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IV, 9 SE TODAS AS ALMAS SÃO SÓ UMA

Tratado 8

Brisson & Pradeau

BP

  • No tratado 8, Plotino retoma a questão da unidade da alma, já abordada nos tratados 2 (IV, 7), 4 (IV, 2) e 6 (IV, 8), que haviam definido a natureza da alma e evocado as dificuldades do cuidado que ela dispensa aos corpos.
    • Trata-se de uma questão clássica e escolar presente em todas as psicologias antigas: deve-se dizer da alma, que exerce funções distintas, que é uma multiplicidade ou uma unidade, e neste segundo caso, qual é a unidade que a caracteriza?
    • Plotino conduz conjuntamente dois argumentos: a defesa da tese platônica da homogeneidade da alma, seja a do universo ou a dos seres vivos, e, mais ambiciosamente, a tese da unidade de todas as almas.
    • A originalidade notável do tratado 8 é não se limitar ao lugar-comum da tradição platônica de estabelecer que a alma é uma realidade perfeitamente incorpórea, apondo-se às escolas estoica e aristotélica; o tratado 2 (IV, 7) já havia refutado essas posições, recusando a definição estoica da alma como corpo e denunciando as ambiguidades da definição aristotélica como enteléquia do corpo.
    • Ao sustentar que todas as almas não são senão uma, Plotino contesta que se possa limitar à homogeneidade da alma: onde Platão e seus intérpretes antigos veem uma realidade genérica que abrange indivíduos homogêneos, Plotino objeta que a diversidade e a multiplicidade das almas são apenas aparentes ou circunstanciais.
    • Essa tese tem precedentes filosóficos na doutrina estoica, que insiste sobre a unidade e a coerência do universo e sobre a racionalidade cósmica que ordena e associa todas as coisas; Plotino retém a hipótese da simpatia universal, mas a refere à existência de uma realidade psíquica única, causa exclusiva da existência e da ordenação do universo.
    • Para justificar uma tese cujo caráter inovador ele próprio sublinha, Plotino dedica atenção considerável às objeções que ela suscitará entre leitores estoicos e platônicos.
  • As principais objeções à tese da unidade da alma são de duas ordens: a diversidade das formas de vida, ou seja, a existência de uma multiplicidade de seres vivos distintos, e a diversidade das faculdades ou potências da alma dentro dos mesmos indivíduos.
    • As dificuldades relativas à diversidade dos seres vivos são as mais fáceis de resolver: se existe uma multiplicidade de seres animados diferentes entre si, é porque os corpos que a alma anima independentemente uns dos outros não são idênticos, de modo que uma mesma alma animará de modo diferente corpos diferentes; a diversidade e a multiplicidade são assim obra dos corpos, e não da alma.
    • A verdadeira dificuldade reside na multiplicidade das faculdades psíquicas: as plantas carecem de sensação, nem todos os animais exercem a razão, e entre os viventes humanos, cujos corpos são semelhantes, as faculdades racionais e sensitivas não se exercem de modo idêntico.
    • Plotino responde sustentando que essa diversidade não indica a existência de almas diferentes com faculdades diferentes, mas ao contrário prova que uma alma única exerce suas faculdades de múltiplas maneiras, produzindo tantos indivíduos viventes; cada forma de vida no mundo sensível corresponde a uma maneira de a alma cuidar de seus múltiplos produtos corporais, de modo que “não é porque a alma tem várias potências que ela não é uma”.
  • O argumento do tratado não esgota as questões que ele suscita, cabendo ao conjunto dos tratados 27 a 29 (IV, 3-5) examiná-las com mais atenção, especialmente como as almas individuais atingem certo grau de autonomia ou reflexão sendo todas uma única e mesma alma.
    • Plotino estabelece aqui a unidade de todas as almas afirmando que elas são outras tantas marcas e imagens, nos corpos, de um mesmo selo, ou outros tantos teoremas de uma única ciência que se desdobra em cada um deles e que cada um pressupõe inteiramente, comparação que retomará frequentemente nos tratados ulteriores.
    • As almas individuais são produzidas pela alma do mundo da qual provêm, assim como a alma do mundo é ela mesma oriunda da Alma única e real que permanece no inteligível, chamada por conveniência Alma hipostase.
    • Os tratados ulteriores terão de enfrentar a ambiguidade da tese plotiniana: como explicar que as almas individuais procedem da alma do mundo sem serem dela distintas?

Igal

Cronologicamente, este breve tratado pertence, juntamente com IV 2, IV 7 e IV 8, ao grupo dos oito primeiros tratados (Vida 4, 37) e constitui um novo indício da preocupação precoce do autor com os problemas da alma. Tematicamente, IV 9 é um antecipação inicial do primeiro dos problemas discutidos em IV 3-5: o da “unimultiplicidade” da Alma. A tese, em ambos os casos, acaba sendo a mesma: todas as almas encarnadas, tanto a do cosmos quanto as almas humanas, são almas particulares que provêm de uma única anterior a todas: a Alma superior; mas, em última análise, todas elas são uma só, formando juntas uma única Hipóstase “unimúltipla”, uma e indivisível em seu nível superior, ao mesmo tempo que múltipla e indivisivelmente dividida em seu nível inferior; e em ambos os tratados é invocada, como ilustração, a analogia da ciência. Em contrapartida, as objeções que o autor se propõe contra sua própria tese são distintas em ambos os casos: em IV 9, insiste-se mais nas dificuldades de natureza psicológica e moral que a tese acarreta. O caráter inicial deste tratado transparece, principalmente, na maior insegurança com que a tese é defendida, juntamente com um marcado esquematismo no tratamento do problema, em contraste com a segurança, complexidade e matização que revestem o desenvolvimento do mesmo problema em IV 3. A tese da unimultiplicidade da Alma é determinada em grande parte, por um lado, pela antiga crença na existência de uma Alma cósmica e, por outro, pela ausência do conceito de «pessoa» no horizonte da filosofia platônica. Mas, mesmo sem nos afastarmos totalmente desse horizonte, é uma tese dificilmente compatível com a experiência da unidade da consciência psíquica individual e com a intransferibilidade da responsabilidade moral de cada um.


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