Sísifo
Luc Brisson
Além dos dois interlocutores, Sócrates e Sísifo de Farsala, sobre os quais nada se sabe, são mencionadas outras duas figuras, que também permanecem desconhecidas. Onde ocorre a conversa? Não muito longe de Farsala, uma cidade na estrada para Larissa, na Tessália, pois Sísifo havia deliberado ali na véspera com seus concidadãos. Esse é, aliás, o tema do diálogo: a deliberação em comum.
Sísifo explica que não pôde ouvir Estratônica no dia anterior, pois participava com seus concidadãos de uma deliberação em Farsala; isso permite que Sócrates inicie a discussão (387b-e). A deliberação em comum seria apenas improvisação, conjectura, adivinhação? Sísifo replica que deliberar é buscar o que deve ser feito, conhecendo apenas uma parte da questão, mas não o restante. Portanto, prossegue Sócrates, deliberar é buscar o que não se sabe. Mas então por que buscar o que não se sabe, em vez de ir informar-se junto a um especialista (387e-390c)? Admitamos que a deliberação é outra coisa que não a adivinhação; como se poderá distinguir entre bons e maus conselheiros? Se é verdade que a deliberação diz respeito ao que se deve fazer, ela diz respeito ao que vai acontecer e não ao que é. Mas como buscar o que não é? A distinção entre bons e maus conselheiros não se sustenta, portanto (390c-391d). O assunto exige que se reflita ainda mais sobre ele (391e).
O autor deste texto conhece bem a obra de Platão. Mas, apesar de algumas semelhanças com o Menon, não é possível associar o Sísifo a nenhum diálogo específico, pois ele apresenta os mesmos defeitos que Sobre o Justo e Sobre a Virtude: um estilo monótono, uma argumentação enfadonha. Nada permite, portanto, situar com precisão sua composição no tempo, mas pode-se pensar em um exercício de escola retórica bastante antigo, pois Diogênio Laércio considera o diálogo como inautêntico.
Gredos
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O subtítulo do diálogo Sísifo, com variantes conforme os manuscritos, indica que o tema tratado é o da deliberação (perí toû bouleúesthai).
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A coincidência temática com o Demódoco não autoriza, contra a opinião de alguns críticos, uma relação mais estreita entre os dois diálogos além da simples proximidade de assunto.
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A elaboração artística do Sísifo é pobre: não se indica o local da ação, e permanece a dúvida sobre se ela se passa em Atenas, em Farsália ou nos arredores desta cidade.
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Uma inconsistência geográfica se manifesta no fato de que, se a cena é em Farsália, Sísifo aparece no dia seguinte já em Atenas, sem que o texto explique essa contradição.
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Os personagens são pouco caracterizados: o único interlocutor de Sócrates, apesar de ter nome próprio, é tão apagado quanto o anônimo do Sobre o justo ou o criador de cavalos do Sobre a virtude.
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O papel de Sísifo se limita a intercalar respostas afirmativas ou negativas no que é, na prática, um quase monólogo de Sócrates, com exceção de uma única resposta pertinente.
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O diálogo se organiza em duas partes emolduradas por uma introdução e uma breve conclusão que aponta a possibilidade de retomar o mesmo tema.
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Na introdução (387b-e), o farsálio Sísifo se desculpa por não ter podido comparecer, junto a Sócrates e seus amigos, à exibição do sofista Estratônico, pois fora convocado pelos magistrados de Farsália a uma deliberação do conselho.
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Essa circunstância serve de pretexto para Sócrates iniciar o debate sobre a deliberação.
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Na primeira parte (387e-390c), Sócrates e seu interlocutor buscam definir o que é a deliberação em si mesma, deixando de lado, por demandar tempo excessivo, a questão de como deliberar com acerto.
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Sócrates aproxima a deliberação da improvisação, da conjetura e da adivinhação, sugerindo que a verdade talvez seja alcançada por puro acaso (apò týches, 388a).
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Sísifo rejeita essa definição e propõe que deliberar é tentar descobrir o que cada um pode fazer de melhor para si mesmo, sem conhecê-lo por completo, mas apenas em parte.
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Submetido à dialética socrática, Sísifo reconhece que os homens não se esforçam para averiguar o que já conhecem, mas sim para descobrir o que ignoram, como atestam os exemplos dos geômetras e dos físicos.
