Melancolia e
São Jerônimo como díptico: representam dois estados do conhecimento humano ou duas meditações do espírito em condição terrestre.
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Cultura positiva: domina natureza buscando Deus.
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Teologia negativa: encontrando Deus, renuncia a este domínio inútil.
Anjo de asas cansadas: parte intelectiva da alma assemelha homem ao anjo, mas espírito angélico, ao atingir intuição de Deus, vive experiência indizível.
Silêncio da iluminação final: quando almas dos sábios conhecem “Princípio pelo Princípio” e comunicam-se “quase por aceno”, linguagem torna-se impossível e ciência vã.
Herança neoplatônica: constatação recolhida de
Proclo, Dionísio e Agostinho.
Imperativo humanista: empresa cultural só vale ser perseguida se perpetuar consciência ou memória do inefável.
Silêncio de Deus e gênese da linguagem a partir do obstáculo material.
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Silêncio inviolável: como divindade invisível, circunscreve limites do discurso e escrita metafísicos.
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Linguagem não preexiste em Deus: não existe em Deus nem no intelecto intuitivo; não preexiste ao obstáculo das formas.
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Nascimento da linguagem: nasce do próprio obstáculo da matéria, que diviniza ao constituir-se por ela, articulando-se nas formas.
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Processo da criação: faz surgir solidariamente sentido e forma numa unidade necessária que razão, para apreendê-la, torna dialética e binária.
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Superação de Pico: insistência na consubsistência íntima (intrínseca) das Ideias e Vênus supera genialmente dualidade que viria a intoxicar estética ocidental. Ideia (Pensar vivificante de Deus) não é sentido significado pela forma angélica; ela “é” esta forma.
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Condicionamento da expressão: toda expressão é um condicionamento. Encarnação no mundo sensível é summum do condicionamento no abaixamento.
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Distinção entre fundo e forma: Manifestação, já condicionada no espírito angélico, foi voluntariamente mascarada na figura do abaixamento.
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Palavra divina vs. palavra humana: Palavra divina é imediata efusão de vida; palavra humana é mediação, fragmentação necessária da plenitude desta vida.
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Teologia poética: não pretende quebrar silêncio de Deus, mas remontar ao sentido mais elevado das mediações da linguagem.
Consciência histórica como distanciamento e retorno.
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Passagem da Idade Média à Renascença: de consciência imanente de Deus na história para consciência crítica desta história.
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Redescoberta da Antiguidade: expressa ardente desejo de identificação com passado mantido na distância do modelo que propõe ao presente.
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Crítica que cria o objeto: humanista, por sua divagação crítica, antes constrange objeto (passado) à imitação do presente.
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Princípio da “transformação” (Pico) e “digestão” (Rabelais): respondem à exigência de “nutrir-se” da História.
Hermenêutica de Pico como desvelamento escatológico.
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Não é filologia acadêmica, mas interpretação, exegese, deciframento que faz surgir Presente da história.
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Oposição à estética moderna: pensamento não é independente do corpo da palavra; espessura do signo contribui para sua potência de evocação.
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Aparição do sentido: envolve-se na fragilidade obscura de todos os nascimentos.
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Conhecimento e prova do desnudamento: conhecimento que quer compreender (não explicar) não pode poupar-se à prova do desnudamento supremo que envolve sua linguagem.
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Posição de Pico: crê em linguagem que desdobra mediações, mas constata impossibilidade de reenrolar nela a Evidência última, Deus incondicionado. Sua metafísica nunca nomeia, apenas aproxima-se.
Senso do sentido latente e culto do fragmento.
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Resposta insatisfatória (Peter Burke): “gosto do sentido latente” como elitismo literário, mimetismo natural ou desejo de evitar banalidade.
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Verdadeira significação: enigmas e emblemas reproduzem vias secretas da manifestação divina e evocam pregnância simbólica de todas as formas do universo, irradiadas por sentido inefável.
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Fragmento e inacabamento: culto do fragmento e inacabamento (Leonardo, Michelangelo) é legítimo porque formas do mundo e do espírito estão parcialmente engajadas no invisível.
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Invisibilidade do ideal e da metafísica: Hypnerotomachia eleva fragmento arqueológico; obras de Pico são projetos de edifício mais vasto nunca erguido.
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Silêncio das obras: humanistas fazem ouvir voz distante ao cercar obras de silêncio literário ou plástico.
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Emblema da atitude de Pico: “Preferimos, no entanto, nunca conhecer pelo conhecimento aquilo que ardentemente buscamos… do que possuir no amor aquilo que se descobriria em vão sem amor”.
