentos ou experimentar impressões por meio da interação entre os sentidos e as coisas exteriores.

  • Platão define o sentido como uma comunicação entre a alma e o corpo para relacionar o sujeito ao mundo externo.
  • Segundo o resumo de Plutarco, a potência e o ato da sensação residem na alma, enquanto o corpo atua apenas como instrumento.
  • A sensação é caracterizada como um movimento da alma produzido por objetos externos e transmitido pelo corpo.
  • Essa faculdade natural decorre da união fisiológica entre alma e corpo, estando vinculada a afetos como amor, medo, raiva, prazer e dor.

Platão estabelece no Timeu a distinção entre as impressões que afetam o corpo inteiro e aquelas restritas a órgãos específicos.

  • A presença de prazer ou dor nas sensações depende da natureza dos objetos externos e das partes do corpo que recebem o estímulo.
  • A constituição dos órgãos e dos corpos externos em partes móveis ou rígidas determina a qualidade da recepção sensorial.
  • Sensações de calor, resistência, peso e textura derivam de causas mecânicas específicas da matéria.

A sensação térmica de calor é explicada pela ação de corpúsculos ou átomos triangulares invisíveis que compõem a matéria.

  • O fogo é formado por triângulos extremamente agudos, pequenos e dotados de movimento rápido.
  • O processo de queima ocorre porque as partículas menores e cortantes do fogo dividem e dissolvem os triângulos maiores da carne humana.
  • A dor causada pelo fogo é comparada fisicamente à ferida provocada por uma seta ou objeto pontiagudo.

A dureza e a moleza dos corpos são definidas pela capacidade ou dificuldade da carne humana em vencer a resistência do objeto.

  • O peso é interpretado como a tendência ou atração dos corpos em se reunirem a elementos de mesma espécie.
  • A resistência sentida ao levantar um objeto da terra deve-se a essa força de atração natural.

A transmissão sensorial ocorre quando um movimento recebido por um órgão móvel é comunicado sucessivamente até atingir o princípio pensante.

  • O prazer resulta de impressões que restabelecem o estado natural do órgão, enquanto a dor advém de alterações violentas e contrárias à natureza.
  • Órgãos compostos por partes grossas e rígidas são mais suscetíveis a grandes dores devido ao esforço necessário para retornar ao estado inicial.
  • Quando a impressão é fraca ou atinge partes estáveis do corpo, o movimento não chega à alma e a sensação não se concretiza por falta de consciência.

A sensação exige obrigatoriamente a impressão física, a mobilidade para comunicá-la e a efetiva transmissão do movimento à alma.

  • Sem a recepção pela alma, o evento permanece como uma modificação puramente física e inconsciente.
  • Platão define a sensação como o movimento comum que abala simultaneamente alma e corpo sob uma mesma impressão.
  • Leibnitz e Maine de Biran expandiram essa observação ao tratar de sensações obscuras ou animais das quais não se teria consciência plena.
  • A psicologia platônica sustenta que, se uma modificação física não repercute na alma, ela não pode ser tecnicamente chamada de sensação.
  • A alma é a força que efetivamente sente e vê, transformando a impressão física em um fato intelectual e moral.

Existem sensações que, embora acompanhadas de percepção, não provocam prazer ou dor.

  • Isso ocorre quando as partes do órgão não oferecem resistência ao objeto exterior e retornam sem esforço ao estado original.
  • Aristóteles discorda dessa visão, argumentando que as primeiras impressões de visão e audição sempre envolvem uma dor atenuada pelo hábito.
  • Kant sugere que toda percepção traz um prazer intelectual oculto ligado ao desejo instintivo humano pela verdade.

O sistema sensorial é composto por cinco sentidos: tato, paladar, olfato, audição e visão.

  • O tato não possui um órgão especializado, sendo exercido por todo o corpo e fornecendo apenas ideias obscuras.
  • Aristóteles sustenta que não há sensação sem órgão especial, considerando a carne apenas um intermediário para um órgão interno desconhecido.

Paladar e olfato geram frequentemente impressões de prazer ou desprazer baseadas em processos fisiológicos.

  • Essas sensações dependem da contração ou expansão de veias que se conectam ao fígado.
  • No modelo platônico, um espírito animal flui dessas veias até o cérebro para advertir a alma residente.
  • Diferentemente de Platão, Aristóteles aponta o coração como o centro focal das sensações.

A visão e a audição são os sentidos mais eficazes na transmissão de estímulos por possuírem órgãos ricos em ar e fogo.

  • A visão é considerada o sentido mais sutil e luminoso, permitindo a transmissão rápida sem necessariamente causar dor ou prazer.
  • Eventuais incômodos visuais seriam causados pela falta de harmonia ou proporção nas formas, afetando o espírito e não a sensação pura.

A visão é produzida pelo encontro e união de uma luz interna do olho com a luz emanada dos objetos.

