autores:armstrong:fundo-eneadas
Fundo filosófico e religioso das Enéadas
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Platonismo Médio como Tradição Imediata e Fundação Doutrinária
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Ressurgimento do ensino filosófico positivo na Academia com Antíoco de Ascalão (século I a.C.), superando o ceticismo da Nova Academia.
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Desenvolvimento, nos séculos I-II d.C., de uma nova versão do platonismo, conhecida como Platonismo Médio, essencial para a tradição filosófica europeia posterior.
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Caráter erudito e livresco desta filosofia, com ênfase crescente no comentário aos textos de Platão e Aristóteles e na doxografia.
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Postura eclética seletiva: permanência do núcleo platônico com incorporação crítica de elementos estóicos e, sobretudo, aristotélicos.
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Figuras representativas de uma ampla gama intelectual:
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Plutarco: cultura ampla e personalidade atrativa, porém sem profunda originalidade filosófica.
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Albino: filósofo profissional típico, contribuinte sólido para a construção doutrinária.
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Apuleio e Máximo de Tiro: representantes de uma pseudo-filosofia popular e retórica.
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Difusão das ideias em níveis intelectuais inferiores: gnósticos, hermetistas, magos e alquimistas.
Filo de Alexandria: tentativa pioneira de interpretar as escrituras judaicas através de conceitos do platonismo médio, ainda que de forma inconsistente.Neopitagorismo como movimento difícil de distinguir do platonismo médio, formando com este um grupo intelectual único. Numênio como figura de transição (pitagorizante-platônico).-
Principais Tendências Doutrinárias do Platonismo Médio
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Primeiro Princípio: Deus-Mente (Nous) transcendente.
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Início da teologia negativa (descrição por negações).
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Em certos neopitagóricos, antecipações da doutrina plotiniana do Uno.
Lugar das Ideias/Formas: localizadas na Mente Divina, como “pensamentos de Deus” (conceito de extrema importância histórica para a teologia cristã posterior).Hierarquia de Hipóstases abaixo do Princípio Supremo:-
Por vezes, uma Segunda Mente ou Deus com função cosmogônica ou ordenadora.
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A Alma do Mundo.
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Importância, nas versões populares, dos daemones como seres intermediários.
Matéria e Origem do Mal: tendência a soluções dualistas.-
Mal originado em uma Alma má (Plutarco) ou na própria matéria (Numênio).
Conclusão: A filosofia de Plotino é, em suas linhas essenciais, um desenvolvimento (por vezes ousado e original) da tradição escolar do platonismo médio.-
Influência e Crítica do Estoicismo em Plotino
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Combate intenso, nos escritos plotinianos, à concepção estóica do ser espiritual como corpórea (pneuma, fogo artístico).
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Este combate levou Plotino a uma clara compreensão da diferença entre ser espiritual e material.
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Influência positiva do estoicismo em aspectos fundamentais:
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Ênfase na Vida (zôê): o mundo inteligível plotiniano não é estático (como pode parecer em Platão), mas “fervilhante de vida”, com poder infinito e superabundância espontânea de formas vivas.
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Visão organicista da realidade: ambos os mundos (espiritual e material) são organismos, unidades-na-diversidade mantidas por uma única vida.
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A libertação do esquema corpóreo estóico permitiu a Plotino originalidade ao desenvolver este senso vitalista, que muito deve ao dinamismo e vitalismo estóicos.
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Relação com Platão: Fidelidade, Interpretação e Transformação
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Autopercepção plotiniana: sua filosofia não é uma inovação, mas a exposição do sistema platônico verdadeiro, a ser encontrado através da interpretação correta dos Diálogos.
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Pontos de genuína concordância com Platão:
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Divisão da realidade em mundo eterno/inteligível e mundo temporal/sensível.
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Esquema de valores e visão da vida humana decorrentes dessa divisão.
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Convicção de que o mundo sensível é bom, ordenado e tem realidade própria.
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A alma tem um trabalho a fazer no mundo, embora não seja sua verdadeira morada.
