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Uno Positivo

THE ARCHITECTURE OF THE INTELLIGIBLE UNIVERSE IN THE PHILOSOPHY OF PLOTINUS (1967)

Generalizações sobre a filosofia de Plotino são extremamente perigosas.

  1. Qualquer tentativa de análise da arquitetura da realidade precisa ser precedida por algum tipo de declaração abrangente, por mais vaga que seja.
  2. O sistema de Plotino apresenta múltiplas construções da realidade que nem sempre são reconciliáveis entre si.

O conceito de Uno é a parte mais desconcertante da filosofia de Plotino.

  1. A dificuldade de expressar o inexprimível não é a única razão para a complexidade desse conceito.
  2. A complexidade da tradição metafísica herdada por Plotino gera uma real confusão de pensamento.
  3. O Uno é o princípio primeiro e último da realidade no sistema plotiniano, mas não pode ser chamado simplesmente de Absoluto.

O Uno pode ser considerado como a conclusão da busca por uma Primeira Causa e fundamento do ser.

  1. O Noús pode, em certos momentos do sistema, desempenhar as funções de causa primeira e diretor de todas as coisas.
  2. Há uma forte tendência no pensamento de Plotino a transferir essas funções para o Uno.

O Noús é a totalidade do ser, o mundo orgânico das Ideias e a mente que as conhece.

  1. O Noús corresponde ao estágio do conhecimento intuitivo perfeito no microcosmo.
  2. Segundo a psicologia aristotélica, no Noús a mente se torna aquilo que pensa.

O Noús não é o fundamento último da realidade, mesmo contendo a totalidade do ser.

  1. O mundo noético é um composto de Matéria e Forma, resultante de um duplo movimento de afastamento e retorno ao Uno.
  2. O Noús está em estado de dependência em relação ao Uno.

No tratado VI.8, o Uno é descrito como vontade pura, ato puro e amor.

  1. O Uno é apresentado como causa de si mesmo e, portanto, causa de tudo que dele procede.
  2. A metáfora da luz e a comparação do Uno com o sol aparecem ao longo de todas as Enéadas.

Ao fazer do Uno um ato puro e dotá-lo de vontade, Plotino o torna inevitavelmente uma ousía.

  1. Se o Uno é uma ousía, então ele é um uno-múltiplo, ao qual podem ser aplicados predicados.
  2. O Uno como unidade nua, para além do ser, só poderia ser uma causa no sentido de potência que se atualiza no desenvolvimento do universo.

Nessa perspectiva, é possível descobrir uma diferença real entre o Noús e o Uno.

  1. Tanto o Noús quanto o Uno são unidades e não-unidades, possuindo autointelecção e autoconcentração.
  2. O Uno parece ser apenas o aspecto do Noús que apresenta sua unidade em vez de sua diversidade.

É necessário considerar as Enéadas como um registro da vida espiritual.

  1. A fronteira entre microcosmo e macrocosmo não é rígida e precisa no pensamento de Plotino.
  2. As fronteiras que separam o eu do universo são ilusórias e desaparecem nos estágios superiores da percepção.

A distinção entre Noús e Uno torna-se clara quando se considera a vida espiritual.

  1. O Noús é o correlato universal do estado mental mais elevado do ser humano.
  2. O ser humano, na totalidade de seus poderes realizáveis, é muito mais do que alma, podendo se tornar Noús.

O Uno é normalmente pensado por Plotino como algo extra, fora e além, que se atinge apenas deixando-se a si mesmo para trás.

  1. O Uno é aquilo que resta fora e transcende a sistematização e classificação do cosmo.
  2. Os efeitos do Uno são algo extra à natureza do Noús, quase sobrenatural.

Essa concepção do Uno representa a primeira aparição clara na filosofia grega de um Absoluto diferente em gênero daquilo de que é fundamento.

  1. Plotino é inconsistente nessa concepção, pois o Uno sempre acaba entrando dentro do cosmo.
  2. A teoria da emanação necessária foi projetada para trazer o Uno para dentro do cosmo.
  3. Essa confusão levou ao desenvolvimento posterior do neoplatonismo com o super-Uno de Jâmblico.

