Sensatez, phronesis como aisthesis
Caeiro: ACCA
A sensatez (phronesis) como a apercepção intuitiva (aisthesis) do momento oportuno (kairos) constituinte de uma escolha antecipada (proairesis) prática
O tema da sensatez (phronesis) é articulado a partir da distinção entre a lógica da perícia (techne) e a lógica da situação prática (praxis), visando caracterizar a movimentação (kinesis) própria da ação humana.
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A perícia (techne) visa um fim (telos) externo à atividade, como a casa ou a saúde, cujo princípio está no agente produtor e não no produto, tratando-se de uma geração (genesis) que transforma o não ser em ser.
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No processo técnico, cada fase é ordenada e supervisionada pelo fim em vista (hou heneka), que age retroativamente como princípio e origem da movimentação motivada (hothen he arche tes kineseos).
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A frase citada sobre a técnica afirma que ela não se aplica às coisas necessárias ou naturais, pois estas têm o princípio de ser nelas mesmas, enquanto a técnica diz respeito ao que pode ser e não ser.
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A sensatez (phronesis) difere da perícia por preocupar-se com o que é útil para a vida como um todo, visando o bem-viver (eupraxia) como um fim que não é extrínseco à atividade que o produz.
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A frase citada sobre a sensatez indica que, por meio dela, pode-se calcular bem (eu logizontai) as coisas que levam à concretização de um objetivo insuscetível de produção técnica, permitindo ter em vista cada situação singular.
A experiência (empeiria) é o modo de constituição do olhar próprio da sensatez, exigindo tempo para reconhecer o que acontece de forma particular e exposto à variação.
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Uma pessoa jovem não pode ser experiente porque lhe falta tempo, condição necessária para a constituição da experiência.
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A boa deliberação corresponde à possibilidade de correção da orientação na vida prática, aberta para o momento oportuno (kairos) como sentido (logos) de cada situação.
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O sentido corretor (orthos logos) depende da abertura para o momento oportuno, que é uma forma limite de experimentar o tempo da existência humana.
A sensatez (phronesis) tem em vista a situação última e limite, correspondendo a uma espécie de percepção (aisthesis) que permite decidir bem e escolher antecipadamente o possibilante (agathon) de cada situação de acordo com a verdade.
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A sensatez é uma especificação da compreensão (nous) no homem, que apreende o fato último capaz de ser de outra maneira, atingindo os princípios universais que regem o sentido da ação.
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A compreensão prática (nous praktikos) abre para a percepção afetiva (aisthesis pathetike) do sofrimento (lype) ou do prazer (hedone), procurando dar um sentido a esses limites patológicos que admitem alteração.
A tenção tendenciosa (orexis) é o fundamento da movimentação de perseguição (dioxis) e de fuga (phyge) para a verdadeira motivação da situação (praxis), sendo a intenção correta (orthe orexis) o que o sentido (logos) mostra como perseguido.
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O desocultamento do pensamento prático é idêntico à tenção tendenciosa para o correto, sendo a escolha antecipada (proairesis) o de onde provém a situação como movimentação projetada por uma intenção determinada pelo sentido.
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A frase citada indica que a escolha (proairesis) não se dá sem entendimento (nous), sem o pensar no transcurso da ação (dianoia) e sem a disposição do caráter.
A sensatez (phronesis) como determinação da movimentação (kinesis) prática
A sensatez (phronesis) é uma apercepção intuitiva que põe a descoberto tudo o que acontece em sua singularidade, especificando a percepção (aisthesis) que tem em vista o possibilante (agathon) de cada situação particular como o que lhe dá cumprimento.
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A escolha (proairesis), como o de onde surge a movimentação prática, é concretizada diferentemente de acordo com as situações, transformando a estrutura passiva e patológica em uma estrutura ativa.
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O esforço de recondução de cada movimentação patológica ao seu motivo originário, ao em vista (hou heneka), possibilita uma abertura para o de onde vem a movimentação (hothen tes kineseos), experimentado na situação como escolha (proairesis).
Determinação ontológica da situação (praxis)
Do ponto de vista ontológico, a movimentação (kinesis) é o processo que torna possível a transformação de algo de uma mera possibilidade em algo completamente realizado e em função (energeia), sendo o estado acabado a que algo chega a partir de sua potência (dynamis).
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A frase citada sobre o movimento afirma que, havendo um certo movimento, é necessário haver algo que é movido de um determinado estado para outro, e o que é movido tem de estar naquilo de onde será movido e não em si mesmo.
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A transformação de uma potência (dynamis) em fato consumado (entelecheia) é possibilitada por uma movimentação (kinesis), como nos processos de aprendizado, cura, caminhar, envelhecer e amadurecer.
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Cada movimentação pode ser reconduzida à sua verdadeira proveniência, a partir da qual se explicita o sentido na origem, em um processo de desocultação contraposto à contemplação (theoria) dos entes imutáveis.
O fenômeno da movimentação (kinesis) é focado de maneira diferente nos horizontes da natureza (physis) e da situação humana (praxis), sendo esta última uma intenção (orexis) que tende à completude (telos) no movimento de perseguição ao prazer (hedone) ou de fuga diante da depressão (lype).
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A intenção (orexis) pode ser transformada pelo esforço preocupado que requer um sentido aberto pelo logos para toda movimentação, tornando-se uma movimentação séria em direção àquilo em vista do qual faz sentido ser movido.
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A situação (praxis) é uma movimentação intencional (kinesis orektike) cujo princípio (arche) é a escolha (proairesis) de um fim (telos), e esse fim (telos) é o passar bem (eupraxia).
Identifica-se um tipo de situação (praxis) que é incompleta (ateles), porquanto ainda não atingiu o sentido que lhe trará completude, sendo apenas um encaminhamento no tempo em direção a um determinado fim (telos).
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A frase citada indica que nenhuma daquelas situações (praxeis) que detêm um limite tem em si a completude para o seu encaminhamento, entendendo-se limite como uma porção de tempo em que cada fase decorre.
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Identifica-se um tipo de situação (praxis) que é completa e acabada, como estar a ver e ter visto, viver bem e ter vivido bem, sendo movimentações (kineseis) completas que incluem em si mesmas a própria completude, chamadas por Aristóteles de produção efetiva (energeia).
A partir da consideração da movimentação (kinesis), a disposição excelente (hexis arete) é a completude final da movimentação prática, sendo a sensatez (phronesis) que põe a descoberto o momento oportuno (kairos) quando se reconduz cada situação concreta ao princípio de sua movimentação.
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A situação (praxis) corresponde a uma movimentação (kinesis) que resulta de uma abertura provocada pela sensatez (phronesis) para um sentido escolhido antecipadamente, transformando a mera intenção (orexis) em uma intenção com sentido (logos).
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A única escolha possível é a moderação (sophrosyne), projetando-se no movimento de perseguição (dioxis) para além da depressão medo (lype phobos) pela descoberta fronética do modo como ela se faz sentir de cada vez.
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A intenção (orexis) que procura atingir o sentido (logos) em vista do qual é possível passar bem pela situação, habituando-se a ter essa atitude ao expor-se à persuasão do sentido (logos), é a chegada e o encaminhamento que fundamentam uma situação perfeita (teleia) e constituem a boa disposição da felicidade (eudaimonia).
