Matéria sensível nos Tratados
GARCÍA BAZÁN, Francisco. Neoplatonismo y vedânta: la doctrina de la materia en Plotino y Shánkara. Buenos Aires: Depalma, 1982.
Plotino dedicou o curso de 260/261 inteiramente ao tema da matéria, mas já havia feito alusões a esse conceito nos seis cursos anteriores, pressupondo uma doutrina que só seria exposta explicitamente mais tarde.
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As referências anteriores a 260/261 dizem respeito sobretudo à matéria nos seres sensíveis.
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A doutrina sobre a matéria aparece de forma sucinta e pressuposta ao longo dos cursos anteriores.
No tratado Sobre o belo (Enn. I,6) — o primeiro na ordem cronológica da produção escrita de Plotino — a matéria é apresentada como sinônimo de material informe que aguarda receber uma ideia e um princípio formador (logos), sendo a fealdade identificada com a ausência total de logos e Ideia.
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“Algo é feio se não foi dominado pela forma e pelo princípio formador, pois sua matéria não suportou plenamente ser formada segundo a ideia.”
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A massa material externa é o que divide, na casa física, a noção ou ideal de casa própria do arquiteto.
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“As belezas sensíveis são imagens e sombras que, tendo saído correndo, chegaram à matéria, adornaram-na e, ao se mostrarem, elevam-nos.”
Ao analisar a beleza de origem psíquica — o bom caráter, os costumes moderados e a existência virtuosa — Plotino contrapõe a ela a alma feia, descrevendo como a mistura com a matéria corpórea desfigura a alma e a torna impura.
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A fealdade sobrevém à alma de algo estranho, de uma natureza diferente.
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Plotino usa o símile do homem mergulhado no lodaçal e do ouro recoberto de terra: ambos preservam sua natureza essencial sob a sujeira, bastando limpá-los para que ela reapareça.
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“Dizendo que a alma é feia pela mistura, combinação e inclinação ao corpo e à matéria, falar-se-ia corretamente.”
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A fealdade para a alma equivale ao que é para o ouro estar cheio de terra; removida a impureza, a alma, como o ouro, é bela e permanece consigo mesma.
A linguagem relativamente crua de Plotino nesse passo levou alguns intérpretes a atribuir-lhe uma inclinação dualista e a conceber a matéria como princípio autônomo, interpretação que não corresponde ao pensamento rigoroso do filósofo.
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Já no mesmo tratado Plotino interpreta os seres sensíveis como “imagens e sombras”, chave de abóbada de sua ontologia profundamente unitária.
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Essa caracterização exonera Plotino de toda acusação de dualismo baseada na independência do componente material da realidade.
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Os capítulos seguintes do tratado Sobre o belo se voltam ao ascenso místico, sem retornar à matéria sensível.
Nas Enéadas IV,7 (2) e V,9 (5) — correspondentes aos cursos de 253/254 e 256/257 — a matéria é associada ao par forma/matéria como elemento constitutivo dos compostos, retomando a exegese de Alexandre de Afrodísia ao conceito aristotélico de composição corporal.
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“A beleza corporal é adquirida para eles, pois essas belezas corporais são como formas em matéria.”
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A matéria dos corpos é sem qualidade (ápoion) e por isso carece de vida.
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A matéria é informe: “não é a matéria que se informa a si mesma.”
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O corpo participa da fluência, e apenas a alma, ao informá-lo, o detém temporariamente em seu correr.
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Se o que informa os corpos fosse outro corpo e não a alma, “tudo permaneceria firme em matéria.”
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Três ideias são desenvolvidas: a fluência corporal relaciona-se mais com a matéria do que com a alma; é possível conceber uma realidade material diferente dos corpos; a matéria, sem as realidades superiores, não teria motivo para existir.
Ao refutar a doutrina estoica a partir do capítulo 4 de Enn. IV,7, Plotino menciona a concepção do Pórtico segundo a qual a matéria é um corpo com quantidade, mas sem qualidade.
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O conceito estoico de pneuma/alma serve de ponto de partida para a refutação.
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A referência à doutrina estoica da matéria ocorre no contexto do confronto com o materialismo da Stoa.
