User Tools

Site Tools


autores:gadamer:agathon:start

Ideia do Bem

GADAMER, Hans-Georg. The idea of the good in Platonic-Aristotelian philosophy. New Haven, CT: Yale University Press, 1986.

1. Reconhece-se em Hegel a apreensão da tendência especulativa tanto na doutrina platônica das ideias quanto na ontologia aristotélica da substância, congenialidade que o torna, em tempos modernos, o primeiro a romper o esquema interpretativo da doutrina platônica das ideias moldado por Aristóteles e desenvolvido no neoplatonismo e na tradição cristã, não permanecendo Hegel sem influência duradoura sobre a historiografia filosófica — devendo-lhe muito bons aristotélicos como Trendelenburg e Eduard Zeller —, sendo, sobretudo, o primeiro a tornar acessível o significado filosófico dos diálogos “esotéricos” e “dialéticos” de Platão; subestima-se, contudo, no período posterior a ele, e ainda hoje, o efeito unitário que liga a filosofia do logos platônica e aristotélica, efeito que a Hegel não permaneceu oculto.

2. Localizam-se diversas razões para essa subestimação: um hegelianismo oculto e não reconhecido subjaz às interpretações neokantianas de Platão em Cohen e Natorp e em seus sucessores Cassirer, N. Hartmann, Hönigswald e Stenzel, embora, dada a mentalidade particular dessa geração de estudiosos, tenha sido exclusivamente Platão, e de modo algum Aristóteles, quem sustentou seus propósitos crítico-idealistas.

  • Uma elaboração completa dos insights hegelianos foi totalmente obstruída, de um lado, pela camada dogmática superposta a Aristóteles pelo neotomismo predominante no campo católico, e, de outro, pela rixa hereditária entre a ciência natural moderna e a compreensão teleológica aristotélica da natureza, ou mesmo qualquer filosofia idealista da natureza.
  • Ao interpretar a “ideia” como “lei natural”, aproximando assim Platão e Galileu, a interpretação neokantiana de Platão, sobretudo a de Natorp, procedeu de modo excessivamente provocativo em relação ao texto grego, permanecendo insensível às diferenças históricas.
  • Partindo-se dessa interpretação neokantiana e idealista de Platão, a crítica aristotélica a Platão só pode aparecer como mal-entendido absurdo, fato que contribuiu ainda mais para o desconhecimento do efeito unitário entre Platão e Aristóteles, bloqueando a plena incorporação da herança grega ao pensamento filosófico contemporâneo.
  • Justaposições triviais e ingênuas como “Platão, o idealista” versus “Aristóteles, o realista” ganharam curso universal, confirmando, na verdade, apenas a profundidade verdadeiramente abissal do preconceito de todo idealismo da consciência.
  • O esquema inspirado por Hegel, que via o pensamento grego como ainda incapaz de conceber o absoluto como espírito, vida e autoconsciência, tampouco favoreceu uma avaliação adequada da significação fundamental do pensamento grego para a filosofia moderna.

3. O distanciamento de Nicolai Hartmann em relação ao idealismo neokantiano estimulou o esforço de penetrar no pensamento aristotélico, mostrando-se de grande auxílio nesse empenho a pesquisa francesa e inglesa — de Robin, Taylor, Ross, Hardie e, sobretudo, do incomparável Hicks —, faltando ainda, nessa fase, a visão da unidade na filosofia do logos iniciada com o questionamento socrático e rapidamente deteriorada no período pós-aristotélico, mas que, ainda assim, determinou permanentemente todo o aparato conceitual do pensamento ocidental; decisivo, nesse estágio, foi o encontro com Heidegger, que havia percorrido tanto a tradição católico-aristotélica quanto a neokantiana e, apropriando-se da minuciosa arte de conceituação husserliana, forjara a resistência e o poder de intuição indispensáveis para filosofar com Aristóteles — advogado de Aristóteles que, em sua diretividade e no frescor de seus insights fenomenológicos, superava largamente todas as tradicionais nuances do aristotelismo, ultrapassando o tomismo e mesmo o hegelianismo.

