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Émile Chambry

La Bibliothèque électronique du Québec

Nota sobre a Apologia de Sócrates

1. Sócrates, já com setenta anos, é acusado por Meleto, Ânito e Lícon de não reconhecer os deuses do Estado, de introduzir novas divindades e de corromper a juventude, sendo a pena requerida contra ele a morte.

2. Meleto, mau poeta incitado por Ânito, encarrega-se de depositar a queixa no cartório do arconte-rei, contrassinada por Ânito e Lícon.

  • Ânito, rico curtidor que fora estratego em 409 e combatera os Trinta ao lado de Trasibulo, orador influente e chefe do partido popular, nutria ressentimento contra Sócrates tanto por censuras pessoais quanto por motivos políticos ligados às críticas socráticas aos chefes democráticos
  • Lícon, personagem de pouca importância, é acusado por poetas cômicos de origem estrangeira e mores efeminados
  • Meleto representava os poetas, Ânito os artesãos e políticos, Lícon os oradores, todos ofendidos em seu amor-próprio pelas investigações socráticas

3. Sócrates, alvo dessas hostilidades, não se ilude quanto ao desfecho, mas continua a conversar normalmente com os discípulos sobre temas alheios ao processo, respondendo ao amigo Hermógenes que já dedicara a vida inteira à própria defesa ao viver sem cometer injustiça, recusando compor uma apologia por dissuasão de seu sinal divino e rejeitando o discurso oferecido por Lísias por não lhe convir, optando por defender-se sozinho com altivez de linguagem que impressionou amigos e juízes.

4. Condenado por sessenta votos de maioria entre quinhentos ou quinhentos e um votantes, Sócrates recusa-se a propor pena alternativa para não se reconhecer culpado, chegando a pedir, segundo Platão, ser sustentado no pritaneu, gesto interpretado como bravata que agrava sua condenação à morte por maioria ainda mais forte, aguardando um mês na prisão o retorno da teoria de Delos, recusando fugir e conversando com os discípulos até beber a cicuta com serenidade.

5. A condenação de Sócrates não deixa de suscitar controvérsia, tendo contra si juízes já prevenidos contra os sofistas e democratas ressentidos com suas críticas ao regime, mas a seu favor discípulos fervorosos como Antístenes, Ésquines, Xenofonte e Platão, sendo este último quem escreve a Apologia para dar a conhecer o mestre tal como era, reproduzindo com fidelidade, ainda que não literalmente, a essência de sua defesa perante os juízes.

6. A Apologia divide-se em três partes distintas, a primeira e mais extensa dedicada à discussão do libelo acusatório, a segunda à fixação da pena, a terceira ao discurso final dirigido tanto aos juízes condenadores quanto aos absolvedores sobre a morte e o além.

Primeira parte

7. Sócrates abre seu discurso com fingida modéstia, declarando-se estranho à linguagem dos tribunais e disposto a dizer apenas a verdade, anunciando responder primeiro às antigas calúnias e depois às acusações recentes.

8. Às acusações antigas de investigar os segredos da natureza e transformar a causa má em boa, difundidas pela comédia de Aristófanes, Sócrates responde não entender nada das ciências naturais nem ter jamais cobrado por seus ensinamentos, explicando que a origem dos falsos boatos remonta ao oráculo de Delfos que o proclamara o mais sábio dos homens, investigação que o levou a interrogar políticos, poetas e artesãos, demonstrando-lhes a falsa sabedoria e reconhecendo sua própria superioridade em não se crer sábio sem sê-lo, atraindo o ódio dos convictos de ignorância e de seus jovens imitadores.

9. Sócrates ridiculariza Meleto ao demonstrar, por perguntas hábeis, que este jamais se preocupou com a educação da juventude, reduzindo-o a afirmar que todos exceto Sócrates a aperfeiçoam, argumento que Sócrates refuta ao lembrar que semear o mal só colhe o mal, de modo que sua eventual corrupção seria involuntária e mereceria apenas admoestação, não castigo.

10. Meleto revela-se igualmente incoerente ao acusar Sócrates de negar a existência dos deuses e ao mesmo tempo afirmar que ele crê em coisas demoníacas e portanto em demônios filhos dos deuses, contradição que equivale a dizer simultaneamente que Sócrates crê e não crê nos deuses.

11. Questionado sobre por que se entrega a ocupações que o põem em perigo de morte, Sócrates responde que não se deve desertar o posto escolhido ou designado por um chefe, tendo recebido do deus de Delfos a missão de aperfeiçoar os concidadãos, à qual se apega como uma mosca-de-cavalo enquanto tiver sopro de vida.