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Natureza e destino da alma humana são essencialmente platônicos (com a crucial exceção da união mística final).
Doutrinas como desenvolvimentos genuínos de ideias platônicas:-
Princípio transcendente do Mundo das Ideias.
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Distinção nítida entre Nous (Inteligência) e Alma.
Transformações radicais do platonismo, com origem em outras fontes:-
Colocação das Ideias na Mente Divina.
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Ênfase na vida e visão organicista da realidade.
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Doutrina das Ideias dos Indivíduos.
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Doutrina da Infinitude Divina.
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Relação com Aristóteles: Crítica, Apropriação e Compreensão
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Atitude mais independente e crítica que em relação a Platão. Reconhece divergências e considera Aristóteles equivocado quando diverge.
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Compreensão mais precisa do pensamento aristotélico real, favorecida pelos comentaristas peripatéticos (ex: Alexandre de Afrodísias), que mantinham maior fidelidade ao texto.
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Aristotelismo como filosofia de comentário, sem grande desenvolvimento, contrastando com o platonismo como filosofia em evolução. Diferença devida à natureza sistemática do pensamento aristotélico vs. natureza sugestiva e não-sistemática do pensamento platônico.
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Apropriação significativa da metafísica e psicologia aristotélicas por Plotino.
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O Enigma de Amônio Sacas e sua Influência
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Questão central e provavelmente insolúvel: qual o conteúdo do ensino de Amônio Sacas, mestre de Plotino?
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Escassez de informações (Amônio não escreveu, relatos como o de Hierocles são de autenticidade duvidosa).
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Possíveis elementos de seu ensino, conforme tradição indireta:
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Concordância fundamental entre Platão e Aristóteles.
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Doutrina sobre a alma e sua relação com o corpo semelhante à de Plotino (segundo Nemésio).
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Possível defesa de uma criação do universo a partir do nada (doutrina judaico-cristã, não grega), indicando influência residual de sua formação cristã.
Se correta a última hipótese, implicaria que a distinção entre Uno e Nous seria uma invenção original de Plotino, não derivada de Amônio.-
Relação com as Religiões Contemporâneas: Mistérios, Cristianismo e Gnosticismo
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Cultos públicos oficiais: pouco significado para Plotino, usado apenas como fonte para interpretações alegóricas dos mitos.
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Religiões de Mistério:
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Não contribuíram com ideias doutrinárias, sendo religiões de culto e emoção.
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Emprestou-lhes apenas simbolismo decorativo (ex: linguagem da luz, embora este seja um símbolo universal da época).
Cristianismo Ortodoxo:-
Nenhuma evidência de contato direto ou influência consciente por parte de Plotino.
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Incompatibilidades fundamentais entre seu sistema e o cristianismo, pertencendo a tipos diferentes de pensamento religioso.
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O valor encontrado nele por pensadores cristãos (de Agostinho em diante) decorre de ressonâncias parciais, não de identidade.
Gnosticismo (ataque explícito em En. II, 9):-
Rejeição veemente por considerá-lo irracional, inconsistente, arrogante e imoral.
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Oposição radical na visão do cosmos:
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Gnóstico: mundo visível é prisão má, resultado de uma queda, a ser rejeitado e escapado via gnosis secreta.
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Plotiniano (fiel a Platão): mundo visível é bom, imagem material da beleza inteligível, resultado da expansão espontânea do Bem divino.
Similaridades linguísticas e conceituais (ex: matéria como escuridão/mal, transcendência do Princípio Supremo) explicadas por um “espírito da época” (Zeitgeist) comum, não por empréstimo direto.Conclusão Sintética do Contexto (segundo G. Quispel): a Antiguidade Tardia é uma terra de três rios distintos — Gnose, Neoplatonismo e Cristianismo — com interconexões, mas com fontes e direções diferentes. O cristianismo, ao assimilar elementos, não se torna um sincretismo, mas assimila e permanece ele mesmo. -
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