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Mythos/Logos

CASSIN, Barbara. Jacques le Sophiste: Lacan, logos et psychanalyse. Paris: EPEL, 2012.

Mythos/Logos: Os pré-socráticos e o “longo desvio aristotélico”

Freud habituou a psicanálise a uma Grécia do mythos — tragédias, mitos, ficções —, ao passo que evitou de modo altivo o logos filosófico de Platão e Aristóteles.

  • Freud utiliza Eros e Tânatos, o Amor e o Ódio de Empédocles, mas seu universo é o da filogênese e da Cabala, não o da argumentação filosófica.
  • Lacan formula um diagnóstico duplo sobre essa relação nos Escritos: “A psicanálise, porque progride essencialmente pelo não-saber, está ligada na história da ciência a um estado anterior à definição aristotélica da análise, que se conhece como dialética. A obra de Freud disso dá testemunho em suas referências a Platão e mesmo aos pré-socráticos.”
  • Freud recorre a Platão e aos pré-socráticos, mas pelo lado do muthos ou da dialética pré-aristotélica — não pelo lado do logos.

Lacan, ao contrário de Freud, engaja ativamente a filosofia como logos, tanto em sua história longa quanto em sua história imediata, e é de seu tempo filosófico — estrutural, lógico, discursivo, inspirado pela linguística.

  • Lacan não evita referências à cultura grega — comenta Antígona ou o Banquete de Platão —, mas em cada caso é o logos, cada vez mais teorizado na psicanálise, que ocupa o primeiro plano.

Aristóteles representa o “longo desvio aristotélico”: Freud recua até os pré-socráticos, enquanto Lacan toma Aristóteles como celeiro, fazendo de tudo farinha de seu moinho — inclusive os que vieram antes de Sócrates.

  • Lacan ouve os pré-socráticos de Freud de modo ainda mais “pré-socrático”, com um ouvido heideggeriano voltado para o logos, o desvelamento da verdade como aletheia e a aurora da diferença ontológica.
  • Lacan compreende certos pré-socráticos de modo distinto de Heidegger: o fragmento 93 de Heráclito ilustra como Apolo “faz do significante” — algo que Heidegger não captou da mesma forma.
  • Demócrito, que Heidegger nunca compreendeu de fato, é o pré-socrático lacaniano por excelência.
  • Tanto Heráclito quanto Demócrito são “pré-socráticos de outro modo” — irredutíveis à interpretação heideggeriana e, por isso, utilizáveis por Lacan como paradigmas do significante.

O logos grego, do qual o mythos se torna filosoficamente um subconjunto, é o campo em que “ser pode fazer tudo”, segundo Nietzsche em “A História da Eloquência Grega”: “A mais desmedida presunção de poder fazer tudo, como retores e estilistas, atravessa toda a Antiguidade de um modo incompreensível para nós.”

  • “Sofística” é o nome dado a essa pretensão.
  • Os sofistas, usados de modo indireto por Lacan — prisioneiro da herança platônica mesmo quando a contesta —, são os mestres pré-socráticos na inteligibilidade dos pré-socráticos não heideggerianos.
  • A discursividade que os sofistas colocam em movimento permite clarificar traços distintivos do próprio discurso de Lacan, bem como o sentido do longo desvio aristotélico.

A presença do sofista em nossa época

Freud, ao fim de “Análise Terminável e Interminável”, define o amor à verdade como fundamento da relação analítica, e recomenda simpatia pelo analista — a terceira profissão “impossível”, ao lado de ensinar e governar.

  • Uma nota em Moisés e o Monoteísmo confirma a dificuldade: “Não foi possível demonstrar em outros contextos que o intelecto humano tem um faro particularmente fino para a verdade ou que a mente humana mostra qualquer inclinação especial para reconhecê-la.”
  • Lacan afirma: “O psicanalista é um signo da presença do sofista em nosso tempo, mas com um status diferente.”

O que distingue o tempo presente do tempo grego é a existência da relação sexual que não existe, em contraste com o animal político grego — mas ambos são, antes de tudo, seres falantes.

