O Timeo deveria, juntamente com o Critias e o “Hermócrates” — que nunca chegou a ser escrito —, fazer parte de uma trilogia que descrevia a origem do universo, do homem e da sociedade. Essa trilogia teria permitido a Platão retomar o projeto de seus antecessores que, a partir do século VI a.C., deram continuidade ao trabalho de poetas como Hesíodo, expondo o surgimento e a evolução de toda a realidade, desde o caos primordial até a época em que viviam. Esses pensadores, aos quais a tradição deu o nome de “filósofos”, tentam, em obras que receberão o título genérico Sobre a Natureza (Perì phúseōs), descrever a origem do universo (macrocosmo), a do homem considerado como um universo em miniatura (microcosmo) e a da sociedade, imaginada como o paradigma ao qual a cidade real deveria se conformar.
O “filósofo” que deseja descrever a origem do universo, do homem e da sociedade encontra-se tão desamparado quanto o poeta, Hesíodo, por exemplo, que, em sua Teogonia, começa por recorrer às Musas para saber o que pensar sobre a origem dos deuses. À semelhança do poeta, o filósofo tece então um discurso que não pode ser declarado nem verdadeiro nem falso, na medida em que a referência desse discurso escapa àquele que o tece, que naturalmente não pode ter sido testemunha da origem da humanidade; e muito menos da do universo. Esse tipo de discurso é o mito.
O mito é, antes de tudo, um relato, ou seja, um discurso que se desenrola no tempo e que descreve o que fazem não entidades abstratas, mas personagens que apresentam uma identidade mais ou menos marcada. É por isso que, em certas passagens, a ordenação do mundo sensível é situada no tempo. É também por isso que o demiurgo, que representa o intelecto, é dotado de uma certa personalidade, trabalha à maneira de um artesão e de um camponês, e tenta convencer a “necessidade” de colaborar com ele para que surja um mundo onde haja permanência e regularidade suficientes para que o homem possa conhecê-lo, falar dele e agir nele. O mito entra em contradição com as exigências de uma explicação que deve deixar o tempo de lado e envolver apenas entidades gerais ou abstratas. Tal contradição encontra-se no cerne do Timeu. Alguns, como Aristóteles, incorporaram-na à sua crítica à cosmologia platônica; outros procuraram resolvê-la. Mas a atitude mais razoável e econômica é reconhecê-la, considerando que, no contexto histórico em que se inseria, Platão não podia deixar de conferir à sua explicação cosmológica um caráter “mítico”.
Tradicional em sua intenção e até mesmo do ponto de vista de seu gênero literário, o Timeu é, no entanto, muito inovador pela natureza da explicação que propõe, e isso em três pontos. Pela primeira vez na história, Platão coloca o problema do conhecimento científico: uma explicação científica deve apresentar um caráter de necessidade e de idealidade que não pode ser deduzido de forma imediata a partir dos dados fornecidos pela percepção sensível. Para resolver esse problema, Platão estabelece as bases do que virá a ser o método utilizado em toda pesquisa que se intitule científica, mesmo que os axiomas que constituem seu sistema sejam estabelecidos a posteriori, mesmo que as regras de inferência permaneçam implícitas e mesmo que a observação e a verificação continuem praticamente inexistentes. Por fim, e acima de tudo, pela primeira vez na história da ciência, Platão faz da matemática o instrumento que permite expressar algumas das consequências decorrentes dos axiomas que ele estabeleceu. Pois, embora, desde Aristóteles, se reconheça todo o alcance do método científico, ou seja, do método hipotético-dedutivo, a ferramenta formal a que a cosmologia recorre continua sendo a linguagem comum até o Renascimento.