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Deliberar é, portanto, buscar o que não se sabe, e tal busca só pode ser obstaculizada pela ignorância (anepistemosýne, 389c).
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Ninguém pode deliberar sobre uma arte — seja música, estratégia ou navegação — sem conhecer seus elementos constitutivos.
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Distingue-se, assim, investigar de deliberar: a investigação se dirige a coisas desconhecidas, ao passo que ninguém delibera sobre o que não conhece.
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Conclui-se que, quando se ignora algo, é preferível aprender com pessoas competentes a buscar por conta própria, de modo que Sísifo e os farsálios desperdiçaram tempo discutindo o que ignoravam em vez de consultar quem poderia auxiliá-los.
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Na segunda parte (390c-391d), admitido que a deliberação não é mera conjetura ou adivinhação, mas conhecimento real, torna-se necessário distinguir, como ocorre nas demais artes, entre pessoas competentes e incompetentes, isto é, entre bons e maus conselheiros.
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O objeto da deliberação, tanto para os bons quanto para os maus conselheiros, é sempre uma ação futura, algo que ainda não tem realidade nem natureza definida, pertencendo, portanto, à categoria do não-ser.
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Como é impossível buscar o que não existe, a distinção entre bons e maus conselheiros se desfaz: para uns e outros, o objeto da deliberação carece de qualquer entidade.
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Boeckh e Hermann assinalaram as semelhanças entre o Sísifo e o Sobre o justo ou o Sobre a virtude, tanto quanto à extensão e à torpeza de composição quanto aos procedimentos de discussão, que constituem uma imitação rudimentar do diálogo platônico.
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Do ponto de vista formal, os três diálogos introduzem a dramatização diretamente, prescindindo da forma mais tipicamente platônica de estruturar o diálogo, que consiste em apresentá-lo como relato posto na boca de um dos interlocutores.
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O Sísifo, o Sobre o justo e o Sobre a virtude têm em comum a supressão da “ficção autoral explícita”, tão cara a Platão, em favor de uma dramatização total em que o autor desaparece e a realidade não é mediada por nenhum transmissor.
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Quanto ao conteúdo, os três diálogos revelam uma utilização evidente do Mênon platônico.
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Diógenes Laércio (II 123) inclui entre as obras do sapateiro Simão um Perì toû bouleúesthai, o que levou alguns a atribuir a paternidade do opúsculo a Simão.
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As semelhanças entre os três breves diálogos não são suficientes para atribuí-los à mesma mão: todos os exercícios escolares apresentam traços semelhantes, e o Mênon platônico foi plagiado mais de uma vez.
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Pelas indicações sugeridas pela escolha dos personagens, pelas tendências doutrinárias e por certas particularidades estilísticas, o diálogo provavelmente não foi escrito antes da época aristotélica.
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Margherita Isnardi, com base na conexão temática entre o Sísifo e o Demódoco, afirma que ambos os diálogos são “formas de dialética sofística exasperada até sua própria destruição, que traduzem o mesmo motivo em duas linguagens lógicas diferentes”.
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O Sísifo refletiria o modo de pensar de certos círculos intelectuais atenienses da época de Antípatro e Fócião, ecoando as críticas antidemocráticas dos séculos V ao IV a.C., que opõem o voto do vulgo à opinião autorizada dos que sabem.
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No que diz respeito aos personagens, apenas Sócrates e Sísifo participam da ação, enquanto o sofista Estratônico e Calístrato são apenas mencionados.
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O historiador Teopompo se refere a um Sísifo como homem influente em Farsália, contemporâneo de Filipe da Macedônia, mas a ambientação tessália do diálogo não corresponde a nenhuma viagem conhecida do Sócrates histórico.
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Os historiadores antigos citam, por volta da mesma época, um célebre citarista chamado Estratônico, imitador do poeta Simônides, descrito pelo peripatético Fânias como verdadeiro artista musical e, por vezes, satirista.
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Calístrato é mencionado apenas como exemplo: é possível saber quem é Calístrato sem saber onde ele está, diz Sócrates, um procedimento caro a Platão e a Aristóteles, que escolhiam nomes bem conhecidos por seus leitores e ouvintes, como Mênon, Cebes e Símias.
