Heráclito (Kostas Axelos)
... e da Totalidade nasce a Unidade, e do Um, o Todo (D. 10).
A relação de origem mútua entre totalidade e unidade é afirmada como um princípio fundamental.
A origem da metafísica de Heráclito é investigada por diferentes estudiosos em fontes orientais e nos mistérios gregos.
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Filósofos, historiadores do espírito humano e escritores procuraram as raízes profundas dessa metafísica na sabedoria da Índia, na religião do Egito ou na de Zoroastro.
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Outros pesquisadores tentaram compreender essa mesma metafísica à luz dos mistérios gregos.
Heráclito de Éfeso, apelidado de Obscuro, ocupa uma posição central no conjunto da filosofia grega e no conjunto da história universal do pensamento.
Heráclito de Éfeso é reconhecido como uma figura central para a filosofia grega e para a história universal do pensamento.
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Seu pensamento ultrapassa a cosmologia milesiana, ao mesmo tempo que os eleatas iniciam um diálogo em oposição a ele.
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Os estoicos, os céticos e possivelmente os cínicos retomam algumas de suas ideias, transformando-as.
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Justino, o Mártir, declara
Heráclito como cristão.
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Hegel o redescobre e afirma que não há uma proposição de
Heráclito que ele não admitiria em sua própria Lógica.
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Lênin o proclama pai do materialismo dialético.
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Kierkegaard se nomeia aluno de
Heráclito, e Nietzsche acredita que o mundo, tendo eternamente necessidade da verdade, terá eternamente necessidade de
Heráclito.
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Outros autores destacam sua relação com os filósofos da Renascença e com Pascal, Spinoza, Goethe, Hölderlin, Novalis, Schopenhauer, Proudhon, Bergson, Freud e o surrealismo.
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Heidegger se volta resolutamente para esse primeiro grande pensador ocidental.
Houve também pesquisadores que tomaram caminhos não históricos, mas sistemáticos, em sua tentativa de encontrar o Efésio.
Pesquisadores adotaram abordagens sistemáticas, em vez de históricas, para estudar Heráclito.
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Dessa forma, ele foi estudado sob os ângulos da lógica, da física, da teologia, da psicologia e da política.
O pensamento questionador que espera encontrar o de Heráclito corre o risco de se perder nessa floresta de relações.
O pensamento que busca encontrar o de Heráclito corre o risco de se perder na multiplicidade de relações e interpretações existentes.
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Iluminado em sua marcha por uma tal multidão de luzes, esse pensamento corre o risco de nada ver.
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A cama de Procusto serviu de instrumento a um grande número dessas empresas, que erigem em absoluto um único aspecto do problema.
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Heráclito não se explica nem se interpreta por Schopenhauer, e o centro de seu pensamento não é principalmente teológico nem exclusivamente físico.
O caminho a seguir é diferente e impõe um esforço de orientação.
Um caminho diferente precisa ser seguido, exigindo um esforço de orientação metódica que não ignore as grandes etapas históricas do destino do pensamento heraclítico.
Dessa maneira poder-se-á, talvez, presentificar a antiga mas viva sabedoria de Heráclito, que não é uma filosofia de biblioteca, mas um pensamento que exerce hoje, ainda e sobretudo, seu poder poético e especulativo.
A antiga e viva sabedoria de Heráclito pode ser tornada presente, pois não se trata de uma filosofia de biblioteca, mas de um pensamento que ainda exerce seu poder poético e especulativo.
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Nessa tentativa de atualização e de diálogo com o logos heraclítico, deve-se distinguir, de maneira ora implícita, ora explícita, entre o que
Heráclito disse e a interpretação do estudioso, assumindo-se uma parte de aventura ao explicitar o que está implícito.
Todo grande pensamento possui o poder de transcender e de se transcender; efetivamente, o pensamento de Heráclito transcende suas próprias intenções, seus quadros espaço-temporais, e anima outros focos de pensamento, anima os próprios intérpretes.
O pensamento de Heráclito transcende suas próprias intenções e seu contexto espaço-temporal, animando outros focos de pensamento.