  • Uma voz divina sempre o dissuadiu de subir à tribuna política, pois sua franqueza e apego às leis não lhe permitiriam sobreviver muito tempo em tal exercício
  • Isso se comprovou quando, sozinho, enfrentou a assembleia enfurecida no processo dos generais das Arginusas e quando recusou obedecer aos Trinta tiranos que lhe ordenaram prender Léon de Salamina
  • Nem na vida pública nem na privada jamais fez concessão contrária à justiça, nem mesmo aos chamados discípulos, dos quais nenhum se levanta para acusá-lo de corrupção

12. Sócrates encerra sua defesa recusando-se a recorrer a súplicas indignas de si e dos juízes, remetendo-se à justiça divina e humana para decidir o que é melhor.

Segunda parte

13. Declarado culpado por maioria de sessenta votos, Sócrates, convidado a propor sua própria pena conforme o procedimento legal que permitia ao júri escolher entre a proposta da acusação e a do acusado, considera merecer recompensa e não castigo, pedindo ser sustentado no pritaneu não por bravata, mas por não querer infligir a si mesmo mal algum, recusando exílio ou multa impagável, embora ofereça, pressionado pelos amigos, trinta minas.

Terceira parte

14. Condenado à morte por maioria ainda mais ampla, Sócrates repreende serenamente os juízes que não tiveram paciência de aguardar a morte natural de um ancião de setenta anos, advertindo os condenadores de que não escaparão às censuras de uma juventude menos comedida que ele.

15. Aos que o absolveram, Sócrates assegura que a morte não pode ser um mal para si, pois a voz profética não o deteve durante o processo, sinal de sua aprovação, seja ela um sono feliz, seja uma passagem para outro lugar onde conviverá com os heróis do passado, despedindo-se sem ressentimento e recomendando aos atenienses que tratem seus filhos como ele tratou os concidadãos.

16. A pergunta sobre como um homem que se explicou com tanta sinceridade, nobreza e grandeza de alma pôde ser tão incompreendido e condenado exige exame mais detido das causas reais de sua condenação.

  • Não é por insuficiente refutação das acusações de Meleto sobre os deuses e a educação da juventude, pois Sócrates possuía ideia mais elevada da divindade, rejeitando os vícios que os mitos atribuíam aos deuses, sem por isso deixar de honrá-los publicamente, sendo de alma religiosa e mesmo mística
  • A introdução de divindades novas referia-se apenas ao sinal divino que o advertia, prática não estranha à religião grega comum, embora pudesse escandalizar por sugerir favorecimento divino especial
  • A acusação de corromper a juventude carecia de fundamento sólido, visto que nenhum dos que o frequentaram, nem seus parentes, jamais se levantou para acusá-lo

17. As verdadeiras causas da condenação residem nos ódios suscitados pelo desmascaramento da ignorância dos poderosos diante dos jovens, somando-se a confusão popular entre Sócrates e os sofistas, tidos por ímpios e corruptores da moral, além de razões políticas ligadas às suas relações com jovens ricos e ao desdém manifesto pela democracia ateniense, agravadas pela suspeita, não mencionada na Apologia, de suas relações com Crítias e Alcibíades.

18. A fraca maioria que o condenou sugere que, se Sócrates tivesse recorrido a súplicas e à comoção de seus filhos, teria sido absolvido, de modo que sua condenação decorre em grande parte de sua própria altivez de linguagem, sobretudo do pedido de ser sustentado no pritaneu, tomado por bravata e capaz de fazer alguns absolvedores iniciais migrarem para o campo adversário.

19. A veemência do discurso socrático impressionou todos os presentes ao julgamento, testemunho transmitido por Hermógenes a Xenofonte, que compôs sua própria Apologia de Sócrates alguns anos após a de Platão, concordando ambos os autores nos pontos essenciais das três fases do processo e no fundamento da argumentação socrática, embora divirjam em detalhes relativos à natureza da voz divina, às reações do júri, à recusa de propor pena e ao conteúdo do discurso final sobre a morte, devendo-se nesses pontos conferir maior crédito a Platão, testemunha ocular que redigiu os discursos poucos anos após a morte do mestre.

20. A Apologia de Xenofonte, breve resumo dos relatos de Hermógenes, apresenta imagem por vezes imprecisa de Sócrates, atribuindo sua altivez à indiferença pela vida diante dos temores da velhice, quando na verdade sua robusta constituição lhe prometia ainda longos anos de missão, faltando a esse retrato a modéstia, a bonomia e a ironia do sedutor de jovens que se reconhecem, ao contrário, nos discursos que Platão empresta ao mestre, reproduzindo a simplicidade familiar, a ironia mordente e a elevação singular do espírito original e da moralidade superior que selou com sua morte os exemplos e lições de toda a vida.

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