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Definições

Luc Brisson

As Definições atribuídas a Platão são uma coletânea de 185 termos filosóficos dispostos em sucessão, sem ordem explícita, comportando uma ou várias explicações. Como estas definições não estão escritas em prosa literária e como não estão dispostas seguindo um plano preciso, pode-se pensar que a coletânea que nos chegou conheceu flutuações no curso dos séculos. O fato que algumas definições aparecem em certos manuscritos e não em outros dá peso a esta hipótese.

A exigência socrática de definições rigorosas se encontra em grande número de diálogos, principalmente quando é questão de dialética. Mas as definições que esta coletânea propõe são de outra ordem e parecem estar associadas a meio escolástico e a uma época onde o vocabulário de Platão não era mais imediatamente acessível por um leitor ordinário. A este respeito, pode ser interessante notar que a coletânea consiste de dois conjuntos. O primeiro se subdivide segundo as três partes da filosofia tais como a concebia o estoicismo: filosofia da natureza, ética e dialética. O segundo conjunto é desprovido de todo princípio de organização interna. É portanto provável que a primeira versão desta coletânea seja da Nova Academia, época em que o platonismo se aproximou do estoicismo (por volta da segunda metade do século II aC). (Brisson, PLATON, OEUVRES COMPLÈTES)

Gredos

  • Os manuscritos medievais acrescentaram ao corpus completo das obras de Platão uma coleção de quase duzentas definições, organizadas como lista de termos sem ordem aparente, cada qual acompanhado de uma ou mais explicações.
    • Os termos definidos parecem escolhidos ao acaso e pertencem a domínios variados, que vão da física à astrologia, da moral à política, da dialética à gramática.
    • Alguns termos são autênticos dupletos: define-se primeiro um substantivo e depois o adjetivo ou verbo correspondente; outras vezes, o mesmo substantivo aparece repetido e explicado de forma diferente; ou ainda sinônimos são interpretados de maneiras distintas.
    • O método adotado pelo redator ou redatores da coleção tampouco é uniforme: ora as definições escolhidas são formas ligeiramente modificadas de uma mesma ideia; ora a variação se dá no ponto de vista sobre um objeto; ora a ambiguidade dos termos catalogados gera explicações inteiramente distintas.
  • Nenhuma unidade preside a elaboração dessa coleção constituída ao acaso, talvez como resposta à preocupação existente em todas as escolas filosóficas de construir definições.
    • A Tales se atribuía a definição de número; antes de Sócrates, tanto Demócrito quanto os seguidores de Pitágoras já se esforçavam em glosar certos conceitos, segundo testemunho de Aristóteles.
    • Para Gomperz, o Corpus Hippocraticum inclui a primeira tentativa de definição, pois o autor do tratado Perì téchnes se propõe precisar a essência da medicina.
    • Os sofistas, preocupados com a técnica da linguagem, contribuíram para a nascente lexicografia: de Górgias se citam uma definição da retórica e outra da cor; Pródico, interessado no emprego correto das palavras, sobretudo no âmbito psicológico e moral, buscou estabelecer os traços diferenciais dos sinônimos aparentes e fixar-lhes uma significação definitiva.
    • Foi sobretudo quando a filosofia assumiu forma mais escolástica, pelo impulso de Sócrates e pelas investigações da Academia sob tutela de Platão, que cresceu o interesse por esse exercício do pensamento.
    • Os primeiros diálogos de Platão recriam o método socrático de “caça” aos conceitos, e o método de divisão exposto no Sofista, no Político e no Filebo visa à determinação racional de uma ideia.
    • É plausível supor que esse método instituído por Platão fosse prática habitual na Academia, servindo aos jovens para estabelecer suas definições; Aristóteles alude a isso no capítulo da Metafísica (VI 12, 1037b8) em que trata das definições formadas por divisões sucessivas.
    • Por volta de meados do século IV a.C. provavelmente já se publicavam repertórios de definições de uso escolar: Diógenes Laércio (IV 5) cita um volume de hóroi entre as obras de Espeusipo; Aristóteles teria composto livros em que os termos eram cuidadosamente definidos; o mesmo fizera Teofrasto.
    • Os estoicos não apenas adotaram esse procedimento pedagógico da Academia, mas lhe deram desenvolvimento especial, pois, a seu juízo, a definição é necessária para conhecer a verdade na medida em que a noção é o meio pelo qual as coisas são percebidas; de Crisipo se mencionam distintos tratados de hóroi sobre diversas matérias.