  • Essas luzes formam um corpo luminoso composto que conecta a alma ao objeto, baseando-se no princípio de que o semelhante busca o semelhante.
  • Plutarco denomina esse fenômeno como a corradiação platônica.
  • Para que a visão ocorra, são necessários olhos saudáveis, objetos coloridos e a presença da luz externa.
  • Aristóteles define a luz como o ato do diaphane, negando que ela seja um corpo ou uma emanação material.

O som é uma impressão transmitida à alma pelo ar, atravessando o cérebro e o sangue.

  • O ar externo movimenta o ar interno dos ouvidos, que abala veias sanguíneas conectadas ao fígado e ao cérebro.
  • A qualidade do som (agudo, grave, doce ou ríspido) depende da rapidez, lentidão ou uniformidade do movimento recebido.
  • A precisão sensorial está vinculada à delicadeza da constituição física; ossos grandes e carne excessiva prejudicam a sensibilidade.
  • Aristóteles associa a dureza da carne a uma menor aptidão intelectual.

O processo da sensação em Platão divide-se em movimento físico, sentimento de prazer ou dor e reflexão da alma.

  • A impressão orgânica isolada não possui virtude cognitiva; o ato de sentir pertence inteiramente à alma.
  • A faculdade de conhecer o mundo exterior é representada pela essência divisível que participa do movimento do outro (o não-eu).
  • Epicharm afirma que é a alma que vê e ouve, enquanto os sentidos isolados são cegos e surdos por carecerem de razão.

O movimento do outro na alma permite a compreensão da diversidade e das coisas particulares e divisíveis.

  • A função primordial dessa faculdade não é a análise do composto, mas a percepção da existência de seres múltiplos.
  • Platão demonstra que o conhecimento exige um elemento geral e afirmativo, pois não há ciência do que não possui ser.

Para que o conhecimento seja fixo e durável, ele deve basear-se em um universal ou em uma ideia.

  • O entendimento deve reunir o que há de comum em diversas sensações para construir uma unidade racional.
  • A marcha dialética inicia-se na sensação para elevar-se às verdades espirituais mais sublimes.
  • A alegoria da caverna ilustra como a alma parte das sombras e figuras sensíveis até ser capaz de contemplar as esplendores do sol.

A origem das ideias é dupla, pois as ideias gerais precedem logicamente as sensações, mas são despertadas por elas cronologicamente.

  • Platão sustenta que as ideias objeto da reminiscência são extraídas das sensações, embora preexistissem ao nascimento.
  • A sensação é o ponto de partida necessário e constitui, em si mesma, uma forma de conhecimento de algo que existe.

A sensação declara claramente a existência das coisas e contém em sua essência um julgamento afirmativo.

  • O reconhecimento de um objeto como tal implica uma convicção firme de que a percepção corresponde a uma realidade.
  • A noção fornecida pela sensação é considerada um julgamento concreto e perfeito.
  • Objetos particulares só são inteligíveis porque possuem um elemento universal comum que permite sua definição.

O conhecimento sensível é classificado como opinião incerta e duvidosa por lidar com o que é mutável e imperfeito.

  • As coisas particulares misturam formas fixas a elementos vagos que escapam à determinação definitiva da inteligência.
  • A sensação está presa ao momento presente, que perece e renasce incessantemente, nunca atingindo o ser pleno.
  • Os objetos sensíveis apenas imitam as ideias, sendo sombras ou imagens no espelho da realidade verdadeira.

A opinião engloba dois modos distintos de conhecimento: a crença e a imaginação.

  • A ciência, acompanhada de razão, difere da opinião, que pode ser alterada facilmente por persuasões cegas.
  • O mundo sensível divide-se entre imagens (sombras e reflexos) e os objetos reais que elas representam (seres e naturezas).
  • A crença possui maior grau de evidência e ser do que a imaginação, pois esta última lida apenas com sombras vãs.

A imaginação é definida como a memória de um objeto sensível anteriormente percebido, mas atualmente ausente.

  • Trata-se de uma memória passiva distinta da reminiscência, estando intrinsecamente ligada à sensação.
  • Platão descreve a esperança como um fenômeno de sensibilidade voltado ao futuro, cujo objeto ainda não possui realidade.
  • Plutarco comenta que a imaginação vincula sensação e opinião, sendo colocada na memória pela faculdade do mesmo.

A imaginação confunde-se por vezes com o sonho, surgindo quando as agitações internas geram representações sem estímulo externo imediato.

  • No sonho, a imaginação manifesta-se como uma atividade independente do corpo, sendo o “sonho acordado” da alma.
  • Aristóteles critica a definição platônica, propondo que a imaginação é um movimento da alma que persiste após o fim do ato sensorial.
  • Para Bossuet e Descartes, imaginar é o ato de conservar as imagens que as sensações deixam na alma após passarem.

Platão vislumbrou o papel superior da imaginação como potência criadora capaz de transformar ideias em imagens.

  • As funções da alma estão localizadas em partes específicas do organismo, mantendo uma ligação oculta entre psiquismo e fisiologia.
  • O fígado é o centro secundário das sensações e o local onde as ideias se transformam em imagens visíveis.
  • A alma que habita o fígado funciona como um espelho que recebe pensamentos do princípio pensante e os projeta como visões.