  • Lacan, num seminário de 12 de maio de 1965, contrapõe a sofística ao “logico-positivismo”, que busca “o sentido do sentido” como proteção contra “as surpresas da cadeia significante”.
  • Na mesma sessão: “Ocorreu-me de repente, e disse a mim mesmo: 'mas não há palavra grega para sexo.'”
  • “Compreendemos por que esses sofistas operavam com tanta força e também sem saber por quê. O grau de força se baseia em algo que a análise nos ensina: o fato de que na raiz de toda díade está a díade sexual. O masculino e o feminino.”

Lacan filosofiza ensinando psicanálise: é um Górgias que se vê como Sócrates, porque vê Sócrates como analista.

  • Sócrates é “um histérico perfeito, uma espécie de prefiguração do analista. Se tivesse pedido dinheiro por isso… teria sido um analista freudiano antes de Freud. Quero dizer, ele era um gênio!”
  • Diferenças clássicas entre Sócrates e Górgias, de Platão a Hegel: Sócrates é ateniense / Górgias é estrangeiro; Sócrates morre pelo que diz / Górgias vive pelo que diz.
  • Lacan ora está do lado de Sócrates, ora do lado de Górgias — dois lados da mesma folha de papel.
  • A presunção de saber, núcleo do semblante, faz tudo pender para o lado de Górgias, do qual Sócrates é o avesso não presumido.

De Freud a Lacan, passa-se decisivamente do amor à verdade ao discurso da verdade — “Eu, a Verdade, falo” —, uma verdade semidita mas ao menos dita, “fixionada” pelo discurso que a produz como efeito colateral.

O que significa, por assim dizer, o termo “sofisma”?

Lacan aborda sofistas e sofística de frente ao falar de psicanalistas, mas os utiliza sem certeza plena sobre seu sentido — pois é de Platão, e do Sofista de Platão, que extrai seu conhecimento em primeira mão, que é na verdade de segunda mão.

  • Lacan admite: “Matei-me durante essas pseudo-férias lendo o Sofista. Devo ser sofista demais para que me interesse. Devo ter algum bloqueio aí. Não consigo apreciá-lo. Falta algo para que possamos apreciá-lo, falta-nos o conhecimento do que era um sofista naquele tempo, falta-nos a substância da coisa.”
  • O vocabulário técnico e crítico de filosofia de Lalande — bíblia dos aprendizes de filósofos franceses — define sofística em dois sentidos: (A) o conjunto das doutrinas dos grandes sofistas gregos (Protágoras, Górgias, Pródico, Hípias etc.) e (B) “uma filosofia do raciocínio verbal, sem base sólida ou séria na verdade.”
  • Os dois sentidos são soldados platonicamente: a sofística como realidade histórica é fundida ao artefato antifilosófico produzido pela filosofia — o sofista é o alter ego negativo da filosofia, seu mau outro.
  • No Sofista de Platão, o Estrangeiro compara filósofo e sofista: “assim como o lobo se assemelha ao cão, e o mais selvagem ao mais manso” — mas o próprio texto não permite decidir quem é o lobo e quem é o cão.

Uma abordagem sofisticada e analítica da história da filosofia: performance e homonímia

O que é próprio do sofista — e Sócrates é sofístico nesse aspecto — é que ele escuta: “Seus ouvidos são seus olhos”, tomando o outro ao pé da letra e forçando o filósofo a ouvir com atenção o que ele mesmo diz.

  • O sofista exagera: como Protágoras ou Antifonte, faz sempre uma pergunta a mais e tira sempre uma consequência a mais — o que leva a filosofia a transgredir os limites que ela mesma se atribui.
  • “Tirar todas as conclusões, inclusive as que cegam, e tomar ao pé da letra são um único e mesmo gesto” — é “a carta roubada”, de que toda a psicanálise daria testemunho.
  • A psicanálise freudiana pode ser descrita como uma operação delimitadora, uma revolução subjetiva do amor-próprio análoga à de Copérnico ou Darwin; a lacaniana, como um tipo de discurso alinhável à antifilosofia.

A história doutrinal da filosofia tem a ganhar ao ser ouvida com esse ouvido obstinado e sem concessões — uma filologia em sentido estrito, não alheia a uma atenção flutuante.

