autores:ucciani:amor-deus
Amor Deus
Ucciani (UPGA:179-208)
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A investigação sobre o amor não se limita a considerá-lo um estado da alma; a própria estrutura do tratado 50 inverte o título, iniciando pelo estado da alma para depois abordar o amor como deus ou daimon.
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A terceira via, campo de experiência onde a filosofia transforma a imagem em conceito e onde o indivíduo busca autonomia contra a dupla imposição da divindade e da lei, é tanto perseguida em sua lógica quanto reduzida por um deslizamento em direção ao uso.
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Ao passar do amor como estado da alma para o amor como deus ou daimon, a terceira via tende a desaparecer em proveito das outras duas, e com ela, a possibilidade de o indivíduo se pensar e agir como autônomo.
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A transição plotiniana sublinha a importância relativa do estado da alma em relação à instância desencadeadora (divina), indicando que a função filosófica visa mais a exterioridade do que a interioridade.
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A autonomia da terceira via encontra seu limite, pois os estados do indivíduo só ganham sentido em relação à exterioridade, negando a existência de um sujeito propriamente dito no pensamento antigo.
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O caráter divino do amor, conforme o texto platônico restituído por Plotino, é atestado por sua genealogia (Amor filho de Afrodite) e por sua tarefa de ser o patrono dos belos jovens, despertando as almas para a beleza transcendente.
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A divindade do amor se manifesta em quatro registros: o estabelecimento do ser divino (o elo protetor), o objeto de amor (o amado) e dois que circunscrevem o estado da alma (o amante).
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O amor como experiência é o elo, de impulso divino, entre o amante e o amado, sendo a exterioridade divina o que precede (o divino) e prolonga (o amado) a interioridade da alma.
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O ser divino, ao estimular a ligação terra/céu, confere à alma (o ser que liga) o aval da exterioridade, funcionando como seu quadro e estimulador.
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A passagem para o ser demoníaco representa um deslizamento na exterioridade, onde o impulso se torna mais de imitação do que de princípio, substituindo o conceito (próprio do ser divino) pela imagem (motriz da mimese).
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O lugar propriamente filosófico da investigação é o conceito, não a imagem, estudando o movimento in abstracto em vez da deriva mimética.
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A natureza do deslizamento é marcada pela centralidade de Afrodite, cuja análise é exigida logicamente por qualquer discurso sobre o amor, obrigando o filósofo a abordar o campo do mito com prudência.
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A imagem de Afrodite, por sua duplicidade (Urânia e Pandêmia), contém em si os desenvolvimentos sobre o amor como deus ou daimon, gerenciando os eixos do deslizamento entre a estimulação divina e a ilustração do uso.
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A gênese de Afrodite a remete à esfera pré-divina e pré-legal, onde a lei e a divindade ainda não vigoram, o que a torna um eixo da terceira via que não pode ser reduzido às outras duas.
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Ao transmutar as figuras míticas de Urano e Cronos em princípios (o antes), Plotino exclui a terceira via do mito e a propulsiona para a esfera do princípio, onde Afrodite se torna a alma mais divina, pura e sem mistura, que permanece no alto.
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O desenvolvimento subsequente consagra a via fora do corpo, ligando o amor ao Espírito (Nous), do qual Afrodite, por ser gerada imediatamente, recebe a pureza e a autonomia, mantendo-se no alto por força de seu gerador.
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O amor urânico (Eros) nasce da tensão extrema de Afrodite em direção à sua própria origem (Cronos), sendo uma atração para o que a precede, e não para algo novo.
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O amor é ramificado no modelo preexistente das hipóstases, sendo uma “hipóstase eternamente dirigida para uma outra beleza”, o que marca a ruptura com a lógica incestuosa e introduz a temporalidade (Cronos) e a espacialidade (a beleza).
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Dois eixos de ligação se superpõem: o do conceito (racional) e o da imagem (mitológico). A filosofia encontra seu lugar no entre-dois, participando de ambos, mas fazendo o processo contra a imagem do baixo que se dá por substituta do ser.
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Na via da imagem, Eros é o desejo que atua como um olho, um intermediário entre aquele que deseja e o que é desejado, permitindo ao amante ver o que deseja.
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O olho plotiniano não opera na lógica da posse do objeto, mas na da purificação: para ver o Belo, é preciso tornar-se belo, numa ligação primordial que exige conhecimento prévio do objeto para assemelhar-se a ele.
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A visão ocorre em três níveis: a visão terrestre (viciada, em busca de pureza); a visão intermediária (aparentamento ideal, espetáculo pré-visto do amor); e a pré-visão propriamente dita, onde a união amorosa é vista antes de qualquer realização.
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O amor como experiência é a confrontação entre a pré-visão divina e a visão viciada, havendo um descompasso: o olho da pré-visão (Eros) e o olho da realização (o órgão) não veem a mesma coisa, abrindo um espaço para a autonomia na ruptura do projeto.
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A gênese do amor revela que a ligação no baixo (corpos) provém sempre de um olhar para o alto, e que o amor como estado da alma é uma repetição descendente do amor como visão.
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Duas imagens são distinguidas: a que nasce da materialização do excesso de desejo (voltada para o alto) e a que se dá como repetição da imagem primeira (o amor como estado da alma, movimento descendente da substância à não-substância).
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O amor divino ou demoníaco é o “antes” do amor como estado da alma, fundado na inacessibilidade de um antes (temporal ou teórico), cuja positividade é a geração (Afrodite gera Eros por não poder unir-se ao pai).
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A separação que caracteriza o amor não significa ruptura, mas uma inacessibilidade que, na experiência amorosa, revela a natureza absoluta da separação e do vínculo, sendo um “contratempo” ou “contra-espaço”.
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Plotino declina o amor no caminho da procissão das hipóstases, do amor urânio (na alma do céu) ao amor pandêmio (na alma do mundo) e aos amores múltiplos (nas almas individuais).
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O amor urânio consagra a ligação inferior como substituto da separação no alto, abrindo espaço para a autonomia da terceira via na impossível intervenção divina.
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O amor pandêmio se inscreve entre o alto (como intermediário) e o uso (do qual se torna modelo), sendo o amor que existe no mundo, ligado aos casamentos, mas que também pode despertar o desejo pelas coisas do alto.
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A multiplicação do amor em amores particulares (nas almas individuais) é uma difração permitida pela diferença de “mérito” entre as almas, mas a ligação fundamental assegura a redução do múltiplo ao uno pelo princípio da inclusão (a alma individual está na alma universal, assim como o amor particular está no amor universal).
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O discurso sobre o amor encontra sua realidade na pertinência do enunciado plotiniano, que, ao contrário do constato heteróclito de Platão, estabelece ordem ao ligar os três estados do amor aos três graus da alma.
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Assim, o amor que conduz cada alma para a natureza do Bem pode ser considerado deus (se pertence à alma de cima), daimon (se pertence à alma mista) ou estado da alma.
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Fazer a experiência do amor é fazer a experiência da ligação e da divindade, uma experiência mística.
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