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Com tais personagens, o diálogo verossimilmente não foi escrito antes da segunda metade do século IV a.C.
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Entre as fontes do Sísifo, destaca-se em primeiro lugar Platão, pois muitas fórmulas, expressões e desenvolvimentos doutrinais remetem a seus diálogos, embora nem sempre seja possível determinar se se trata de empréstimo autêntico ou de utilização de uma fonte comum.
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Pavlu considera que a passagem em que Sócrates demonstra a necessidade do saber para ser um bom conselheiro deriva do Alcibíades I, mas as divergências são notáveis e a identidade temática pode ser a única razão das coincidências.
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O Sócrates pseudoplatônico utiliza, para definir a deliberação, termos análogos aos que Sócrates emprega no Mênon para definir a dóxa.
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As analogias superficiais com o Mênon não afetam o pensamento, que segue linhas opostas.
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O autor do Sísifo admite, como Platão, que os homens não buscam o que conhecem, mas o que ignoram, e manifesta a intenção de não iniciar uma discussão erística.
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Para Platão, a investigação é o verdadeiro meio de chegar à ciência e se identifica com o saber: “o buscar e o aprender não são outra coisa, em suma, que uma reminiscência. Não devemos, por conseguinte, deixar-nos persuadir por esse argumento erístico. Ele nos tornaria indolentes, e é próprio dos fracos ouvir o que é agradável; este outro, pelo contrário, nos torna laboriosos e indagadores”.
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O Sócrates do Sísifo pensa de modo diferente e evita qualquer esforço árduo: a busca é um procedimento para chegar ao conhecimento, mas é longa e complexa demais, de modo que, quando não se sabe, é melhor aprender com outrem do que buscar por si mesmo.
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O autor do Sísifo certamente tinha em mente o Teeteto platônico ao questionar o acerto ou o erro na deliberação e ao reconhecer a trivialidade de distinguir entre bons e maus conselheiros, uma vez admitido que o conselho e a deliberação se referem sempre a algo futuro.
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A Retórica de Aristóteles é considerada outra fonte do escrito pseudoplatônico.
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Aristóteles distingue três tipos de discurso: deliberativo, judicial e demonstrativo, cada um com objeto e fim específicos.
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O objeto do logos dikanikos está no passado, pois acusação e defesa se referem a fatos já ocorridos; o logos epideiktikos se relaciona principalmente com o presente, embora possa também elogiar ou criticar ações passadas ou futuras.
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O conteúdo do logos symbouleutikos é sempre futuro: delibera-se sobre o que sucederá, como afirma também o autor do Sísifo, embora este utilize tal definição apenas para destruir seu objeto: se se delibera sobre coisas futuras, e o futuro não tem nenhuma realidade, sendo um não-ser, a própria deliberação se torna vã.
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As reflexões finais do diálogo indicam com maior clareza o ambiente em que a obra foi gerada.
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Nada remete, ao contrário do que ocorre com outros diálogos apócrifos, a doutrinas das escolas filosóficas helenísticas e posteriores, como o neoplatonismo.
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Os sofismas sobre a natureza irreal do futuro e do não-ser se ligam antes à escola de Eleia ou de Mégara: como os discípulos de Parmênides, o autor do Sísifo joga com os significados de ser e não-ser, atribuindo a condição de ser apenas ao que possui ou possuiu uma essência determinada, uma phýsis, da qual o futuro não participa.
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Quando Sócrates interpela Sísifo sobre se alguém poderia alcançar o que não existe, todo o trecho está impregnado pelo espírito sofístico, ainda muito vivo na época de Platão e de Aristóteles, ainda que seja difícil identificar a fonte imediata do argumento.
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Do ponto de vista estilístico, o diálogo oferece poucas particularidades linguísticas e nenhuma imagem original que realce o pensamento.
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Os raros exemplos que buscam precisar as ideias expostas têm muito pouco de pessoal e são todos empréstimos de Platão.
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O vocabulário é clássico e quase todos os termos se encontram também em Platão, embora algumas expressões permitam situá-lo em data mais tardia.
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O diálogo foi composto na época de Aristóteles ou pouco depois, e provém dos ambientes sofísticos que ainda se esforçavam por desenvolver com engenho temas conhecidos e de repertório habitual.
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