BRISSON, Luc. Platon Oeuvres.
Fiel ao compromisso marcado por Sócrates no final do Teeteto, Teodoro e Teeteto trazem consigo um Estrangeiro de Eléia, que conhece Zenão e Parmênides, e a quem se pede que responda a esta pergunta: como se define, por lá, o sofista, o político e o filósofo? O Sofista examina a primeira questão, o Político, a segunda. Quanto ao filósofo, Platão não propõe em parte alguma uma definição.
Antes de se lançar na busca por uma definição do sofista, o Estrangeiro de Eléia insiste para que se chegue a um acordo sobre o método a ser seguido: será a dialética, que procede por divisão e reunião. O Estrangeiro de Eléia propõe então, sucessivamente, seis definições:
1) o sofista é um caçador de jovens ricos, em busca de remuneração;
2) o sofista é um comerciante de conhecimento para uso da alma;
3) e 4) o sofista é um pequeno comerciante, de primeira ou segunda mão;
5) o sofista é um atleta em matéria de disputas;
6) o sofista purifica a alma das opiniões que a impedem de adquirir conhecimento.
Esta última definição levanta uma dificuldade formidável: ela envolve o problema do erro. Ora, o erro implica a existência do não-ser, possibilidade excluída pela injunção de Parmênides, para quem apenas o ser existe. Para sair do impasse, o Estrangeiro de Eléia deve resolver-se a rejeitar o pressuposto sobre o qual se baseia a doutrina de seu mestre sobre o ser. Com esse objetivo, ele recapitula as diferentes teorias do ser que foram apresentadas até então, desempenhando assim o papel de primeiro “historiador” da filosofia. Alguns pensadores sustentaram que o ser era único, enquanto outros o apresentaram como múltiplo. Alguns, assimilando-o ao sensível, viam-no em movimento perpétuo, enquanto outros, situando-o no inteligível, consideravam que ele só poderia estar em repouso. Levando uns e outros a admitir que, no ser, se encontram movimento e repouso, o Estrangeiro de Eléia constrói este famoso raciocínio: o Repouso, como Forma, não é o Movimento, mesmo que o Repouso e o Movimento existam de fato. Portanto, convém distinguir no Ser um aspecto de existência (esta árvore existe) e um aspecto de identidade (é uma árvore). Embora não haja não-ser no sentido de inexistência — ponto em que Parmênides estava certo —, há não-ser no sentido de identidade; esse não-ser é a diferença. Em suma, toda realidade é o que é na medida em que permanece a Mesma, mas sua identidade se define em oposição a todo o resto na medida em que é Outra do que aquilo que não é ela.
Com base nessa análise, o Estrangeiro de Eléia pode então passar para o problema do erro no plano do pensamento e do discurso, onde se encontra a primeira definição do juízo e, portanto, da proposição como entrelaçamento de nomes e verbos. E se introduzirmos, nesta fase, a noção do Outro, a proposição falsa refere-se a algo que não é, não no sentido do que não existe, mas no sentido do que é diferente. O erro consiste, portanto, em pensar ou dizer algo que é diferente do que existe na realidade: “Teeteto, com quem estou falando, rouba”, por exemplo. A partir daí, o Estrangeiro de Eléia é capaz de propor a seguinte definição do sofista: ele é um criador de simulacros, de mentiras ou de erros deliberados, no domínio do discurso.
Encontramos, portanto, em O Sofista os seguintes elementos: uma história das doutrinas do ser antes de Platão; uma crítica à ontologia de Parmênides, que não distinguiu, no termo “ser”, entre o sentido de “existência” e o de “identidade”; uma ampliação do uso da negação, que não pode ser reduzida à contradição, mas que envolve a diferença; uma definição do erro no nível do pensamento e no do discurso; e, finalmente, uma definição do sofista. Isso demonstra a importância desse diálogo.