O Noús é considerado por Plotino como o lar normal e o estado mais plenamente natural do ser humano.

  1. O Noús é certamente deus, mas o Uno se aproxima muito mais da concepção cristã de Deus.
  2. A percepção da identidade com o Uno é um estado temporário e anormal.

O aspecto do Uno como Deus não é uma concepção nova de Plotino.

  1. As origens dessa concepção aparecem em Platão, especialmente na menção da Ideia do Bem na República.
  2. A teologia sistemática de Aristóteles está por trás da descrição do Supremo nas Enéadas.
  3. A influência de Aristóteles sobre Plotino é muito grande e talvez não suficientemente reconhecida.

Porfírio relata que os escritos de Aristóteles, especialmente a Metafísica, estavam entre os livros usados nas aulas de Plotino.

  1. O ensinamento da Metafísica e do De Anima encontra-se firmemente embutido nas Enéadas.
  2. A semelhança entre o tratado VI.8 e a Metafísica de Aristóteles é muito impressionante.

Amônio Sacas, mestre de Plotino, tinha como principal mérito ter reconciliado Platão e Aristóteles.

  1. Os filósofos da renascença platônico-pitagórica tentavam conciliar Platão e Aristóteles.
  2. Havia também uma tradição platônica anti-aristotélica, da qual Ático é o principal expoente.

Numento e Albino são os representantes mais notáveis dos platônicos que aristotelizavam.

  1. Numento identifica o deus supremo aristotélico como mente que pensa a si mesma com a fonte das Ideias, a Ideia platônica do Bem.
  2. O Didaskalikos de Albino é uma obra extraordinária que reivindica ser um relato dos ensinamentos de Platão, mas é composta em grande parte por doutrinas de Aristóteles.

Numento apresenta um sistema no qual o Primeiro Deus não pode demiurgar e é inativo.

  1. O Primeiro Deus está relacionado com as coisas inteligíveis, enquanto o Segundo Deus está relacionado com as coisas inteligíveis e sensíveis.
  2. O Segundo Deus cria sua própria ideia e o cosmos, sendo a ideia de si mesmo o reflexo do auto-bem.

No sistema de Numento, a alma está unida ao bem de maneira indissolúvel.

  1. O Primeiro Deus é simples, estável e não é passível de divisão.
  2. A estabilidade do Primeiro Deus é considerada um movimento inato.

Albino, em seu Didaskalikos, combina elementos do Parmênides, da República, da Segunda Carta e da Metafísica de Aristóteles.

  1. O Intelecto Primeiro é descrito como belo, bom, sem qualidade, sem movimento, não sendo gênero, espécie ou acidente.
  2. O Intelecto Primeiro pensa sempre a si mesmo e seus próprios pensamentos, e sua atualidade é sua ideia.

A teologia negativa de Albino baseia-se na primeira hipótese do Parmênides.

  1. O Primeiro Intelecto não é mal, não tem qualidade, não é parte ou todo, não se move nem é movido.
  2. O sistema de Albino se proclama platônico, mas é chefiado pelo Deus aristotélico.

A fonte dos elementos principais na doutrina do Uno de Plotino é clara.

  1. A fusão dos primeiros princípios de Aristóteles e Platão foi provavelmente auxiliada pela doutrina da Mônada-Noús de Xenócrates.
  2. A concepção de um Primeiro Princípio superior ao Noús e às Ideias coloca Plotino no final de uma tradição de assimilação de Platão e Aristóteles.

Há uma diferença notável entre o Noús de Aristóteles e o Uno de Plotino, mesmo em seu aspecto mais aristotélico.

  1. O Uno não apenas pensa a si mesmo, mas também se quer e se ama.
  2. A unidade produzida pelo autoquerer e pelo autoamor é mais estreita e tem menos dualidade do que a produzida pelo conhecimento autodirigido.

Essa ideia aparece novamente em Tomás de Aquino.

  1. Tomás de Aquino concebe o conhecimento como um ato unitivo que tende à identificação entre conhecedor e conhecido.
  2. Para Tomás, o Filho é o verbo que espira amor, enviado segundo a instrução do intelecto que irrompe na afeição do amor.
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