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Homem e Ser

BOUTOT, Alain. Heidegger et Platon. Paris:PUF.

O homem, ou mais precisamente o Dasein, caracteriza-se, para Heidegger, por uma compreensão pré-ontológica do ser (ein vorontologisches Seinsverständnis)”: o homem é o ser que sempre já compreendeu previamente o ser. Platão percebeu bem, segundo Heidegger, essa relação originária entre o homem e o ser. “Toda alma humana”, diz Platão no Fedro, “já percebeu, por natureza, o ser em seu ser (τὰ ὄντα); caso contrário, nunca teria vindo a esta forma de vida” (249 e 5; cf. também 249 b 6). A alma humana sempre já percebeu o ser; o ser nunca lhe é estranho e, em certo sentido, é até mesmo o que lhe é mais próximo, se for verdade, como diz Heidegger em um comentário sobre essa passagem do Fedro, que “essa forma viva, chamada homem, seria impossível se não reinasse fundamentalmente de antemão, e além de todas as coisas, o olhar voltado para o ser” (Nietzsche I, p. 224. Tf. p. 176). Assim, a filosofia, em sua “busca pelo ser”, nunca descobre nada que seja fundamentalmente novo; ela apenas redescobre o que já estava lá desde o início. O fato de a alma sempre já ter percebido o ser não significa, contudo, que ela sempre tenha uma visão clara dele, muito pelo contrário. “A alma humana”, diz Platão, “mal vê, a não ser com esforço, o ser em si (μόγις καθορωσα τὰ οντα)” (Fédon, 248 a 4). É por isso que a maioria das almas se afasta do ser e se limita à mera aparência fenomênica. O ser se oculta (λανθάνει) aos seus olhos. Essas almas mergulham então no que Heidegger chama de esquecimento (λήθη) do ser. (Sobre tudo isso, cf. Heidegger, Nietzsche I, p. 224-225 [Tf. p. 176-177].)

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