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Para dar conta da transcendência multiforme e polivalente desse pensamento primeiro, é preciso esforçar-se para apreender seu fundamento unitário, dando razão a Montaigne, que, no capítulo Dos
Demócrito e
Heráclito, dos Ensaios, escreve que não vê o todo de nada.
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Em vez de fazer a anatomia de um pensamento, busca-se tocar seu centro orgânico e circunscrever os limites extremos de sua periferia.
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Esse núcleo central é a alma viva de todo pensamento digno desse nome, e o foco radiante pode ser formado por elementos opostos sem que sua unidade seja deslocada, pois é uma unidade dos contrários.
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A divisão tardia da filosofia heraclítica em Física, Teologia e Política a desnatura e a esquematiza, não sendo absolutamente heraclítica.
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A filosofia de
Heráclito deve ser exposta segundo o movimento de suas esferas concêntricas, esferas que se fundem e fusionam nas dimensões fundamentais do Logos e do Cosmos, do Anthropos e da Polis.
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Nessa empresa, deve-se também distinguir entre a verdadeira unidade do pensamento unitário de
Heráclito e o próprio trabalho de unificação do intérprete.
Imperiosa é a necessidade de uma relação viva com um pensamento que parece morto, o dever de reviver uma visão repensando-a; imperiosa é também a necessidade de uma comunicação envolvente com textos aparentemente distantes.
Há uma necessidade imperiosa de uma relação viva com o pensamento de Heráclito e de uma comunicação engajada com seus textos.
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Nada se apreende de uma visão e de uma vida sem comunicação com sua tensão dramática.
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Sem vibração comum, não há diálogo possível; somente por essa participação entusiasta se pode chegar à visão mais lúcida, liberada dos falsos mitos e das mistificações.
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Essa tarefa não é realizável por um trabalho que se perde nos limites da seca tecnicidade, do tédio acadêmico distinto e do helenismo baixamente helenístico e humanístico.
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O herói especulativo em questão não é um professor de filosofia, mas
Heráclito pensador e poeta arcaico que é preciso estudar, sabendo que o estudo da história da filosofia é ele mesmo estudo da filosofia e pode ser mesmo filosofia pensante.
=== O múltiplo saber não ensina a pensar (D. 40). Pois é importante que os homens que amam a sabedoria (filósofos)
sejam investigadores de tantas e tantas coisas (D. 35). ===
Os textos nos quais o trabalho se enraíza — fragmentos originais e, em seguida, documentos doxográficos — foram depurados por um longo trabalho filológico da crítica moderna (principalmente Diels, Kranz, Reinhardt, Gigon, Kirk), trabalho do qual se leva em conta (1).
Os textos fundamentais para o estudo de Heráclito foram depurados pelo trabalho filológico da crítica moderna.
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O trabalho de filólogos como Diels, Kranz, Reinhardt, Gigon e Kirk é levado em conta.
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A filologia e a erudição constituem apenas a subestrutura da empreitada, cuja pesquisa se orienta no sentido da apresentação e da interpretação filosófica e sintética do pensamento heraclítico, e não no sentido da crítica filológica detalhada dos textos e dos testemunhos.
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O texto heraclítico que chegou até o presente é fragmentário, e a ordem dos fragmentos é por essência móvel; pelo estabelecimento de relações entre os fragmentos, permite-se que eles se esclareçam uns pelos outros, para depois interpretá-los.
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A codificação imutável dos fragmentos, sua classificação e sua ordenação definitivas não existem.
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A numeração é a de Diels-Kranz, e a tradução é feita a partir do grego, tendo-se consultado, no entanto, as traduções francesas já existentes.
A interpretação não pode senão buscar a unidade, através da polivalência dos significados.
A interpretação deve buscar a unidade do pensamento heraclítico através da polivalência de seus significados.
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Um mesmo fragmento pode ser interpretado de diferentes maneiras, sem que se chegue a esgotar seu sentido fixando-o de uma vez por todas.
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Cada um dos fragmentos possui seu próprio sentido, que só se afirma na medida em que se integra na totalidade do pensamento heraclítico.
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Cada um dos fragmentos deve ser colocado em relação com os fragmentos conexos e com o conjunto dos fragmentos.
