Protágoras

Luc Brisson

Do ponto de vista literário, o *Protagoras* é uma obra magnífica: a chegada de Sócrates de madrugada e sua conversa com o escravo que demora a abrir-lhe a porta da casa de Calias, o homem mais rico de Atenas, a descrição da assembleia dos sofistas e de sua corte, e o relato feito por Protágoras do mito que justifica tanto a democracia quanto as pretensões dos sofistas de ensinar a virtude são obras-primas em que a precisão do traço rivaliza com uma espécie de humor jubilatório. Do ponto de vista filosófico, encontram-se ali os indícios de discussões sobre o prazer, sobre a unidade, a semelhança e a reciprocidade das virtudes, e sobre os fundamentos da sociedade, que se darão continuidade nos outros diálogos.

Hipócrates, filho de Apolodoro, vai procurar Sócrates para que este o apresente a ele. Sócrates pede a Protágoras, cercado por outros sofistas e admiradores, que defina o objeto de seu ensino. O sofista responde: “Meu ensino trata da maneira de deliberar bem nos assuntos privados, saber como administrar da melhor forma a própria casa, bem como, nos assuntos da cidade, saber como tornar-se o mais apto a tratá-los, tanto em atos quanto em palavras.” » Sócrates apresenta duas objeções contra essa pretensão. Quando se trata de uma arte ou de um ofício, pede-se a opinião de um especialista, enquanto na política todos têm o direito de dar sua opinião; tal objeção pressupõe que a arte política se compreenda segundo o modelo das outras artes e ofícios. Além disso, nenhum político soube transmitir a virtude que lhe era própria, sendo o exemplo mais claro o de Péricles e seus dois filhos; em suma, se a virtude fosse uma arte, ela seria transmitida, e se não é transmitida, é porque não é uma arte. À primeira objeção, Protágoras responde contando um mito: a arte política tem, de fato, como modelo as outras artes, mas, ao contrário das outras artes, que são obra de especialistas, a moderação (aidṓs) e a justiça (díkē), virtudes que estão na base da arte política, foram concedidas a todos os homens para que pudessem viver em comunidade e, assim, defender-se eficazmente. E à segunda objeção, Protágoras responde com uma exposição na qual destaca uma diferença de grau: o sofista é um mestre da virtude, pois pode ser considerado aquele que possui maior competência nesse domínio.

Sócrates ataca a tese fundamental dessa exposição: “Tu afirmas que a virtude pode ser ensinada… » Como Protágoras não definiu realmente o que é a virtude, pois se limitou a enumerações sucessivas, Sócrates aproveita a brecha e reabre a discussão sobre as relações entre as virtudes. Ele defende três pontos: o da unidade das virtudes, o de sua semelhança e o de sua implicação (possuir uma implica possuir todas). E ele conclui destacando o paradoxo das conclusões: ele afirma que a virtude é uma ciência, mas que não se ensina, enquanto Protágoras se recusa a admitir que a virtude é uma ciência, ao mesmo tempo em que sustenta que ela se ensina.

O Protágoras é geralmente classificado na série dos diálogos “socráticos”, entre os quais o Laches, que trata da coragem, o Eutifrão, que trata da piedade, e o Charmides, da moderação ou da sabedoria. Neste diálogo, não se trata mais de questionar esta ou aquela virtude, mas de indagar o que é a virtude em geral, cujas cinco partes são a justiça, a piedade, a moderação, a coragem e a ciência; de fato, é o Menon que retoma essa questão, ampliando a investigação sobre as relações entre a virtude e a ciência. Por outro lado, no que diz respeito à figura de Sócrates e do ponto de vista do modo de argumentação, o Protágoras parece muito próximo do Eutidemo.

