Nos juízos abstratos que versam não sobre grandezas mas sobre números, sobre o bem, o belo, sobre verdades independentes do mundo sensível, para retificar os equívocos do espírito é preciso um modelo ideal do verdadeiro, do bem, do belo, com o qual se confrontam todos os casos particulares a fim de lhes aplicar, segundo sua conveniência ou inconveniência, o caráter de verdadeiro ou falso, igual ou desigual, bom ou mau, feio ou belo.
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O conhecimento ou o pressentimento desse modelo ideal é pressuposto em todo juízo; longe, portanto, de que o juízo seja o princípio de toda ciência, ele repousa sobre uma ciência que lhe fornece seus próprios princípios e leis.
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Resolver a ciência no juízo de conveniência e inconveniência é, sob todos os aspectos, um paralogismo manifesto.
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Se o simples juízo não dá conta de toda a ciência, talvez se seja mais bem-sucedido com o juízo refletido e fundado em razão — isto é, a definição.
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Se definir é dividir e classificar (omnis definitio fit per genus et differentiam), toda definição versa sobre um composto e pressupõe elementos integrantes ou ideias simples que escapam à divisão e que, somente sob essa condição, se tornam as bases de uma classificação sólida; sem isso, as definições girariam indefinidamente sobre si mesmas.
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As definições param necessariamente diante dos elementos simples e indivisíveis do pensamento, que não podem ser definidos por serem indivisíveis e dominarem toda classificação; contudo, seu conhecimento é pressuposto em toda definição — toda definição supõe, portanto, um conhecimento anterior a ela, e a ciência que a definição fornece é apenas uma ciência emprestada e derivada, que necessita de um saber anterior e superior que a funde e a legitime.
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O adversário de
Sócrates defende o terreno palmo a palmo e quer esgotar a defesa da definição e todos os sentidos da palavra logos.
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Saber é definir, pois definir é exprimir o que se sabe de maneira precisa — como se não se pudesse exprimir com precisão o que se sabe mal tanto quanto o que se sabe bem, e como se esse mérito não conviesse à falsa ciência tanto quanto à verdadeira.
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Saber é definir, pois definir é dividir, decompor um todo em seus elementos, e a ciência dos elementos foi demonstrada como a verdadeira ciência — mas a decomposição não implica o conhecimento dos componentes; o todo decomposto em seus elementos, resta saber se os elementos que a decomposição fornece são tais como se os imagina, e sobre isso a decomposição nada ensina; é preciso recorrer a uma operação inteiramente diferente, a que aborda diretamente os elementos e os considera em si mesmos.
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Saber é definir, pois definir é assignar a diferença de um objeto em relação a outro — mas para assignar a diferença de um objeto em relação a outro é preciso antes conhecer esse objeto, o que implica já tê-lo distinguido de outro; de modo que a determinação da diferença, ou a definição, pressupõe uma operação anterior semelhante a ela, e explicar a ciência pela definição é explicar aproximadamente o mesmo pelo mesmo.
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Esse é o percurso dessa discussão, imperfeita talvez, mas ainda tão interessante, pois apresenta os primeiros ensaios do espírito humano para apoiar a certeza e a ciência sobre uma base puramente lógica e para demonstrar a impossibilidade disso.
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O raciocínio é apenas um instrumento tão bom para o erro quanto para a verdade, incapaz de estabelecer qualquer coisa independentemente de seus princípios, que não lhe pertencem e devem ser atribuídos a um procedimento inteiramente diferente do espírito.
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A definição e a análise decompõem e recompõem elementos que não fabricam; e a dialética, exclusivamente empregada, não é senão um paralogismo contínuo e um círculo vicioso estéril.
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A sensação e a dialética não explicando a ciência, à primeira vista nenhuma solução positiva aparece no
Teeteto para substituir as soluções incompletas que foram afastadas.
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Mas, à falta de uma solução positiva, encontra-se no
Teeteto o que vale talvez mais: o desprezo das soluções positivas e o espírito filosófico no lugar da filosofia — o sentimento de uma grande alma que se dá o espetáculo dos tormentos inúteis da presunção sistemática.
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Platão mal deixa transparecer senão a superioridade de uma razão que paira sobre todas as teorias; contudo essa razão tão pura apoia-se ela mesma sobre uma teoria que não mostra, mas à qual conduz insensívelmente
Teeteto, fazendo-lhe ver que a certeza não está nem nas impressões mais grosseiras dos sentidos nem nas sutilezas mais refinadas da dialética, e mostrando-lhe, de longe em longe, para além dessas regiões, a região das ideias.
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Não se sente que
Platão se sente ele mesmo sobre terreno firme e sólido quando, para confundir a sensação e o raciocínio, lhes pede que deem conta de certas noções que se encontram na inteligência humana — as ideias do belo, do bem, do justo, da igualdade, da identidade, da unidade, enfim da existência?
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Platão parece dizer: a verdadeira ciência, a que não dão nem as sensações que passam nem a análise, a definição e o raciocínio — instrumentos estéreis sem dados primitivos —, está precisamente nessas ideias que escapam à dialética e ao sensualismo, nesses elementos integrantes de todo pensamento, nesses princípios indecomponíveis, evidentes por si mesmos, universais e necessários, que o espírito tira de suas próprias profundezas e da imediata contemplação de sua essência.
Platão se contenta em indicar levemente esse resultado; mais tarde e alhures o desenvolverá.