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As perspectivas da interpretação permanecem no entanto abertas, pois o trabalho da interpretação não é definitivo, ele também não.
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Aos fragmentos vêm se juntar os testemunhos doxográficos, constituindo testemunhas preciosas, mas confusas, da interpretação.
O método do caminhar está assim esboçado e será posto em obra (e à prova) ao longo de toda a obra.
O método proposto é esboçado como questionante e será aplicado em todas as dimensões do pensamento heraclítico.
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Esse método se inscreve em um horizonte no qual poderiam começar a se tornar visíveis a fundação e a superação da filosofia.
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O pensamento que o anima se engajará em todas as dimensões do pensamento heraclítico, a do Logos e a do Cosmos, a da Polis e a da Psiquê, tentando não esquecer ao longo do caminho que essas dimensões não se distinguem sistematicamente umas das outras, pois todas criam raízes no mesmo solo.
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Heráclito deve ser interpretado por ele mesmo e para os intérpretes de hoje, pois um trabalho matematicamente objetivo não é possível nessas matérias; é melhor, portanto, estar consciente da plasticidade dos métodos com os quais se opera.
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O pensador estudado não permite uma interpretação científica mais ou menos positivista, o que não significa que se deva por isso abrir caminho para as divagações que se servem dele como de um pretexto.
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A tarefa não consiste em reencontrar o que ali foi projetado, mas em descobrir primeiro o que ali está realmente, para que se possa então ser conduzido até os desenvolvimentos posteriores que provocam continuamente novas questões.
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Para fazer isso, é preciso esperar, pois citando o fragmento 18: Se não espera, não encontrará o inesperado, pois ele é inexplorável e inacessível.
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Meditando sobre o inventor da palavra philosophos, sobre o homem que escreve O raio governa tudo (fr. 64), pergunta-se como reintroduzir o elemento fulminante e explosivo no mundo do pensamento filosófico.
Plano
O plano: estudando os textos heraclíticos, vê-se formarem certos conjuntos de pensamentos, expressos em fragmentos que se sustentam; esses conjuntos “parciais” se unificam graças ao vínculo profundo que os mantém em relação com seu centro; eles só existem na e pela unidade global.
O plano da obra é apresentado, organizando-se em três partes que partem de conjuntos parciais de pensamentos para uma unidade global.
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Há, portanto, esferas no Todo, mas essas esferas expressam o Todo.
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A unidade absoluta é o pensamento total de
Heráclito que expressa, pela linguagem, na cidade dos homens, o ser em devir do Universo.
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A obra comporta três partes. Na primeira, tenta-se ressuscitar a própria figura de
Heráclito no interior de sua época histórica.
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A segunda parte se compõe de cinco seções, cada uma estudando uma das grandes dimensões do pensamento heraclítico: a dialética, o movimento do logos que se torna conhecimento e conduz ao amor da sabedoria e da verdade, a cosmologia propriamente dita e a divindade que anima o devir cósmico, a atitude religiosa, política e ética, o homem (sua vida, seu destino e sua morte), e a dimensão poética.
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A terceira parte persegue a pesquisa do destino do pensamento de
Heráclito na história universal do pensamento.
Por que estudar Heráclito?
As razões para estudar Heráclito são apresentadas, centrando-se na natureza dialógica e jovem de seu pensamento.
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Porque seu logos chama o diálogo, porque seu caminho foi e ainda é o caminho do intérprete, porque sua luz continua a iluminar.
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As fontes do estudo, sejam restritas ou não, estão lá e incitam a explorá-las.
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Em um diálogo vivo com um pensador cuja voz pertence ao passado e ao futuro, as possibilidades de uma comunicação real permanecem abertas.
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Não se quer pura e simplesmente remontar a corrente do rio, quer-se prosseguir seu curso, esse curso que carrega o intérprete.
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Há filosofias para a juventude. O pensamento de
Heráclito possui a juventude, e essa juventude se perpetua através da antiguidade grega, do mundo judaico-cristão e dos tempos modernos e fecundará talvez também o pensamento da era planetária.
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Não se esquece nem que se medita sobre um pensador arcaico, nem que se vive a própria época, aberta para o futuro.