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Texto em português

Tradução de Maria Lacerda de Moura. http://www.consciencia.org/

A morte de Sócrates

1. A morte de Sócrates apresenta-se, na descrição de um dos grandes biógrafos de Platão, em sua nudez objetiva de fatos históricos, configurando-se como um dos grandes momentos da história humana e como prefiguração da morte de Cristo no Calvário.

2. O processo contra Sócrates desenrola-se no inverno de 400/399 a.C., a partir da queixa apresentada por Meleto, subscrita por Ânito e Lícon, culminando na condenação à morte por votação majoritária de um tribunal popular sem possibilidade de recurso, sentença cuja execução é adiada pela peregrinação ritual do navio sagrado a Delfos.

  • Meleto figura como poeta de pouco vulto buscando notoriedade, enquanto Lícon guarda ressentimento pessoal ligado à morte do filho, e Ânito representa a liderança da democracia moderada dominante
  • A acusação centra-se na recusa do culto aos deuses oficiais do Estado, na introdução de entidades demoníacas e na suposta corrupção da mocidade
  • A tradição religiosa vinculada à navegação sagrada a Delfos prolonga inesperadamente o intervalo entre a sentença e a execução, período em que Sócrates permanece preso, mas pode conversar com os amigos, recusando a fuga oferecida por Críton

3. Os acusadores de Sócrates conhecem destino trágico, sendo Meleto e Ânito lapidados posteriormente como caluniadores, ao passo que Lícon desaparece da memória histórica, permanecendo os três nomes apenas por associação à vítima ilustre.

4. Platão encontra-se doente por ocasião da morte de Sócrates, impossibilitado de participar das últimas conversas do mestre com os discípulos durante o período de espera da execução.

5. Platão também não acompanha o encontro final entre Sócrates e os cinco amigos fiéis — Críton, Fédon, Apolodoro, Cebes e Símias —, cujo relato chega a ele por intermédio de Fédon e Equécrates, dando origem ao diálogo que recebe o nome de Fédon.

6. Toda a obra platônica encontra-se de tal modo impregnada pelos ensinamentos de Sócrates que nenhum comentador logra distinguir com precisão o que pertence ao discípulo e o que provém do mestre, sendo a morte de Sócrates o marco de uma verdadeira conversão de Platão, comparável à conversão apostólica após a morte de Cristo.

7. Fagundes Varela, em seu Evangelho nas selvas, introduz simbolicamente a figura de Sócrates ocupando o lugar de Judas entre os doze após a fuga do traidor, revelando profunda analogia entre as duas mortes, uma no plano natural e outra no plano sobrenatural.

8. O poema transcrito encena a aparição da sombra de Sócrates diante de Cristo na Última Ceia, reconhecendo nele o precursor pagão da unidade divina que, mártir da fé sem o batismo, recebe de Jesus a promessa da salvação e ascende ao Paraíso.

9. As duas grandes acusações que levam a maioria dos quinhentos e um jurados a condenar Sócrates à morte resumem-se ao ateísmo, por atentado contra a religião do Estado, e à subversão, por corrupção da mocidade.

10. Sócrates destrói com facilidade ambas as acusações em sua defesa perante o Areópago, demonstrando que sempre se guiou pela voz do oráculo de Delfos, nunca se considerando infalível, mas pregando antes a humildade do reconhecimento dos limites da sabedoria humana.

11. Meleto não encontra resposta diante da refutação socrática à acusação de ateísmo, revelando-se que Sócrates de fato condenava não os deuses, mas o politeísmo oficial imposto como conformismo especulativo pelo Estado, sendo sua filosofia, antes de ateísmo, uma forma de antiestatismo contrário à opressão política e moral exercida em nome dos deuses, tanto sob regimes democráticos quanto oligárquicos.

  • Os demônios introduzidos pela maiêutica socrática representam as próprias forças da natureza, autônomas para serem compreendidas pela inteligência humana, e não qualquer forma de demonismo espiritista
  • Platão sistematiza posteriormente essa doutrinação na teoria das Ideias e da divindade suprema
  • Sócrates ergue-se como voz solitária no Pritaneu contra decreto injusto dos Trinta Tiranos, vindo a morrer, paradoxalmente, vítima de um governo democrático e da facção moderada da democracia, conforme demonstra Willamovitz-Moellendorf
  • O fanatismo, seja democrático seja ditatorial, configura-se como o verdadeiro inimigo da dignidade humana e da liberdade de consciência, não sendo a morte de Sócrates, portanto, uma questão de regime político

12. A passagem do governo ateniense de aristocrático a teatrocrático, segundo Platão, libera os cidadãos de todo respeito pelos magistrados e pelas leis, conduzindo à apostasia geral, sendo essa teatrocracia apontada como responsável pela morte de Sócrates.

13. Platão, na interpretação de Faguet, aproveita-se da morte de Sócrates como argumento em favor de sua República autocrática e de sua animosidade contra a democracia, distinguindo-se o sentido grego original de democracia, próximo ao que hoje se chamaria demagogia, do conceito grego de politeia.

14. Sócrates não morre por um regime político determinado, mas por um princípio superior a todos os regimes, a dignidade humana, recusando-se a tolerar a opressão do pensamento exercida pela multidão, pelo Estado, pelos deuses ou pela onipotência da razão, da violência ou do número.

15. Sócrates enfrenta a morte com a mesma serenidade com que viveu discutindo livremente com os cidadãos atenienses, distinguindo-se nesse ponto do platonismo, que nutre ódio à democracia e aos atenienses, uma vez que Sócrates jamais pretendeu organizar uma república rígida capaz de impor a felicidade aos cidadãos, preferindo sempre manter-se afastado da vida política, fiel à sua vocação de argumentar e conduzir os homens ao pensamento.

16. A morte de Sócrates configura-se como testemunho em favor da liberdade e não da autoridade, revoltando-se ele contra a injustiça de um regime democrático não pela violência ou pela paixão, mas pela razão e pela sabedoria de inspiração oracular e divina.

17. Sócrates figura, nesse sentido, como prefiguração de Cristo, protestando sua morte contra todas as tiranias, sejam de César, da multidão, dos teocratas, dos aristocratas ou dos democratas, antecipando pela voz da Pítia de Delfos aquilo que Cristo viveria pela voz do Pai, num pressentimento pagão do que a tradição judaica anunciava pelos profetas.

18. A importância da morte de Sócrates e da Apologia platônica, expressa na própria Apologia, no Críton e no Fédon, transcende o próprio mundo helênico e a cultura por ele transmitida à posteridade.

19. Sócrates enfrenta a morte com serenidade incomparável, legando à humanidade um testamento de sabedoria comparável apenas àquele que o apóstolo João conservou das palavras de Cristo após a Ceia, oferecendo a todos os povos e tempos uma lição insuperável de grandeza humana.

20. A dignidade do homem, a liberdade de consciência e a serenidade diante da morte jamais encontraram expressão tão elevada quanto na figura de Sócrates, cuja humanidade só a divindade de Cristo poderia transcender, encerrando-se sua morte com a nota final de ironia humana ao recomendar o sacrifício de um galo a Esculápio, condenando para sempre, na pessoa de seus algozes, a arrogância dos fanáticos e a violência dos medíocres.

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