O estado emocional das imagens depende da natureza dos pensamentos enviados pela inteligência ao fígado.

  • Pensamentos sombrios contraem o órgão e provocam amargura, enquanto pensamentos serenos geram alegria e relaxamento.
  • A alma residente no fígado é passiva, cabendo à alma pensante determinar a doçura ou a severidade das representações.
  • Os centros orgânicos têm a missão de transmitir impressões externas e materializar as ordens da razão.

A faculdade de adivinhação e o entusiasmo poético são associados por Platão à alma vinculada ao fígado e ao delírio divino.

  • O delírio poético excita a alma pura a cantar deuses e heróis, representando a força criadora da imaginação acima da razão comum.
  • Platão defende que a poesia não é uma obra humana, mas um dom divino que suspende a razão do poeta para torná-lo um profeta.
  • A inspiração artística é comparada a uma fúria divina que permite à alma comunicar-se com o mundo ideal.

A crença constitui a confiança da alma na sinceridade do testemunho sensorial e na realidade dos objetos perpercebidos.

  • O termo opinião (dóxa) abrange tanto o julgamento resultante da sensação quanto operações lógicas sobre dados sensíveis.
  • A inteligência pura difere da opinião por lidar com essências matemáticas ou inteligíveis absolutos.
  • No Sofista, o pensamento é descrito como o diálogo silencioso da alma consigo mesma, que se torna julgamento ao produzir afirmações.

A teoria platônica da sensação oscila entre a afirmação da realidade externa e o reconhecimento de sua instabilidade substancial.

  • Os objetos sensíveis flutuam entre o ser e o nada, pertencendo à região obscura e mutável do mundo.
  • Toda inteligibilidade e existência das coisas particulares derivam da participação na Ideia do Bem.
  • O mundo visível não se explica por si mesmo e carece de verdade sem a fundamentação em Deus.

Platão buscou o equilíbrio entre o imobilismo dos Eléatas e a mobilidade infinita dos Ionianos na definição da realidade.

  • Embora a forma contenha toda a realidade, a matéria é apresentada como um substrato sempre moldado por uma forma.
  • O mecanismo do conhecimento é explicado pelo mistura de três essências na alma: a indivisível, a divisível e a mista.
  • A sensação, por conter julgamentos e ideias universais, exige a cooperação de todas as partes da alma.

A alma é composta por proporções numéricas e intervalos musicais que simbolizam a harmonia de suas faculdades.

  • Plotino observa que a combinação exata dessas faculdades é de difícil determinação, mas fundamental para a unidade da alma.
  • O conhecimento de coisas externas exige que o movimento do outro prevaleça sobre o movimento do mesmo na alma.
  • A visão percebe a unidade de forma perturbada, pois a ideia de pluralidade coexiste no mesmo objeto sensível.

O erro nasce quando a proporção ideal entre as essências da alma é rompida por influências externas ou corporais.

  • A vida é descrita como um turbilhão de matéria cujo fluxo sensorial constante pode desviar os movimentos regulares da alma.
  • As ilusões são direções falsas das faculdades, enquanto a regularidade do círculo do mesmo produz a ciência perfeita.

A sensação não erra ao afirmar a existência bruta do que aparece, mas falha em julgamentos comparativos.

  • A visão não se engana ao identificar um dedo, mas hesita quando deve julgar grandezas relativas ou qualidades contraditórias.
  • Fatores como distância, refração na água, doenças e sonhos alteram as sensações e induzem a alma ao erro.
  • O mundo dos sentidos é apenas um reflexo da realidade inteligível, operando como um sonho acordado.

Platão refuta Protágoras, argumentando que se o homem fosse a medida de tudo, a própria sensação e a dialética pereceriam.

  • Se todas as opiniões fossem verdadeiras, a opinião de que Protágoras está errado também seria verdadeira.
  • O julgamento sobre objetos sensíveis exige a cooperação da memória para unir as impressões instantâneas do passado.
  • A memória é comparada a um escriba interno que registra discursos na alma, podendo escrever verdades ou falsidades.

A ciência real consiste no conhecimento direto das causas e das essências pela própria alma, sem o auxílio dos sentidos.

  • A alma conhece as ideias puras e o ser absoluto por si mesma, enquanto as essências individuais das coisas exigem a intermediação do corpo.
  • O erro advém do comércio entre a sensação e o pensamento puro, resultando em falsas pretensões de conhecimento.

A dificuldade de Platão em explicar o erro reside em sua premissa de dar realidade exterior a tudo o que o espírito pensa.

  • Ele combate a teoria de que o erro é uma simples falta de conformidade entre a ideia e o objeto, pois isso exigiria conhecer o objeto antes da ideia.
  • O corpo é considerado a causa geral do mal e um obstáculo que obscurece a inteligência.
  • As paixões e os sentidos desviam a razão quando esta deixa a região dos inteligíveis para atuar no mundo misto do julgamento.
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