Boutot
BOUTOT, Alain. Heidegger et Platon: Le probleme du nihilisme. Paris: PUF, 1987.
1. A aproximação entre Heidegger e Platão apresenta-se, à primeira vista, como paradoxal, na medida em que Heidegger dedica poucas linhas e poucos comentários textuais diretos a Platão, o que suscita a questão de saber se uma exegese autêntica do vínculo entre os dois pensadores é possível sem recair no artificialismo ou na extrinsecidade.
2. A única obra de Heidegger inteiramente consagrada a Platão já publicada é Platons Lehre von der Wahrheit (escrita em 1940, publicada em 1942), cujo conteúdo originou-se de uma série de cursos anteriores e é acompanhada por um segundo texto, ainda inédito, dedicado exclusivamente a Platão.
-
O opúsculo de 1942 derivou de três cursos ministrados em Friburgo entre 1931 e 1934: Vom Wesen der Freiheit, Die Grundfrage der Philosophie e Vom Wesen der Wahrheit, ainda não publicados.
-
Existe também o curso de Marburgo do semestre de inverno de 1924-1925 sobre o Sofista, de inspiração provavelmente distinta por pertencer a período anterior, igualmente inédito.
3. Entre as obras publicadas, duas evocam Platão de modo mais extenso, ainda que sem lhe serem inteiramente dedicadas.
-
Nos cursos sobre Nietzsche, publicados em dois volumes, Der Wille zur Macht als Kunst (1936-1937) examina as relações contrastadas entre Beleza e Verdade a partir da República e do Fedro, enquanto Der europäische Nihilismus (1940) mostra como o idealismo platônico prepara a redução moderna e nietzschiana do ser (Sein) a valor.
4. As demais obras de Heidegger disponíveis evocam Platão apenas de maneira alusiva, geralmente em breves passagens ou dentro de enumerações associadas ao par Platão-Aristóteles, sem que Platão seja tratado por si mesmo.
-
O opúsculo Vom Wesen des Grundes (1929), ligado ao curso de Marburgo de 1928 (Logik), apresenta uma interpretação original da transcendência da Ideia do Bem em Platão.
-
O curso de Friburgo do semestre de verão de 1930, Vom Wesen der menschlichen Freiheit, aborda longamente a significação temporal do ser (οὐσία) entre os gregos, particularmente em Platão e Aristóteles.
5. No cômputo geral, Heidegger consagrou inteiramente a Platão apenas duas obras (Platons Lehre von der Wahrheit e o curso sobre o Sofista), sendo que a maior parte de seus desenvolvimentos sobre o platonismo é tardia, posterior a 1930, o que sugere uma indiferença inicial só superada depois, apesar de sua dedicação constante, no mesmo período, a outras vertentes da filosofia antiga.
6. À escassez de textos de Heidegger sobre Platão corresponde uma escassez equivalente de textos platônicos efetivamente comentados, restritos em geral a breves excertos revisitados repetidamente e nem sempre interpretados de modo concordante entre si.
-
O texto mais longamente comentado é a alegoria da caverna, em Platons Lehre von der Wahrheit.
-
Outros textos centrais são o trecho do livro VI da República sobre a transcendência da ideia do Bem, comentado três vezes em perspectivas distintas, a proposição de Protágoras no Teeteto sobre o homem como medida de todas as coisas, e a citação do Sofista que abre Sein und Zeit.
7. A comparação entre o pequeno número de textos dedicados a Platão e a extensa produção sobre Aristóteles, Kant, os pré-socráticos e Nietzsche poderia sugerir que Platão ocupa lugar menor no pensamento de Heidegger e que pouco haveria a esperar de sua confrontação, impressão reforçada pelo caráter fragmentário das referências platônicas empregadas.
8. Essa primeira impressão, contudo, precisa ser corrigida, sob pena de comprometer a existência mesma de uma leitura heideggeriana original e específica do platonismo.
9. A raridade relativa dos textos de Heidegger sobre Platão não deve enganar quanto à importância real da filosofia platônica em seu pensamento, já que Platão representa um momento charneira na história do pensamento ocidental.
-
Platão encerra a história do primeiro pensamento grego e abre a tradição metafísica, marcando toda a filosofia ocidental subsequente, ao voltar-se para a essência do ente (Seiendheit) em detrimento da verdade do ser (Sein) enquanto tal, configurando o que Heidegger chama de nihilismo, isto é, o esquecimento do ser (Seinsvergessenheit).
-
Confrontar-se com Platão equivale, para Heidegger, a confrontar-se com o contrário de si mesmo, pois Platão inaugura o esquecimento que o próprio Heidegger busca superar, aproximação já observada por O. Pöggeler ao afirmar que a reflexão heideggeriana sobre Platão constitui também uma reflexão sobre o ponto de partida do próprio pensamento de Heidegger.
-
A leitura do platonismo permite a Heidegger demarcar-se de seu ponto de partida metafísico originário e avançar rumo a uma meditação mais autêntica em direção à verdade do ser.
