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autores:caeiro:desocultamento_sensatez

Desocultamento da sensatez

Caeiro: ACCA

Isolamento da perspectiva de desocultação (aletheia) da sensatez (phronesis)

§ 92 O sentido corrector (orthos logos) como limite da acção

A sensatez é definida como a potência pré-compreensiva que visa os encaminhamentos possíveis em direcção à excelência ética, sendo a abertura ao momento oportuno que põe a descoberto a possibilidade de exposição ao sentido em vista do qual se estabelece a intenção que fundamenta uma resolução antecipada da acção.

  • A sensatez constitui o princípio de onde é oriunda a movimentação na sua modalidade prática.
  • A determinação no momento oportuno do em vista da situação dá-se de forma concomitante a uma deliberação que, uma vez tomada, leva à escolha resolutiva do sentido.
  • O sentido corrector é determinado como o limite no seio do qual se situam as formas perversas de excesso e de defeito.
  • A existência enquanto vida prática só é possível na região intermédia que corresponde ao limite que o horizonte mediano estabelece.
  • Uma vez caídos numa situação crítica de afectação patológica, é a meta a atingir, podendo-se intensificar ou afrouxar o modo de relação com o carácter patológico de uma determinada situação.
  • O sentido corrector é aquilo em vista do qual se resolve uma determinada situação, não estando ainda constituído, só podendo ser convocado no esforço de lhe escutar o sentido.
  • Querer seguir o sentido é a escolha antecipada e resolutiva que faz permanecer na vida prática, a despeito de toda a mudança e alteração fugaz a que esta dimensão da vida está sujeita.
  • A escolha é o princípio da movimentação que se projecta na e pela tenção tendencial em direcção ao seu cumprimento decisivo e final.
  • O sentido corrector é o magnífico que reluz e dá sentido, sendo a manifestação do sentido decisivo que resolve uma determinada crise, levando a aliviar ou a intensificar a tensão da expectativa e antecipação do cumprimento decisivo e terminal da existência, constituindo o modo excelente de ser.

§ 93 A diferente função de desocultação da lucidez em função dos seus horizontes de tematização: o carácter humano e a natureza. Reperspectivação do sentido das excelências

A lucidez apresenta uma dupla dimensão resultante de uma dupla relação com o sentido: uma relação passiva que cancela e subtrai a lucidez a toda e qualquer possibilidade de escutar o sentido sem sentido, e uma relação positiva e activa com o sentido.

  • Deter o sentido pode dar-se autenticamente em todas as formas de abertura e funcionamento do pensamento puro teórico ou então na dimensão do carácter humano.
  • Tanto no horizonte da vida prática pelo alcance da excelência ética em função da sensatez como no horizonte da contemplação, onde a forma pura da contemplação se torna sabedoria, o encontro do sentido corresponde à possibilidade da excelência.
  • A lucidez faz eclodir o sentido consoante os tipos de acontecimento com que se relaciona, conforme se trate de entes cujos princípios os impedem de ser de maneira diferente ou de qualquer tipo de alteração ou, por outro lado, de entes cujos princípios os fazem ser sempre de cada vez de maneiras diferentes.
  • Os modos de se ter em vista essas diferentes formas de acontecimento correspondem a duas formas de tomada de conhecimento e abertura que se coadunam com os seus respectivos temas.
  • A abertura à situação humana é contrastada à abertura para a natureza e para os seus princípios.
  • O fim da afeição ao saber qua teórico é, em geral, pôr a descoberto as diversas formas de proveniência dos entes e as suas genuínas formas de explicitação, enquanto o fim da filosofia qua prática é pôr a descoberto o efeito específico do humano, a situação como acção.
  • A sabedoria é a excelência do apercebimento e da perícia, e a sensatez é a excelência da deliberação-escolha.
  • Nem a sabedoria produz uma abertura para a região de princípios dos entes que admitem alteridade e variação, nem a sensatez abre para a região de princípios dos entes que são sempre da mesma maneira, correspondendo ambas a concretizações da abertura principal da compreensão, que se especifica a partir da diferenciação do horizonte de entes para que abre.
  • É problemático opor a teoria à prática, pois a função específica de abertura à situação prática do humano é também ela, em sentido lato, teórica, e a teoria é uma forma de situação, isto é, uma maneira de estar situado no mundo.
  • A situação deve ser entendida como o efeito produzido pelo humano susceptível de ser posto a descoberto pela filosofia prática, experimentada como um apercibimento da desocultação.
  • O contraste entre teoria e prática corresponde à diferente forma de atitude e de abertura, isto é, a diferentes concretizações da desocultação com diferentes motivações.
  • A filosofia teórica examina o que é sempre da mesma maneira e não admite nenhuma alteração, enquanto a filosofia prática examina a situação concreta aqui e agora, bem como o modo como ela é experimentada.
  • A prática é uma forma de teoria e a teoria é uma forma de prática, enquanto uma forma de verdade experimentada como desocultamento.