  • O exemplo paradigmático dessa escuta é o modo como Górgias compreende o Poema de Parmênides em seu Tratado do Não-Ser e o devolve ao remetente: mostra como a linguagem em ação — um ato de linguagem por excelência — permite a passagem do Esti (terceira pessoa do singular do verbo “ser”) ao sujeito Ser, o particípio nominal secretado pelo verbo que se torna sujeito da ontologia.
  • “Esti” pode ser traduzido igualmente por “é”, “isso é”, “existe”, “é possível”, “é o caso que”, “é verdade que” — explorar todas essas equivocidades é parte das operações necessárias.
  • É a escuta de Górgias que torna manifesto o Ser como efeito do dizer, e a ontologia — o dizer grego do Ser — é o que faz do Ser um significante.
  • “A ontologia é o que destacou na linguagem o uso da cópula, isolando-a como significante. Deter-se no verbo 'ser' — um verbo que não é sequer, no campo completo da diversidade das línguas, empregado de um modo que se possa qualificar de universal — para produzi-lo como tal é uma empresa altamente arriscada.”
  • Lacan, em “Os Sulcos da Aletosfera”, não recusa ser situado em relação a Górgias: “Lembro que o primeiro [referência] era Górgias, do qual se supõe que estou conduzindo algum tipo de repetição. Por que não? Mas o que era inapropriado é que, na boca da pessoa que evocou esse personagem cuja eficácia mal podemos avaliar em nossos dias, tratava-se de alguém da história do pensamento.”

Logologia: Falar pelo prazer de falar/Falar em vão

A linguagem é um campo muito mais rico em recursos do que aquele em que o discurso filosófico se inscreveu ao longo do tempo — o que implica devolver algo à metafísica em vez de apenas tomar de sua manjedoura.

  • Benveniste se espanta com a singularidade da psicanálise, espanto que Lacan acolhe como bom diagnóstico: “O que é essa 'linguagem' que age tanto quanto exprime algo?”
  • A raiz desse espanto está no artigo de Freud de 1910, “Sobre o Sentido Antitético das Palavras Primitivas”: a consciência do ato de linguagem e da linguagem como ato — “O enunciado é o ato” (definição benvenistiana do performativo) — está ligada desde o início à homonímia motivada.
  • A linguagem não só “exprime” (fenomenologia, ontologia), não só “fala a” e persuade ou cura (retórica e farmacêutica): ela também simplesmente “age”, como performance, capaz de produzir um efeito-mundo — o que, seguindo Novalis, se denomina “logologia”.
  • Novalis, no fragmento 1941 dos “Fragmentos Logológicos”: “Há algo muito tolo em falar e escrever; a conversa adequada é apenas um jogo de palavras. É de admirar o erro ridículo que as pessoas cometem ao pensar que falam por causa das coisas. A qualidade particular da linguagem, o fato de ela se preocupar apenas consigo mesma, não é conhecida por ninguém.”
  • Os sofistas, segundo Aristóteles, “falam por falar” [logou kharin legousin] — para passar o tempo, mas também apenas pelo prazer de falar.
  • Lacan define a psicanálise do mesmo modo que Aristóteles define a sofística: “A psicanálise, a saber, a objetivação do fato de que o ser falante ainda passa o tempo falando em pura perda.”
  • “Falar pelo prazer de falar” / “Falar em pura perda” — eis uma primeira maneira de definir a mudança dos tempos e a diferença de status entre sofista e psicanalista.

Sofisma, psicanálise e antifilosofia

Lacan, como a sofística, articula sua reflexão sobre a linguagem como ação em duas fases: uma fase crítica em relação à filosofia e uma fase declarativa, em que se cristalizam fórmulas-chave que se tornam logia.

  • Em Encore (1972-1973) e no texto apresentado no segundo Congresso de Roma (11 de janeiro de 1974), Lacan critica Parmênides e as duas teses fundadoras da ontologia.
  • Primeira tese — “o ser é e o não-ser não é”: “É precisamente porque era um poeta que Parmênides diz o que tem a nos dizer da maneira menos estúpida. Caso contrário, a ideia de que o ser é e o não-ser não é, não sei o que isso significa para vocês, mas pessoalmente acho isso estúpido.”
  • Segunda tese — a coimplicação do que é e do que é pensado: “Je pense donc je souis. Ainda assim, é melhor do que o que Parmênides diz. A obscuridade da conjunção de noein [pensar] e einai [ser] não funciona, pobre Platão.”
  • Sobre Aristóteles: “O problema com o tipo de ciência que qualifico de tradicional, porque nos chega do pensamento de Aristóteles, é que ela implica que o pensado está à imagem do pensamento, ou seja, que o ser pensa.”
  • “O discurso do ser presume que o ser é, e é isso que o sustenta.”

