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4. Mênon, Sócrates e Anytus (Mênon 96d-100c)

John Sallis

  • A distinção entre o conhecimento e a opinião verdadeira fornece o fundamento para explicar a aparência de saber em indivíduos desprovidos de virtude.
    • A opinião verdadeira (doxa alethes) caracteriza-se como um estado intermediário onde a alma apreende a manifestação parcial dos todos, embora permaneça sujeita ao ocultamento.
    • Diferente do conhecimento (episteme), as opiniões são instáveis e tendem a desvanecer da alma a menos que sejam amarradas pelo cálculo da causa (aitias logismon).
    • O processo de fixação das opiniões é identificado por Socrates com a reminiscência, o ato de medir as percepções particulares à luz da manifestação originária das totalidades.
    • “O conhecimento resulta quando as opiniões verdadeiras são amarradas para que não fujam da alma de um homem; elas são ligadas a causas em seu cálculo. Este processo de amarração é idêntico à recordação.”
  • A conclusão de que a virtude é concedida por dispensa divina (theia moira) atua como uma imagem mítica da condição humana e da gratuidade do saber.
    • A posse de um conhecimento implícito dos todos não é um produto do ensino técnico, mas um dom que precede a investigação e possibilita o aprendizado.
    • A expressão “dispensa divina” reflete o caráter não imediato e transcendente da origem do saber, assemelhando-se ao relato mítico de Protagoras sobre a distribuição das faculdades.
    • Se a virtude depende desse horizonte de manifestação que é dado ao homem, sua aquisição não pode ser reduzida a uma simples transação pedagógica entre mestre e aluno.
    • “A virtude é adquirida por dispensa divina. O homem é capaz de aprender apenas porque já possui um conhecimento implícito dos todos originais; a manifestação dos todos é sempre já concedida, dispensada ao homem.”
  • O encerramento do diálogo consolida o contraste entre Meno e Anytus como uma impossibilidade de mediação entre as partes e o todo.
    • Meno representa a fragmentação das partes sem a unidade do todo, enquanto Anytus personifica a pretensão de um todo dogmático que ignora a complexidade das partes.
    • A figura de Anytus como vidente (mantis) parodia a relação autêntica com a totalidade proposta pela reminiscência, substituindo a investigação pela opinião herdada.
    • A incapacidade de ambos os interlocutores em mediar esses polos impede que a virtude se efetive neles, apesar da presença de Socrates como paradigma dessa mediação.
  • Socrates emerge como o único mestre de virtude no diálogo, embora sua pedagogia fracasse diante da indisposição de seus ouvintes.
    • O ensino da virtude exige do discípulo uma abertura para a anamnesis que nem a memória servil de Meno nem o nacionalismo de Anytus permitem.
    • O fracasso prático do ensino no Meno não nega a ensinabilidade da virtude, mas ressalta a exigência de uma transformação interior do sujeito.
    • O pedido final de Socrates para que Meno e Anytus dialoguem entre si é carregado de ironia, pois propõe a união de dois extremos que, sem a mediação socrática, permanecem incomunicáveis.
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