No princípio era o Logos

O prólogo do Evangelho de João intriga pelo modo como insiste sobre o ser-feito, sobre o topos em si mesmo, e não apenas sobre a identidade do Verbo com Deus.

O conjugado da separação une o que “nenhum deus nem homem fez” com tudo o que foi feito — esse conjugado é o próprio fato do Verbo, e é o Logos para os homens, que transcende até a morte, embora os mortais não o tenham escutado.

Logos

O Logos é o termo e o tema principal em Heráclito, sendo para ele a própria filosofia — não se trata de religião, política ou física, domínios evocados apenas a título de ilustração.

Heidegger dedicou belas páginas à etimologia da palavra logos, derivada do verbo legein, cujo sentido habitual é dizer — o que remete ao Verbo criador que recolhe as coisas celebrando a diversidade na unidade.

O Logos de Heráclito pretende ser menos religioso do que filosófico, pois a filosofia não depende da fé mas da Questão — com o homem, questiona-se, queira-se ou não.

Escutar o Logos é entregar-se inteiramente à Questão, pois a crítica não busca nem o Ser nem coisa alguma — ela é a Questão em ato, e se houver resolução, será experimentada como mudança radical de situação.

Heráclito parece ser o único filósofo a ter cumprido a aposta da filosofia — parafraseando André Malraux a propósito de De Gaulle em 1958: “o primeiro dos filósofos continua sendo o primeiro em filosofia”.

O caminho de Heráclito

Cinco fragmentos de Heráclito são qualificados de arquitetônicos por serem indispensáveis à compreensão do sistema do filósofo jônico: os fragmentos 1, 41, 50, 53 e 108.

Se a filosofia é tributária do todo e o todo não é uma simples coleção de coisas particulares, então a filosofia é necessariamente sistemática — Hegel é o apóstolo moderno dessa concepção e o mais próximo de Heráclito.

O mesmo, ou o comum, é o termo que aparece com mais frequência nos fragmentos e subtende a maioria das sentenças do Efésio — o que por si só refuta a hipótese de que o sistema de Heráclito seria dialético, sendo o mesmo a forma analítica por excelência.

O que é primeiro não é o todo, mas o fato questionante — o conflito —, e é pelo reconhecimento metódico de sua universalidade que a crítica atesta validamente o todo.

Um não ex-siste — como sublinha o fragmento 30: “Fogo sempre vivo, acendendo-se em medida, apagando-se em medida” — e o mesmo e Um parecem compatíveis: “Este universo, o mesmo de toda coisa, nenhum deus nem homem o fez, mas sempre era, é e será” — fragmento 30.

O fragmento 41 fala de uma medida in-diferente — mas a dualidade é a condição de toda determinação, portanto Um, que não é dual, é indeterminado.

O fragmento 108 — “nenhum chega a este ponto: reconhecer que Isso-que-é-sábio é separado de tudo” — implica que a arte de dizer Um-todo como mesmo equivale a reconhecer que Um é separado do todo.

O método crítico

O homem é levado a caminhar porque, ex-sistindo fora de si, busca ardentemente um lar — o único ponto de ancoragem firme para a filosofia é o fato questionante, a Questão como situação.

Examinando como funciona o sentido, encontra-se que o mesmo é um sério candidato ao estatuto de forma metodológica, pois nada parece mais familiar — portanto mais reconhecível — do que o mesmo ou o comum.

O método crítica consiste em acolher tudo o que for reconhecido segundo o mesmo e não acolher o que não o for — o mesmo é o crivo, e o critério é o sentido identificável.

Percorrendo o sentido e o saber, reconhecem-se domínios governados por princípios particulares — mas se esses princípios não tivessem nenhuma medida comum, regeriam universos diferentes e nunca o físico compreenderia o matemático.

A existência, assim atestada, é mais do que uma universalidade formal: é uma totalidade efetiva que determina toda coisa — mas essa totalidade continua questionando, obrigando a retomar o trabalho crítico.