Dualidade constitutiva do intelectual humanista: o “Janus bifrons”.
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Dois rostos: um voltado para inefável, outro para dizível.
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Coabitação de dois homens: aquele que contempla e cala; aquele que sabe e fala. O contemplativo olha o sábio com pudor, embaraço ou constrangimento.
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Têmpera da ousadia: temeridade da ciência deve ser refreada pela sabedoria em reconhecimento de mistérios mais altos.
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Dupla leitura do mundo: movimento especulativo acompanha movimento inicial de investigação prática.
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Espaço físico como sequência do espiritual: para Leonardo, espaço físico é sequência da extensão espiritual invisível do universo.
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Princípio de expansão e focalização: expansão formal na investigação acaba por resolver-se graficamente em ponto de dissolução das formas materiais, seu ponto de emissão no invisível.
Importância do subentendido, fábula, enigma, elipse.
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Pressentimento de texto invisível: escrita visível envolve núcleo de inefabilidade e envolve a si mesma de inefável.
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Especularidade da visão: em universo regido pela lei do duplo e sua inversão, conhecimento é visto como contendo Deus e contido por Ele.
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Redução da humanidade ao impalpável: homem, tornado olho de Deus na Terra, vê sua humanidade reduzir-se ao impalpável na transformação geral das formas.
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Essência como vacuidade para aparência: essência é vacuidade para aparência, concepção que exige ruptura das representações do mundo ou do indivíduo.
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Exemplo do Grasso Legnaiolo: Brunelleschi esvazia identidade de carpinteiro, ensinamento cruel sobre vertigem gerada pela frequência do vazio e falibilidade dos sentidos diante do invisível.
Concentração na inefabilidade e eleição dos “distintivos do sonho”.
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Obras típicas: contemplam objeto invisível, subtraído ao olhar comum, visto na claridade crepuscular do sonho ou utopia.
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Sonho como abertura ao além: contra Buffon, sonho abre portas do além; contra Goya, sono da razão não gera monstros.
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Irracional como animalidade: irracional não é categoria do fantástico, mas da animalidade privada de inteligência; delírio não é ainda “perturbação da razão”.
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Escolha do artista: elege “distintivos do sonho” (leggiadria, vaghezza, sfumato), que são também instrumentos do infinito.
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Objeto da arte e do pensamento: colocado na fronteira dos mundos concreto e imaginário.
Conclusão sobre doutrina do amor verídico e rendição do espírito.
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Doutrina no rastro do
neoplatonismo florentino: surge como se Savonarole tivesse liberado absoluto veemente que Pico e
Ficino domesticaram.
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Chamado à coesão intuitiva: Heptaplus termina com apelo à coesão intuitiva da humanidade na Verdade, por “amor verídico de Deus”.
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Exaustão das formas: alma exaure todas as formas do pensamento pensante, como pensamento previamente exaurira todas as formas do mundo precário.
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Precariedade final do espírito: espírito vê-se votado a negar-se a si mesmo em muda adoração do indizível, incapaz de constituir-se em sistema no divino.
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Retorno ao Uno na união contemplativa: resposta última pela qual humanistas temperam declarações aporéticas.
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Consciência de não pertencer a si: marca consciência íntima de não pertencer a si mesmo, de não reivindicar valor de sua inteligência para si, mas para uma transcendência.
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Inteligência como “aquém do Verdadeiro”: intelecto que o místico sempre é renuncia à emoção privada do conhecimento, à superioridade transitória da certeza sobre o mundo, para conhecer exata natureza do pensamento humano, roído pelo infinito e secretamente trabalhado pela semelhança de Deus.
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Preservação do intercâmbio: preocupação em preservar intercâmbio do visível e invisível, do dizível e indizível, leva humanista metafísico a cumprir gesto da verdade mais que afirmar sobre ela seu domínio.
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Ausência como evidência: em palavras pobres, ausência serve de evidência e demonstração.
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Dualidade inevitável do discurso: condições de relatividade, mediação e transformação do pensar alteram sempre imobilidade da visão intuitiva. Dualidade do discurso quebra unidade mística confinada no círculo íntimo da interioridade.
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Bifrontalidade como divórcio: nesse ponto, bifrontalidade é mais divórcio que ubiquidade. Impõe-se crueldade de escolha.
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Pensar como simulacro: pensar é oferecer apenas simulacro de apreensão que incessantemente nos escapa, propor apenas metáforas possíveis de verdade, afirmar intenção mais que ato.
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Jogo útil e grave: este jogo é útil e grave porque desvela lei da incognoscibilidade última onde se consome drama exemplar do espírito.