A tese sofística e a tese lacaniana diante da ontologia são uma e a mesma: o Ser é um efeito do dizer, “um fato do dito”.

  • “Não existe realidade pré-discursiva. Toda realidade é fundada e definida por um discurso.”
  • Górgias, citado por Sexto, no Tratado do Não-Ser: “Não é o discurso que comemora o exterior, mas o exterior que vem revelar o discurso.”
  • Essa frase explica o enunciado emblemático da discursividade sofística: “Quem diz, diz o que diz.”
  • A série de negações culmina na formulação: “Não há linguagem do ser” — e Lacan pode então desativar a proposição ontológica fundamental apontando que ela é sempre um signo enunciado: “O ser é, como se diz, e o não-ser não é.”
  • “Distingo-me da linguagem do ser. Isso implica que pode haver ficção verbal — quero dizer, ficção a partir da palavra.”

A precaução mais elementar diante do sentido é “distinguir a dimensão do significante”.

  • “Distinguir a dimensão do significante só adquire importância quando se postula que o que você ouve, no sentido auditivo do termo, não tem nenhuma relação com o que significa.”
  • “O significado não é o que você ouve. O que você ouve é o significante. O significado é o efeito do significante.”
  • A ficção verbal marca uma ruptura com a filosofia: “Como posso tirar da sua cabeça o uso filosófico das minhas palavras — isto é, o uso obsceno?”
  • A psicanálise, dependente da autonomia de um discurso definido como som, faz o significante sussurrar e zumbir — razão pela qual Lacan lacaniza, assim como Górgias, segundo seus contemporâneos, “gorgianizava”.

Alain Badiou denomina “antifilosofia” a posição comum de psicanálise e sofística diante da filosofia, mas contesta a equivalência entre a antifilosofia do sofista e a de Lacan.

  • Badiou define a sofística como organizada em torno do enunciado “não há verdade” — definição com a qual se discorda aqui: o sofista sabe que um destruidor é antes de tudo um navio de guerra.
  • São os filósofos, de Sexto Empírico a Heidegger, que caracterizaram os sofistas como céticos inconsequentes.
  • A posição do sofista não é em relação à verdade, mas em relação ao discurso: o Ser, e a verdade se se insiste nela, é um efeito do dizer.
  • “O sofista organiza o que diz em torno da noção de 'quem diz diz um dizer' — não afirmativo mas negativo em si mesmo, tautológico, exceto por ser expresso em forma sintática e gramatical.”
  • As três teses centrais de Lacan sobre a verdade, formuladas por Badiou: (1) “Há algo como a verdade”; (2) “Uma verdade é sempre em parte um resto do que se diz sobre ela, pois só pode ser semidita”; (3) “Não há critérios para a verdade — pois a verdade é menos um julgamento do que uma operação.”
  • Do ponto de vista aqui defendido, nenhuma dessas teses constitui contraindicação em relação à sofística.

Uma definição comum que reorganiza os elementos sugeridos por Badiou e que convém à antifilosofia de Lacan-e-sofística: mais do que a verdade, o sentido (suas múltiplas negações e privações, o non-sens e o ab-sens), e mais do que o sentido, o discurso — ou seja, os efeitos do discurso.

  • “Não é porque o sentido de sua interpretação produziu efeitos que os analistas estão na verdade, pois mesmo que fosse correto, seus efeitos são incalculáveis. Não testemunha nenhum saber, pois se o considerarmos segundo sua definição clássica, o saber garante alguma previsibilidade possível. O que eles precisam saber é que há um tipo de saber que não calcula, mas que está a serviço do gozo.”
  • Os dois pontos de convergência entre sofística e psicanálise lacaniana quanto à técnica discursiva são performance e homonímia.
  • Performance: “que se diga” — insistência na linguagem como ato e em sua consequência como efeito-mundo.
  • Homonímia: a força do significante, ligada à equivocação, à ambiguidade e à homonímia.
  • Esses dois pontos “fazem das suas” com os dois fetiches aos quais Austin se refere ao fim de seu ensaio: o fetiche verdade/falsidade e o fetiche valor/fato.
  • É Aristóteles quem inicia essa repressão — o longo desvio aristotélico — tanto no caso da performance quanto no da homonímia.
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