b) Apercebimento (episteme)

Aristóteles foca o apercebimento em contraposição à mera suposição e ao mero parecer, afirmando que aquilo que se tem à luz do apercebimento não admite outro modo de ser.

  • Tudo aquilo que pode ser de outra maneira cai fora deste tipo de teoria.
  • O que é objecto de um apercebimento existe por necessidade e sempre, não tendo passado a ser nem podendo deixar de ser.
  • Só os entes e acontecimentos desta natureza são susceptíveis de uma abertura feita por uma perspectiva que tem um potencial demonstrativo, podendo ser apropriados por aprendizagem.
  • O apercebimento enquanto um modo de relacionamento demonstrativo não é uma forma de desocultamento típica dos acontecimentos que se dão no ou que sucedem ao género humano.
  • Tudo o que acontece ao humano é efémero, não acontece por necessidade, nem sequer se dá sempre da mesma maneira ou numa forma de acontecimento cujo sentido seja visto como o mesmo para todo o sempre.
  • Os acontecimentos do mesmo género e proveniência humanos pertencem genuinamente àquele tipo de acontecimentos que podem ser de maneiras diferentes, alterando-se, modificando-se e estando em permanente mudança.
  • É a sensatez e não o apercebimento que abre para o horizonte humano e para o tipo de acontecimentos que nele têm lugar.
  • Os objectos temáticos do apercebimento detêm princípios que não admitem variação, alteridade ou mudança, podendo ser sempre apontados por uma demonstração que os faz ver tais como são em si mesmos, não havendo sobre estes acontecimentos qualquer forma de deliberação que os leve a serem escolhidos.

c) Deliberação-escolha-sensatez (bouleusis-proairesis-phronesis)

d) Isolamento da sensatez relativamente à perícia e ao prazer

A sensatez é uma maneira de ser prática que põe a descoberto através do sentido aquelas coisas que fazem sentido ou destroem o humano.

  • A poiesis tem o seu preenchimento e completude num produto acabado que é extrínseco à forma de acabamento, como a casa relativamente à construção civil.
  • O que dá completude à situação é um sentido que está nela intrinsecamente domiciliado.
  • A sensatez faz passar bem.
  • A sensatez é uma certa disposição adquirida com a capacidade de escolher antecipadamente aqueles entes que dizem respeito e com a capacidade prática de levar a cabo ou não aquelas acções que contribuem de antemão para o que é vantajoso, como uma excelência.

e) Delimitação da sensatez relativamente à sabedoria (sophia)

A sensatez é delimitada de uma forma negativa em relação à sabedoria, uma vez que, quando se fala da sabedoria, tem-se em vista a execução das perícias mais exactas.

  • A sabedoria é a excelência da perícia.
  • O campo de aplicação da sabedoria são os primeiros princípios e tudo o que deles decorre, e não os produtos trazidos à existência por uma qualquer forma de produção.
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