Em Enn. V,9, ao ascender do mundo sensível ao Intelecto e ao Bem, Plotino introduz a noção de matéria psíquica: o que o corpo recebe é imagem e imitação, recebida do Intelecto por meio do reflexo na Alma, e a própria Alma age como matéria em relação ao Intelecto, cujas formas recebe.
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A matéria sensível volta a ser mencionada a partir do capítulo 5, caracterizando-a como substrato.
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O mal tem relação com a matéria sensível, retomando o que já havia sido afirmado em Enn. I,6.
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A alma é receptora de coisas desagradáveis que não provêm do Intelecto, mas da matéria.
No tratado IV,8 (6), ao explicar a ausência de oposição entre mundo espiritual e sensível por meio dos pares alma universal/corpo do mundo e alma particular/corpo do homem, Plotino insere um parágrafo fundamental para sua doutrina da matéria, recusando todo dualismo por irredutibilidade dela.
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“Se a matéria existe sempre, não é possível que, enquanto existe, não participe daquela potência que dá a todos o bem na medida em que é possível a cada um.”
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“Se o nascimento dela foi consequência necessária de causas anteriores, tampouco nesse caso deve estar separada, como se o que lhe dá por graça o ser ficasse detido por impotência antes de chegar a ela.”
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“O mais belo do sensível é manifestação dos melhores do espiritual e de sua potência e bondade, e tudo se mantém junto para sempre, o que existe espiritual e sensivelmente, uns existindo por si mesmos, os outros tomando a existência para sempre por participação nestes, imitando na medida do possível a natureza espiritual.”
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Seja a matéria eterna, seja produzida por seres superiores, em nenhum dos casos ela é refratária à recepção do Bem ou da potência do informante.
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O texto ecoa duas posições históricas sobre a matéria (eite… eite) sem que Plotino tome partido por nenhuma delas nesse momento.
Na sequência desse curso, Plotino expõe aspectos da relação entre o Uno e o Intelecto e faz a primeira indicação sobre a possibilidade de uma matéria espiritual, ao afirmar que as ideias e os números constituem o Intelecto.
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Aristóteles já havia registrado a expressão de que “as ideias e os números derivam da díade indefinida e do Uno.”
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A noção de matéria espiritual é apenas aludida, sem desenvolvimento explícito nesse ponto.
Na Enéada seguinte, que aborda a unidade da alma universal e suas manifestações na natureza e nos seres vivos individuais, menciona-se incidentalmente que a matéria sensível é fonte de divisão.
Em Enn. VI,9 — o mais místico dos tratados de Plotino, discípulo de Amônio — repete-se como doutrina corrente que a matéria carece de qualidades, e o conceito de alteridade aparece pela primeira vez em relação ao problema da matéria.
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As referências ao Intelecto nesse tratado serão examinadas em outro momento.
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O conceito de alteridade surge em dois capítulos distintos, ao que parece ligado à problemática da matéria.
No curso de 259/260, ao explicar as relações entre a alma universal e suas manifestações racional, sensitiva e gerativa, Plotino retoma em Enn. V,1 (10) o tratamento platónico do Timeu sobre a “matéria obscura” ou não-ser, instruindo que a vida lhe vem da alma.
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Em ligação conceitual estreita com Timeu 30a, a matéria obscura é descrita como substância sem forma, inferior até a um corpo inerte e à mistura dos elementos.
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Reitera-se que a alma é a matéria do Intelecto, funcionando como seu receptáculo (dejomenon).
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Reafirma-se que as ideias não participam da matéria sensível.
Em síntese, antes do curso específico de 260/261, Plotino havia delineado os seguintes aspectos da doutrina da matéria: ela é realidade informe, diferente dos corpos, sem qualidade nem vida, fonte de divisão e da fluência corpórea, fundamento das imagens sensíveis e, por meio do corpo, princípio de mal e de fealdade para a alma.
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A matéria é o componente inferior de todo composto sensível, mas substrato e receptáculo não refratário, em sua intimidade mais profunda, às formas superiores.
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As ideias são totalmente alheias à matéria sensível.
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Nada se afirma sobre a origem da matéria no tempo, sua produção atemporal ou sua eternidade, embora a questão já seja conhecida.
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Há também alusões à matéria na alma, enquanto composto, mas sem maior elucidação sobre tal noção.