  • A primeira questão sobre as fontes da coleção é se ela remonta ao próprio Platão.
    • Ninguém ousou dar resposta afirmativa, salvo o autor de uma pequena obra de lexicografia intitulada Sobre os termos semelhantes ou distintos, falsamente atribuída a um tal Amônio que viveu por volta do final do século IV a.C., o qual, ao citar as definições de paideía e de paídeusis, acrescenta: “como diz Platão em Definições”.
    • O autor dos Prolegômenos à filosofia de Platão transmite uma tradição segundo a qual a coleção pseudoplatônica remontaria a Espeusipo, cujo nome encabeçaria o texto das Definições no Vindobonensis 54 (W), do século XII.
    • Ambas as referências são pouco seguras: a presença da obra entre as de Platão colecionadas pela Academia e o fato de Espeusipo ter composto alguma obra intitulada Definições podem ter sido suficientes para motivar essa opinião.
  • A coleção, tal como chegou até nós, apresenta grande heterogeneidade, e a diversidade de tendências é demasiado marcada para admitir a intervenção de uma única mão na redação.
    • Distinguem-se, ao menos, três fontes: Platão, Aristóteles e os estoicos.
    • Muitas definições refletem as ensinamentos de Platão e procedem da Academia, embora nenhuma seja eco direto dos diálogos platônicos; Aristóteles as conhecia, pois certamente havia assistido à sua elaboração, e as discute e rejeita nos Tópicos, obra ainda sob influência da doutrina platônica, mas já como reação a ela.
    • Outras definições são de inegável cunho peripatético, reproduzindo com fidelidade o ensinamento pessoal de Aristóteles.
    • Um bom número de glosas é de inspiração estoica: autores antigos atribuem sua origem aos filósofos do Pórtico e, por vezes, opõem essas definições às platônicas.
  • Souilhé não compartilha da ideia de que seja necessário remontar aos primeiros tempos da Academia a composição dessa coleção.
    • Na opinião de Walzer, a coleção teria sido elaborada pelos primeiros discípulos de Platão, de modo que os estoicos a teriam utilizado como inspiração para boa parte de suas próprias fórmulas; essa hipótese, porém, se apoia apenas nas vagas alusões a Espeusipo e no caráter antigo de parte das definições.
    • Souilhé acredita que a coleção, tal como se conhece, é de época bastante mais tardia e talvez não anterior ao estoicismo, embora reconheça que está constituída por um fundo considerável herdado da Academia e paulatinamente incrementado com aportes posteriores.
    • A opinião de Souilhé se fundamenta principalmente no modo como a coleção foi transmitida: três dos melhores e mais antigos manuscritos medievais, o Parisinus 1807 (A), do século IX, o Vaticanus graecus I (O), do século X, e o Palatinus Vaticanus 173 (P), do século XI, omitem em comum certo número de passagens, omissões importantes e difíceis de justificar como erros ordinários de cópia.
    • Há de supor, pelo contrário, que o copista não lia em seu exemplar as definições descobertas em outro lugar e com frequência acrescentadas à margem; é plausível, portanto, que tenham existido, originalmente, diversas séries de hóroi, reunidas depois em texto único atribuído em seu conjunto à escola platônica.
    • Outras coleções desse gênero se formaram de modo semelhante: a primeira, no Parisinus graecus 2138, do século XIV, sob o título de Anonymi definitiones uocum quae a philosophis usurpari solent ordine alphabetico dispositae, reúne definições de agathón a philosophía, com interpretações de acentuado ecletismo que coincidem em alguns casos com as pseudoplatônicas; a segunda, no Marcianus 257, além de empréstimos tomados das Definições pseudoplatônicas, recolhe outros provenientes de fontes neoplatônicas ou cristãs.
  • Esses exemplos revelam o ecletismo com que os autores de definições confeccionavam suas listas.
    • A pequena coleção introduzida no corpus platonicum não é mencionada por Diógenes Laércio (III 62), provavelmente porque não figurava nem em Aristófanes de Bizâncio nem em Trasilo.
    • Provavelmente foi composta, com evidente finalidade escolar, numa época de sincretismo em que as doutrinas estoicas já se acomodavam sem dificuldade às da Academia, como se observa também nas ideias expostas em outros diálogos apócrifos.

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