Heráclito (Oriet)

Biaise Oriet

Introdução

A palavra de Heráclito atinge o sublime no sentido kantiano do termo, aquilo que, pelo simples fato de poder ser pensado, demonstra uma faculdade da alma que supera toda medida dos sentidos.

Sócrates acolheu bem Heráclito, Platão o criticou duramente, e Aristóteles acabou por sufocar seu Logos — conforme Jean Bouchart d'Orval — antes que o filósofo jônico desaparececesse no obscuro até ser redescoberto no século XIX.

Heráclito de Éfeso

Já em vida Heráclito não deixava seus contemporâneos indiferentes, e o atrativo de seus escritos esotéricos alimentou o mito do gênio incompreendido, tornando difícil separar história e lenda em torno de sua figura.

As principais informações biográficas sobre Heráclito provêm da compilação de Diógenes Laércio, do século III da era cristã, intitulada Vidas e sentenças de filósofos ilustres, que se encontra mais de sete séculos depois do biografado.

A tradição retrata um personagem altivo e arisco que não reconhecia nenhum mestre, afirmava saber tudo e teria composto seu livro em estilo sibilino para protegê-lo do desprezo do vulgo.

Todas as circunstâncias relatadas sobre sua morte aparecem como encenações construídas a partir de uma interpretação trivial dos fragmentos, sendo ao mesmo tempo a revanche da multidão que ele havia duramente criticado e a confirmação da justeza de seu julgamento.

Heráclito teria escrito um livro, provavelmente um rolo de papiro, conforme sugere uma recomendação transmitida por Diógenes Laércio.

Quanto ao título da obra, Diógenes Laércio menciona Da natureza, mas o título Musas é considerado mais verossímil, pois não pode ser deduzido dos fragmentos e se harmoniza com o caráter orgulhoso do filósofo.

A Filosofia

Durante muito tempo identificou-se a civilização grega com o classicismo ateniense do século V, mas o interesse deslocou-se mais recentemente para o período arcaico — conforme a historiadora Claude Mossé em A Grécia arcaica, de Homero a Ésquilo.

O Artemísio de Éfeso, três vezes maior que o Partenon de Atenas, foi considerado uma das Sete Maravilhas do Mundo na Antiguidade, ao lado das pirâmides de Gizé e dos jardins suspensos da Babilônia.

Para o mundo jônico brilhante e próspero dos séculos VII e VI a.C., Atenas e a Grécia ocidental tinham pouca importância, e Heráclito não menciona uma única vez a cidade de Atena ou personalidades não jônicas nos fragmentos que chegaram até nós.

Heidegger sustenta que o Ser, objeto próprio da filosofia, mal entrevisto foi esquecido, concedendo que “uma vez, no início do pensamento ocidental, o ser da linguagem apareceu, por um instante, na luz do Ser — quando Heráclito pensou o Logos”.

Inspirado talvez pelas Musas, Heráclito engajou-se de imediato no caminho justo, favorecido pelo simbolismo que ainda tinha direito à cidade em sua época.

Para Heráclito a lei universal é o duelo: “Conflito de todas as coisas é o pai, de todas o rei” — fragmento 53 —, e toda a filosofia pode ser desenvolvida a partir dessa premissa.

As Fontes

O livro de Heráclito desapareceu — no incêndio do Artemísio em 356 a.C. ou em outras circunstâncias — mas cópias haviam sido feitas, pois o Efésio é citado com frequência já na Antiguidade.

Ao longo dos primeiros séculos da era cristã vários autores citaram aforismos de Heráclito, e é por essas vias indiretas que chegaram até nós a maior parte dos cerca de cento e quarenta fragmentos a ele atribuídos.

Com Heráclito, o problema reside menos na restituição de seu discurso do que na de seu pensamento, pois Heráclito pensa a partir do Outro.

O pensamento de Heráclito, ainda não tolhido pelas categorias lógicas familiares desde Aristóteles, é bastante desconcertante, e o próprio comentário esbarra no escolho da estranheza.

O problema com Heráclito implica a linguagem, e não apenas a língua, pois na sua época a linguagem veiculava engramas simbólicos que incorporavam a condição humana, o que não ocorre mais com a lógica atual.