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Teages

Luc Brisson

Sob o pórtico do templo de Zeus Libertador, em Atenas, inicia-se uma conversa entre Sócrates, Demódoco e seu filho Teages, sobre quem se sabe, na *República* (VI 496b), que o regime imposto por sua saúde frágil o afasta da política e o confina à filosofia. Demódoco explica a Sócrates que seu filho o preocupa. Teages deseja tornar-se “sábio” e pressiona seu pai para que ele faça o gasto que lhe permitiria frequentar os sofistas.

Mas Demódoco permanece perplexo e pede conselho a Sócrates, que se volta primeiro para Teages para se informar sobre o objetivo que este último persegue (121a-122e). Teages quer adquirir conhecimento, mas que conhecimento? Ele confessa a Sócrates, que o pressiona com perguntas, que aspira ao domínio das cidades. Em definitiva, é à ciência política ou à tirania que Teages aspira, sem saber (122e-125a). A qual mestre deve ele então recorrer? Aos que, evidentemente, são especialistas nessa área, ou seja, àqueles que exercem ou exerceram o poder. Mas Teages lembra-se de que Sócrates não cessa de repetir que os políticos se revelam incapazes de educar seus próprios filhos (125a-127a). A partir daí, Teages propõe a Sócrates que se torne seu mestre, proposta que Demódoco apoia. Sócrates hesita, em primeiro lugar porque não possui nenhum conhecimento. Além disso, ele deve levar em consideração a voz divina (127a-131a), que costuma se manifestar a ele para dissuadi-lo de uma ação. Teages tomará Sócrates como mestre, se o sinal divino não o impedir (131a-fim).

O interesse de Teages reside no fato de que nele se encontra a tentativa mais antiga de interpretação do sinal divino de Sócrates, fenômeno sobre o qual não se deixou de questionar desde a Antiguidade até os dias de hoje; pode-se até dizer que todo o diálogo converge para esse final. A Antiguidade parece não ter tido nenhuma dúvida quanto à autenticidade desse diálogo, que Trasilo coloca no início da quinta tetralogia, ao lado do Charmides, do Laches e do Lísis; por sua vez, Eliano (início do século III de nossa era) cita vários trechos sem manifestar a menor suspeita a esse respeito. Por outro lado, quase todos os críticos modernos concordam em declarar inautêntico esse diálogo, cujo estilo imita bastante bem o de Platão, mas cujos empréstimos desajeitados do primeiro Alcibiades e do Teeteto são evidentes.

Gredos

Demódoco pede conselho a Sócrates sobre a educação de seu filho Teages, e o mestre pergunta ao rapaz quais são suas aspirações. Assim como Alcibiades e muitos outros, ele ambiciona o poder político. No entanto, ele não deseja pedir conselho aos políticos, já que o próprio Sócrates sustenta que eles não são capazes de transmitir o segredo de seu sucesso aos próprios filhos, o que parece ser verdade. Por isso, o que ele mais gostaria é receber os ensinamentos do próprio Sócrates. Seu pai, Demódoco, apoia com entusiasmo essa proposta, mas Sócrates coloca dificuldades: o rapaz deveria recorrer a algum dos sofistas, mestres profissionais nessas matérias. Quanto a ele, não está em suas mãos decidir se um discípulo poderá progredir sob seus cuidados: se seu mentor divino (daimon) proibir a colaboração ou não a apoiar ativamente, será um fracasso. Ele acrescenta exemplos da intervenção desse daimon tanto no campo educacional quanto em outros. Teages, no entanto, insiste em enfrentar o risco, e Sócrates o admite após ter feito essa advertência.

A figura de Teages é citada na Apologia 33e e na República 496b-c, em ambos os casos como colaborador ou discípulo de Sócrates. Na Antiguidade, não parece que a autenticidade desse diálogo tenha sido posta em dúvida. Trasilo o inclui em seu catálogo, à frente da quinta tetralogia, ao lado de Carmides, Laques e Lisis. A analogia de situações justifica, sem dúvida, essa colocação: Carmides também pensa em se entregar ao “encanto” socrático, e Laques igualmente se dirige a Sócrates acompanhado de Lisímaco, assim como Demódoco, para tratar do grave problema da educação de seu filho.

No entanto, quase todos os críticos modernos consideram apócrifa esta obra atribuída a Platão. Souilhé[1] cita, além de si mesmo, doze estudiosos, entre os quais Schleiermacher, que negam a autenticidade do Teages, e quatro que a defendem. Não há argumentos linguísticos sérios contra ela e há paralelos estreitos em outros diálogos que permitem manter a teoria da imitação. A descrição do procedimento dos sofistas (128a) lembra claramente a Apologia 19e-20a e, sobretudo, o Protágoras 316c; a afirmação de que os políticos não são capazes de ensinar seus próprios filhos (126d: na verdade, diz “que seus filhos não sejam melhores do que os filhos dos sapateiros”) aparece em Prot. 319e-20b e Menon 93b-94e; quanto ao sinal divino, tanto Platão quanto Xenofonte o citam com frequência, e com referência específica à conduta dos discípulos, em Teeteto 151a. O livro VI da República pode ter sugerido a ideia inicial sobre o tema, bem como seus personagens e o episódio principal, mas o autor utilizou a maioria dos textos em que Platão aponta as intervenções da “voz demoníaca”, e contra esse daimônio os críticos lançam suas flechas mais afiadas. Souilhé dedica-lhe mais de seis páginas, e sua conclusão é que o Teages foi composto quando Sócrates já se tornara uma figura lendária como Pitágoras, uma espécie de mago e taumaturgo.

Comparando passagens muito semelhantes da Apologia 19e e do Teages 128a, do Teeteto 150e e 151a com o Teages 129e e 130a, e Alcibiades I 105a com Teages 126e, Souilhé chega à conclusão de que o Teeteto é o modelo do Teages e que foi escrito após o Alcibiades I (340/339), embora não seja possível determinar quanto tempo depois.


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