O Timeu é provavelmente um dos diálogos mais importantes de Platão, mas não tanto por seu conteúdo — que possivelmente parecia a Platão pertencer a uma categoria filosófica inferior à de outros diálogos (já que estamos diante de uma teoria física, ou seja, do mundo sensível, que, apesar de abordar questões ontológicas de suma importância, está sem dúvida subordinada ao que para Platão era de primeira importância, a saber, as ideias, o mundo inteligível)— mas sim pela recepção posterior do diálogo, que já desde Aristóteles se destacou de forma avassaladora. Testemunho disso é o fato de que «durante a Alta Idade Média e o início do Renascimento, chegou-se a identificar no Ocidente a doutrina de Platão com a deste diálogo». Estamos diante, portanto, de um diálogo sobre a criação do mundo, sobre o corpo e a alma do mundo, os corpos celestes, os deuses da mitologia, a criação do homem, a função da necessidade e da inteligência na criação e no devir cósmico, sobre os elementos e sua estrutura, sobre as qualidades sensíveis, sobre a alma e o corpo humanos, a fisiologia, a patologia, a terapêutica, a origem dos animais, etc. A ciência moderna, a princípio, viu no Timeu um verdadeiro desastre científico, mas, como bem diz Guthrie:
Agora temos a afirmação de Karl Popper de que a teoria geométrica da estrutura do mundo, que aparece pela primeira vez em Platão, tem sido a base da cosmologia moderna desde Copérnico e Kepler, passando por Newton, até Einstein, e a opinião de Heisenberg de que a tendência da física moderna está mais próxima do Timeu do que de Demócrito.
Os críticos têm discutido muito sobre onde situar esse diálogo na produção literária de Platão. A grande maioria o considera a última obra de Platão, com exceção das Leis, embora também haja quem pense que ele deve ter sido escrito na época dos diálogos médios, da República e do Fédon. Alinhando-nos com a maioria, podemos dizer que Platão: (…) tinha cerca de setenta anos quando concebeu a trilogia Timeu, Critias e Hermócrates — o projeto mais ambicioso que jamais concebeu (…). O Critias é interrompido em uma frase incompleta; o Hermócrates nunca foi escrito.
Os personagens do diálogo, além de Sócrates, são Timeu (sobre quem não sabemos mais do que o que é dito nesta obra e que é quem fala a maior parte do diálogo (29d-92c)), Critias (que muito provavelmente não é o primo em segundo grau oligarca de Platão, mas sim seu avô) e Hermócrates (general siracusano que derrotou os atenienses na Sicília).
O diálogo começa com uma conversa introdutória ((17a) — 27b) na qual Critias relata uma história antiga que Sólon ouviu no Egito e que fala sobre como a antiga Atenas venceu os invasores vindos da Atlântida. A partir desse preâmbulo, organizam-se os temas e os expositores que se seguirão a seguir: cabe a Timeu falar sobre a criação do mundo, e a Critias, sobre a pré-história de Atenas.
O restante do diálogo é o discurso de Timeu, que segue, em linhas gerais, a seguinte ordem (abreviada) de temas, subordinada a três seções gerais:
1) As obras da razão (27d-47e). O demiurgo e a causa da criação (contraste entre um propósito racional e a força da necessidade), o modelo do criador, a unidade do mundo, o corpo do mundo e os elementos, a alma do mundo e sua divisão em intervalos harmônicos, a união do corpo e da alma do mundo, o tempo: a imagem móvel da eternidade, os planetas, a rotação da Terra, os deuses, a alma humana e as leis do destino, a estrutura do corpo humano, etc.
2) A contribuição da necessidade (47e-69c). O mundo como mistura de inteligência e necessidade, o receptáculo do devir, os elementos, as qualidades sensíveis, os corpos primários, etc.
3) A cooperação entre inteligência e necessidade (69b-92c). A anatomia, a alma, o corpo, a fisiologia, a patologia e a terapêutica humanas, a mulher, os demais animais (aves, quadrúpedes, vermes, peixes, moluscos, etc.).
Com isso, Timeu encerra seu discurso sobre o universo, completando assim um percurso que vai do uno ao múltiplo, da indeterminação à determinação e do superior ao inferior, um mundo que é um «ser vivo visível que compreende os objetos visíveis, imagem sensível do deus inteligível» (Timeu, 92c). (GREDOS)