10. A escassez relativa dos textos platônicos comentados por Heidegger deve ser compreendida positivamente como expressão do método ou caminho seguido em seu diálogo com Platão, voltado à doutrina (Lehre) enquanto impensado (Ungedachte) subjacente ao dito.
-
Em Platons Lehre von der Wahrheit, a doutrina de um pensador é definida como aquilo que permanece não dito (Ungesagte) em seu dizer, mas a que o homem está exposto e a que deve se entregar.
-
O impensado não é estranho ao pensado, mas constitui o lugar de onde este recebe seu espaço essencial (Wesensraum), configurando-se como sua lei oculta.
-
Por perseguir o impensado que rege o pensamento platônico, Heidegger dispensa a exegese da totalidade dos diálogos, tarefa que considera impraticável, optando por outro caminho de acesso ao não dito, privilegiando os mitos (o atrelado alado, o mito de Er, a alegoria da caverna) por sua maior aptidão a revelar o sentido latente da palavra platônica.
-
Esse procedimento opõe-se à abordagem hegeliana da história da filosofia, a qual busca no já pensado, e não no impensado, o vigor de uma doutrina, sistematizando os diálogos platônicos segundo os momentos da Ideia hegeliana (Lógica, Natureza, Espírito), ao passo que em Heidegger não há sistematização, mas repetição indefinida de poucos textos.
11. Certas interpretações heideggerianas, como a leitura da alegoria da caverna enquanto doutrina platônica da verdade, podem parecer arbitrárias por não se aterem à literalidade dos textos, mas essa aparência decorre da necessidade de toda interpretação recorrer a certa violência (Gewalt) para alcançar o querer-dizer subjacente ao dizer, violência que não se confunde com o arbítrio fantasioso, mas que assegura antes uma fidelidade autêntica ao impensado, evitando a leitura anacrônica de Platão por meio de conceitos pós-platônicos.
12. A leitura heideggeriana do platonismo centra-se, a partir de Platons Lehre von der Wahrheit, no esquecimento da verdade do ser (Sein) em Platão, esquecimento entendido como consequência intrínseca do idealismo platônico, uma vez que caracterizar o ser como ideia (Idee) implica pensá-lo relativamente ao ente sensível, e não em sua verdade própria, fazendo do idealismo platônico a origem do nihilismo de toda a tradição ocidental.
13. O trabalho organiza-se em duas partes.
14. Na primeira parte, dedicada à exegese heideggeriana do pensamento de Platão propriamente dito, examinam-se sucessivamente três eixos temáticos.
-
Os pressupostos do idealismo platônico, isto é, a identidade entre ser e presença constante em Platão, cuja significação temporal implícita conduz à busca do ser do ente na ideia, identidade que repousa sobre determinada concepção do tempo como sucessão de agoras.
-
O idealismo platônico propriamente dito, no qual o ser, pensado como ideia, recebe o selo decisivo da anterioridade (Apriorität) em relação ao ente, ocultando sua essência, e no qual a ideia do Bem instaura a estrutura onto-teológica de toda metafísica.
-
As consequências do idealismo platônico sobre a lógica, a física e a estética, a partir de textos esparsos na obra de Heidegger que evidenciam decisões operadas pela filosofia platônica.
15. Na segunda parte, analisa-se a posteridade do platonismo segundo Heidegger, uma vez que Platão é estudado não apenas em si mesmo, mas enquanto inaugurador de uma história cuja metafísica corresponde às possibilidades de essência por ele abertas.
-
O significado e o alcance da interpretação heideggeriana da história da metafísica como história do platonismo, examinados por meio de dois momentos essenciais, Kant e Nietzsche, relacionando a condição de possibilidade kantiana e o valor nietzschiano à ideia platônica.
-
As eventuais influências presentes na interpretação heideggeriana da história da filosofia como história do platonismo, precisando convergências e divergências entre as abordagens heideggeriana e nietzschiana.
-
O que está em jogo, para o próprio Heidegger, na denúncia da história do platonismo como história do esquecimento do ser (Seinsvergessenheit).
16. A tarefa proposta consiste na elucidação e no comentário da exegese heideggeriana do platonismo tal como se manifesta no conjunto dos textos disponíveis, incluindo os cursos ainda em processo de publicação, organizados em torno do nihilismo platônico como tema central, com atenção às diferenças de ênfase e às eventuais reviravoltas entre uma obra e outra, revelando uma evolução na atitude de Heidegger perante o pensamento platônico que preserva, todavia, certos invariantes.
17. A leitura heideggeriana do platonismo é abordada como obra filosófica original, digna de estudo em si mesma, mantendo-se contudo uma atitude crítica no sentido positivo do termo grego κρίνειν (separar, distinguir para extrair o específico), de modo que a crítica empreendida parte do confronto entre o texto heideggeriano e o texto platônico de referência, evitando julgamentos externos à problemática de Heidegger, em favor de uma abordagem benevolente, porém vigilante.