4. Pouco se tornou público, até hoje, desse encontro, embora tenha exercido efeito no ensino acadêmico, definindo-se, a partir dali, o próprio percurso; ao publicar-se o primeiro livro, em 1931 (Platos dialektische Ethik), já se tornara evidente, ao menos no âmbito da filosofia prática, a convergência entre o objetivo do pensamento platônico e as distinções conceituais aristotélicas.

5. Mesmo então, algo já apontava para além do contexto mais estreito dos problemas de filosofia prática: o problema metodológico de a tradição ter preservado duas coisas tão díspares quanto as composições dialógicas de Platão e os esboços de trabalho de Aristóteles, não se possuindo nem elaboração teórica autêntica dos ensinamentos platônicos nem os escritos que Aristóteles publicou, sendo necessário jogar constantemente essas duas coisas dissimilares uma contra a outra — auxiliando nessas primeiras tentativas de superar essa dificuldade metodológica a arte da descrição fenomenológica, aprendida em parte com Husserl e Heidegger, não podendo nem a análise textual da forma mimética de comunicação dos diálogos nem a da forma protocolar dos escritos aristotélicos limitar a autenticidade de uma exposição fenomenológico-descritiva baseada no texto — exposição fenomenológica da própria matéria em questão.

6. Passado quase meio século desde então, o problema metodológico perdeu, em muitos aspectos, sua aspereza — do lado aristotélico, por obra de Werner Jaeger e sua escola, e, mais recentemente, do lado platônico, pelos estudiosos de Tübingen, impulsionados sobretudo por Robin; os estímulos filosóficos recebidos de Heidegger conduziram cada vez mais ao âmbito da dialética, tanto platônica quanto hegeliana, dedicando-se décadas de ensino a elaborar e testar o que aqui se chamou de efeito unitário platônico-aristotélico, permanecendo, ao fundo, o desafio contínuo representado pelo próprio percurso do pensamento de Heidegger, e especialmente por sua interpretação de Platão como passo decisivo rumo ao esquecimento do ser (Sein) característico do “pensamento metafísico”.

7. A elaboração e projeção de uma hermenêutica filosófica em Verdade e Método testemunham o esforço de resistir teoricamente a esse desafio, esperando-se que os estudos seguintes sirvam também para manter vivos tanto o diálogo platônico quanto a dimensão especulativa comum a Platão, Aristóteles e Hegel, como parceiros na discussão contínua que é a filosofia, associando-se a outros pequenos blocos de construção reunidos nesse ínterim.

8. Esses estudos foram apresentados duas vezes em sessões da Academia de Ciências de Heidelberg (1974 e 1976), oferecendo-se aqui elaboração adicional dessas apresentações, à qual se espera ainda acrescentar outros estudos, sendo improvável que estes venham a constituir, algum dia, obra verdadeiramente unificada, tal como tampouco o é o presente ensaio, consistindo antes numa série de reflexões e observações sobre a questão colocada.

9. Nota-se referência apenas esparsa à bibliografia recente, seja por não se sentir qualificação para tomar posição abrangente sobre ela, seja porque os pressupostos da própria interpretação diferem demais dos de outras pesquisas; pede-se ao leitor que tome o que se segue como tentativa de ler os pensadores clássicos gregos, por assim dizer, ao inverso — não a partir da perspectiva da suposta superioridade da modernidade, que se crê além dos antigos filósofos por possuir lógica infinitamente refinada, mas com a convicção de que a filosofia é experiência humana que permanece a mesma e que caracteriza o ser humano como tal, na qual não há progresso, mas apenas participação — convicção que, por mais difícil de crer que soe mesmo para uma civilização como a nossa, moldada pela ciência, ainda assim parece verdadeira.

autores/gadamer/agathon/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1