Doutrina

KAHN, Charles H. The art and thought of Heraclitus: an edition of the fragments with translation and commentary. Cambridge New York Port Chester [etc.]: Cambridge university press, 1989.

Desde Crátilo e Platão com seu interesse especial na doutrina do fluxo até os Padres da Igreja fascinados por um logos que podiam assimilar ao Verbo “que no princípio estava com Deus”, cada geração e cada escola interpretou a doutrina de Heráclito a partir de seu próprio ponto de vista particular.

Distinguem-se duas tradições na herança intelectual de Heráclito: de um lado a tradição popular da sabedoria representada pelos poetas e pelos sábios do início do século VI, incluindo Sólon e Bias; de outro a nova cultura técnica ou científica que tomou forma em Mileto no mesmo século.

A pressuposto comum a ambas as tradições — e a todo o pensamento grego — é uma antítese básica entre deuses e homens, interpretando a condição humana pela mortalidade e pela falibilidade.

Essa nova concepção da divindade como sem nascimento e radicalmente diferente dos homens é essencialmente a concepção de um deus cósmico — não o patriarca supremo de uma família quase humana, mas o princípio regente de um universo ordenado — e pressupõe a cosmologia dos primeiros filósofos naturais milesinos.

O conceito homérico de areté — excelência humana — está expresso no conselho que um pai heroico dá ao filho: “Sê sempre o primeiro e o melhor, e à frente de todos os demais” — Ilíada VI.208 e XI.784.

No código heróico primitivo não há reconhecimento de excelência intelectual ou moral que possa ser distinta em princípio da busca bem-sucedida dos próprios objetivos — uma ação só é errada ou tola se conduzir ao fracasso ou ao desastre para o próprio agente.

A disparidade entre a concepção heróica de excelência e um ideal moral diferente, consagrado nos ditados dos Sete Sábios, caracteriza-se melhor pelo par virtudes da conquista versus virtudes da contenção.

Para Heráclito não há conflito entre a concepção egoísta e a social da areté, pois a estrutura mais profunda do eu é coextensiva com o universo em geral e com a comunidade política em particular.

Uma geração posterior iluminada pelos Sofistas oporá physis a nomos — natureza a convenção —, mas Heráclito é nesse ponto conservador: para ele não há cisão de princípio entre nomos e natureza, pois a lei é a expressão em termos sociais da ordem cósmica cujo outro nome é Justiça — Dikê.

(b) A tradição da filosofia natural

A concepção jônica do mundo como kosmos foi algo radicalmente novo — uma revolução científica no sentido de Kuhn, a criação de um novo paradigma de explicação teórica, o primeiro reconhecidamente científico.

A observação astronômica estava ligada não apenas a aplicações agrícolas mas também às navegações em que Mileto se destacava — Tales foi creditado com um dos primeiros manuais de astronomia náutica.

Essa noção milesina de ordem cósmica como oposição, reciprocidade e justiça inevitável foi fielmente retomada por Heráclito com toda sua ressonância poética: “A guerra é partilhada, e portanto o Conflito é Justiça” — fragmento D. 80.

A cosmologia jônica original caracteriza-se por quatro traços fundamentais: um modelo geométrico para os céus, observação e medição numérica dos ciclos astrais, interpretação da mudança física como conflito de poderes elementares numa ordem periódica de reciprocidade, e a tendência de explicar o estado presente das coisas derivando-o de uma situação inicial.

Heráclito mostra pouco interesse no modelo geométrico para os céus ou na explicação científica detalhada da natureza — seu pronunciamentos sobre matéria astronômica sugerem uma preferência quase deliberada por concepções mais primitivas, como a de que o sol tem o tamanho de um pé humano.

O verdadeiro tema de Heráclito não é o mundo físico mas a condição humana, a condição da mortalidade — e as doutrinas do fogo, da ordem cósmica e das transformações elementais são significativas apenas na medida em que revelam uma verdade geral sobre a unidade dos opostos.

A vantagem do fogo como substituto do ar está em que ele significa tanto um poder de destruição e morte quanto um princípio de vitalidade sobre-humana — um fenômeno temporário que se apaga e um princípio eterno que é em toda parte um e o mesmo, seja na chama do altar, na lareira doméstica, no incêndio florestal aceso por um raio ou nas tochas ardentes da guerra.

De Pitágoras de Samos, seu vizinho e quase contemporâneo, Heráclito aprendeu uma nova concepção do destino da psiquê e talvez um novo sentido para o poder do número, da proporção e da medida na organização racional do mundo — embora Pitágoras, como Xenófanes, provoque seu escárnio particular por ter tentado expandir a filosofia da natureza para uma visão geral de deus e do homem e, em sua opinião, falhado conspicuamente.