O diálogo entre Sagredo, o crente, e Salviati, o filósofo, percorre a história das religiões — de Çatal Hüyük à Mesopotâmia, ao Egito, à Índia, à Grécia, à Palestina, à Arábia — constatando que as figuras do divino não ultrapassam a existência como princípio determinante supremo.

A inferência de CELA — “poder-se-ia inventar qualquer coisa, ISSO permanecerá subordinado à existência para sua determinação e sua validade crítica” — constitui a segunda etapa da crítica, chamada noumenológica por analogia com a primeira, fenomenológica.

CELA é negativo quanto a si mesmo, pois nunca existe como tal — tudo o que se concebe ou passa o crivo e é determinado como existente particular, ou não passa e nada é acolhido.

A fé de natureza mística e a filosofia parecem ambas finalizadas pela transcendência, visando a superação da condição humana atual.

Controvérsias

A aposta da filosofia consiste em reconhecer que o relacionamento do todo determinado à plenitude de Um deve tanto preservar a transcendência quanto explicitar-se segundo a medida comum — esse relacionamento se diz Logos e não Um.

Anaximandro (cerca de 610–540 a.C.) reconheceu no Apeiron — o sem-limite ou o indeterminado — a razão última de toda coisa, mas não indicou como tal razão pode ser reportada à ordem determinada, o que qualificaria efetivamente a filosofia.

Aristóteles (384–322 a.C.) inventou a lógica formal, poderoso meio fundado no princípio de contradição, que permite analisar proposições e reduzir a multiplicidade das percepções a formas racionais — mas o clivage que ela instaura acirra a separação do inteligível e do sensível, problemática que dominará a escolástica medieval.

A partir de Galileu (1564–1642) a ciência da natureza emancipou-se da filosofia natural para constituir uma disciplina estritamente empírico-racional — esse cientismo mecânico cortou o homem de sua unidade, deixando a filosofia a disputar fragmentos metodológicos com a ciência e resquícios metafísicos com a teologia.

Com Descartes (1596–1650) a filosofia pareceu reviver — o dúvida hiperbólica cedendo ao cogito “penso, logo existo” —, mas o relacionamento entre pensar e existir é apenas lógico e não resolve a Questão inerente à ex-sistência.

Karl Popper (1902–1994) quis preservar a ciência de novas derivas metafísicas com seu critério de refutabilidade — mas foi a própria lógica que falhou à sua fé: os princípios fundamentais da lógica revelaram-se paradoxais — Russell, Gödel — enquanto a física quântica relativizou o ponto de vista realista.

Kant (1724–1804) esforçou-se por elevar a metafísica ao nível de ciência sob a égide da crítica, mas ainda se referia à visão cientista de Aristóteles, tomando a geometria e a física como modelos — o que explica os inúmeros a priori que permeiam sua crítica, como espaço e tempo como formas a priori da intuição sensível.

Hegel (1770–1831) denunciou a limitação a priori do saber em Kant, opondo a ele sua método especulativa que procede dialeticamente pela negação — negando o Ser imediato, a dialética estabelece o não-Ser, que, negado por sua vez, retorna a si com seu percurso como conteúdo.

Nietzsche (1844–1900) é mais artista do que filósofo — por espírito e por letra —, permanecendo fascinado por Wagner apesar de tê-lo duramente criticado por sua teatralidade.

Heidegger (1889–1976) tem o mérito principal de ter sublinhado com força e constância que o Ser não é o ente enquanto ente nem mesmo o ente supremo, mas que é separado da entidade como Um é separado do todo em Heráclito.

O Logos de Heráclito concilia, mais de dois mil anos antes da letra, a forma crítica segundo Kant, o sistema especulativo segundo Hegel e a singularidade do Ser segundo Heidegger.

Resolução

A questão filosoficamente pertinente não é “por que há algo em vez de nada?” mas “por que o negativo se impõe em ontologia?” — esse Vazio é um estado pleno de fremimentos, análogo às flutuações do vácuo em física quântica.

A inferência de CELA é notável porque requer apenas a situação em que se está de fato — a existência — e implica como validação a forma mais simples e confiável — o mesmo.

Uma única coisa é positivamente absoluta: a presença do sentido, que pressupõe tanto o homem quanto o Tudo.