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Sorabji, Richard

Richard Sorabji

RSPC

A filosofia dos comentadores de 200–600 d.C. marca a transição do pensamento antigo para o medieval, num percurso em que o neoplatonismo terminou por absorver as demais escolas.

  • A escola aristotélica (peripatética) enfrentou inicialmente a concorrência de estoicos e platonistas.
  • O neoplatonismo tornou-se dominante, assimilando as outras correntes sem deixar de receber suas influências, sobretudo a de Alexandre de Afrodísias.
  • Alexandre de Afrodísias, como a maioria dos pensadores do período, desenvolveu sua filosofia por meio de comentários às obras anteriores — razão pela qual esses filósofos gregos são chamados de comentadores.
  • Os comentários de Alexandre, assim como a maior parte dos sobreviventes, versam sobre Aristóteles.

O equilíbrio de poder deslocou-se do paganismo para o cristianismo, numa relação ambivalente que pode ser entrevist nos próprios comentários.

  • A teologia e a espiritualidade do neoplatonismo exerceram influência profunda sobre a filosofia cristã.
  • O movimento de interiorização em busca da verdade — iniciado pelos estoicos e desenvolvido pelos neoplatonistas — também marcou essa transição.

O neoplatonismo revelou-se compatível com pelo menos duas culturas religiosas medievais, tornando-se elo indispensável entre a Antiguidade e a filosofia posterior.

  • O islamismo medieval acolheu o neoplatonismo do século IX ao final do século XII.
  • O cristianismo latino medieval o incorporou a partir do final do século XII.
  • Saltar de Platão e Aristóteles diretamente a Descartes, dois mil anos depois, ou a Tomás de Aquino, 1.600 anos depois, impede a compreensão desses pensadores posteriores.
  • Tomás de Aquino lia avidamente os comentadores que estavam sendo traduzidos para o latim e via Aristóteles através de suas lentes.

Os comentadores não foram apenas fonte de influência para a posteridade; suas obras constituem também um panorama de até mil anos de filosofia grega anterior.

  • Os comentários preservam fragmentos de filosofia grega de outra forma perdidos.
  • Alguns comentários representam aulas e lançam nova luz sobre os métodos de ensino da época.
  • Os comentários contêm filosofia de interesse considerável por mérito próprio, com argumentos sobre determinismo e sobre o início do universo, por exemplo.
  • Os comentários antigos sobre as Categorias de Aristóteles obrigam o leitor a aprofundar a filosofia aristotélica a um nível sem paralelo na discussão moderna.
  • Com mais de cinquenta volumes de tradução para o inglês disponíveis na série The Ancient Commentators on Aristotle, torna-se mais fácil identificar escritos como fragmentos de comentários perdidos ou como traduções — especialmente para o árabe — de partes perdidas de comentários.

Os comentadores são essenciais para a compreensão da filosofia latina medieval, pois os comentadores neoplatonistas transformaram o Deus de Aristóteles num Criador e dotaram sua alma humana de imortalidade.

  • O objetivo desses comentadores era defender a harmonia entre Platão e Aristóteles contra as acusações cristãs de incoerência.
  • Por uma ironia, essa harmonização acabou tornando Aristóteles aceitável para o cristianismo no século XIII.
  • Guilherme de Moerbeke apresentava suas traduções latinas dos comentadores a Tomás de Aquino.

Os comentadores são a fonte de ideias fundamentais que se acreditava terem sido inventadas no Ocidente latino dos séculos XIII ou XIV.

  • A teoria do ímpeto — saudada por Thomas Kuhn como uma revolução científica do século XIV — tem origem nos comentadores antigos.
  • A noção de intencionalidade, que Franz Brentano no século XIX afirmou ter retirado dos seguidores medievais de Tomás de Aquino e que tornou peça central da filosofia da mente moderna, também remonta aos comentadores.
  • As obras iniciais de Galileu mencionam o comentador Filópono com mais frequência do que mencionam Platão.
  • A ideia de latitude das formas, no volume sobre a Física, é mais um exemplo de ideia medieval derivada dos comentadores antigos.
  • Os comentadores representam, assim, o elo perdido na história da filosofia ocidental.
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