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Katharsis

FESTUGIÈRE, André-Jean. Contemplation et vie contemplative selon Platon. Paris: Vrin, 1936.

A purificação filosófica em Platão é uma transposição, para o plano espiritual, das exigências rituais de pureza necessárias para aceder ao sagrado.

  • A ideia de purificação estendia-se a todas as partes e modalidades da religião grega, incluindo possíveis influências pitagóricas, Empédocles, usos coribânticos e orfismo.
  • As leis rituais gravadas à entrada dos santuários (ιερά ou τέμενοι) exigiam pureza física, abrangendo desde a limpeza do local até a pureza das oferendas e a abstinência de contato com nascimento, morte ou relações sexuais.
  • O termo técnico para as abluções rituais era άποφραίνσθαι, utilizando vasos como χεφνιβεία para as mãos e ποδανυπτήρες para os pés.
  • O preceito fundamental era que não é permitido tocar o sagrado, que é puro, com mãos impuras.

A distinção entre uma virtude popular, de origem social, e uma virtude verdadeira, fundada no conhecimento, é central para se compreender a novidade da moral platônica.

  • A moral tradicional grega, de origem social, havia formado um código de παραγγέλματα consagrado pelo deus de Delfos, patrimônio da Hélade.
  • Este código incluía deveres para com os deuses, os pais, o respeito à palavra jurada, ao hóspede e ao suplicante.
  • A virtude (ἀρετή) inicialmente designava excelência e valor militar, mas com o tempo incorporou a temperança (σωφροσύνη) e a justiça (δικαιοσύνη), de origem essencialmente social.
  • O surgimento da sofística e a guerra do Peloponeso fizeram prevalecer a noção de útil (ὠφέλμων ou συμφέρον) como critério para discernir o que vale mais, como se vê em Antifonte de Atenas.
  • Antifonte, em um fragmento de sua obra Αλήθεια, defende que a maioria das prescrições legais são inimigas da natureza, pois as utilidades que vêm das leis são cadeias para a natureza, enquanto as utilidades que vêm da natureza tornam o homem livre.

A República de Platão expõe o drama de uma juventude pervertida pela educação sofística, que leva ao niilismo, e contrapõe a ele a necessidade de uma nova fundamentação para a justiça.

  • Glaucon e Adimante, referindo-se a poetas como Homero e a práticas de purificadores órficos, concluem que a aparência (τὸ δοκεῖν) é mais forte que a verdade e decide a felicidade.
  • Um jovem instruído por sofistas, ao ser interrogado sobre o que é o bem e ouvir argumentos contrários à lei do nomoteta, acaba por não honrar mais as leis nem saber reconhecer o verdadeiro.
  • Os jovens que abusam da dialética (λόγος) caem no niilismo mais absoluto, rejeitando todos os princípios nos quais acreditavam outrora.
  • A conclusão do segundo discurso no Fédon estabelece que, se a alma for pura ao morrer, por ter fugido do corpo e se ramificado em si mesma, ela se dirige ao lugar que lhe é semelhante, o divino, imortal e sábio.

A verdadeira virtude, distinta do mero cálculo de interesses, consiste na purificação das paixões e na disposição da alma conforme a natureza, visando a contemplação do Bem.

  • A chamada virtude cívica, que troca prazeres por prazeres e dores por dores, é apenas um falsosembrante, digno de um escravo, sem nada de são ou verdadeiro.
  • A temperança, a justiça e a própria coragem, quando não acompanhadas da inteligência (φρόνησις), equivalem a uma purificação das paixões, mas não são a verdadeira virtude.
  • A verdadeira virtude (ἀληθὴς ἀρετὴ) é fundada no pensamento (μετὰ φρονήσεως) e consiste em se adequar a um Bem em si, independente das opiniões humanas e dos desejos.
  • Na alma individual, a justiça resulta da harmonia entre suas partes: a razão (τὸ λογιστικόν) comanda, a parte das paixões nobres (τὸ θυμοειδές) obedece e auxilia a razão, e a parte das paixões inferiores (τὸ ἐπιθυμητικόν) é governada pelas duas primeiras.
  • A justiça, assim definida como o bom ordenamento onde cada parte da alma faz o que deve, é conforme à natureza (κατὰ φύσιν), sendo, portanto, um bem para a própria alma, independentemente de suas consequências externas.

Nos diálogos tardios, como o Teeteto e as Leis, Platão mantém a preeminência da contemplação e a necessidade da purificação como fuga do mundo sensível para a imitação de Deus.

  • O filósofo do Teeteto afirma que os males não podem desaparecer, mas o esforço deve ser o de fugir o mais rápido possível daqui para lá, e essa fuga é a imitação de Deus tanto quanto possível, praticando a justiça e a santidade na clareza do espírito.
  • O verdadeiro castigo da injustiça não são os golpes ou a morte, mas a própria vida conforme o modelo do mal, que é a ignorância da verdade.
  • Nas Leis, o estrangeiro de Atenas estabelece que existem bens divinos (a φρόνησις e uma sã disposição da alma μετὰ νοῦ) e bens humanos (saúde, beleza, riqueza), e que o legislador deve se conformar a esta ordem de natureza.
  • A conclusão final mantém que a verdadeira finalidade do homem é contemplar (θεωρία) e o seu verdadeiro dever é preparar-se para esta finalidade pela purificação (κάθαρσις).
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