Gredos

  • O Protágoras é o primeiro dos diálogos maiores em ordem de composição, obra da primeira época platônica e um dos “diálogos socráticos”, escrito antes da primeira viagem à Sicília, sendo inverossímil a hipótese de Von Arnim, Ritter e Wilamowitz de que fosse o mais antigo de todos os diálogos, redigido ainda em vida de Sócrates.
    • A habilidade literária e a maestria expressiva do diálogo contradizem essa hipótese de datação extremamente recuada.
    • A imagem de Sócrates corresponde ao que se considera característico do Sócrates histórico: ocupado com problemas de ética, interessado nos raciocínios indutivos conforme Aristóteles o descreve, sem doutrina metafísica e sem teoria das Ideias.
    • A discussão conclui de modo aporético, como nos outros diálogos menores, expondo a insuficiência do pretenso saber dos interlocutores e convidando a proseguir na busca da definição da virtude.
  • O Protágoras partilha traços com diálogos anteriores mais curtos centrados na investigação de uma virtude determinada, recordando especialmente o Laques, mas aborda as questões numa perspectiva mais ampla, visando determinar se a areté é ensinável em termos gerais.
    • No Laques já haviam sido propostos o valor como exemplo de virtude e os temas da unidade da areté e sua proximidade ao conhecimento, desenvolvimentos muito característicos da investigação socrática.
    • O caráter didático da excelência moral e política discutido no Protágoras é tema de grande interesse na época da democracia ilustrada de Péricles e um dos lemas da ideologia dos sofistas, remetendo à questão de uma episteme ou techne politike.
  • Ao final do diálogo ocorre uma curiosa inversão de posições entre Sócrates e Protágoras: este, que começou postulando como fato evidente o ensino da areté, passa a desconfiar dessa possibilidade, enquanto aquele, que começou por estranhá-la, inclina-se a admiti-la caso a areté seja conhecimento.
    • Esse desconcertante giro, destacado pelo próprio Sócrates, deixa a questão aberta a futuras perguntas e sinaliza a necessidade de recolocar o problema.
  • O Protágoras pode e deve ser lido como amplo proêmio a outros diálogos em que Platão retoma os mesmos temas com desenvolvimento teórico mais elaborado e planteamentos já mais platônicos do que socráticos, aprofundando a busca dos valores éticos como entidades objetivas e transcendentes.
    • O tema da virtude e do conhecimento é recolocado, sobre novos motivos, no Mênon.
    • O tema dos ensinamentos da sofística e suas implicações morais e políticas volta a ser discutido no Górgias, com tom crítico muito mais duro e agressivo.
    • Tanto o Mênon quanto o Górgias recebem enfoque global no quadro teórico da República.
    • Há uma notória progressão entre esses diálogos, um desenvolvimento filosófico que corresponde à elaboração da teoria platônica das Ideias.
  • A grande maioria dos intérpretes modernos concorda em atribuir as doutrinas posteriores à etapa dos diálogos socráticos ao próprio Platão, que vai muito além de seu mestre cético e irônico na construção de um universo teórico que articula ontologia idealista, psicologia, ética e projeto político.
    • Frente a essa progressão teórica, o Sócrates personagem do Protágoras é ainda réplica bastante fiel do incorrigível dialogador de rua, professor de ignorância consciente associado à proclama do “só sei que nada sei”, enfrentado aos arrogantes sofistas da Atenas ilustrada de Péricles.
  • O hedonismo raciocinado ou utilitarismo moral expresso na teoria de uma “métrica do prazer” como regra ética pode ter sido tese defendida pelo velho filósofo ateniense, amigo de Antístenes e de Aristipo, não sendo o ascetismo incompatível com essa métrica dos prazeres.
    • Platão combaterá esse hedonismo posteriormente, pondo suas ideias na boca de Sócrates, no Górgias, na República (505b-c) e no Fédon, chegando a uma análise mais profunda do conceito de prazer no tardio Filebo.
    • A tese socrática, que recorda ao leitor atual um princípio sustentado coerentemente por Epicuro, de que um cálculo racional dos prazeres pode tornar-se regra segura de conduta, foi considerada por alguns comentaristas como afirmação convencional e concessão provisória para demonstrar que, mesmo sobre essa base, areté e eudaimonia se definiriam como conhecimento.
  • A conclusão do Protágoras é surpreendente e julgada “irritante” por vários estudiosos em razão da conduta de Sócrates na discussão, embora para outros o final aporético represente um grande progresso sobre a situação inicial ao aclarar posições e descartar certas atitudes.
    • A. Koyré sintetiza o resultado: ficou claro que toda virtude é um saber ou ciência do bem, e que a contradição entre Sócrates – que afirma ser ciência mas nega ser ensinável – e Protágoras – que pretende ensiná-la mas não admite que seja ciência – é puramente aparente.
    • Na interpretação de Koyré, se a virtude fosse o que Protágoras e o vulgo chamam com esse nome, não seria ciência e não poderia ser ensinada; se fosse o que Sócrates pensa, isto é, ciência intuitiva dos valores e do bem, poderia ser ensinada, embora Protágoras não fosse capaz de fazê-lo – e quem o faria seria o filósofo, pois essa ciência da “medida” dos valores e das satisfações não é outra coisa senão a filosofia.
  • O Protágoras é um dos diálogos mais animados, teatrais e brilhantes de Platão, com uma graça de ambientação e caracterização que acreditaria seu autor como escritor dramático, lembrando a anedota de que ele teria renunciado, por influência de Sócrates, à ambição de escrever peças para o teatro.
    • Apenas os diálogos mais logrados da época de plenitude, como o Fédon, o Banquete e a República, poderiam rivalizar com o Protágoras em ambientação e representação precisa.
    • O relato em primeira pessoa, com Sócrates recordando a entrevista na casa do rico Cálias, aonde foi arrastado pelo juvenil entusiasmo de Hipócrates, permite evocar as silhuetas dos sofistas, seus gestos e vozes, com peculiar ironia.
    • O humor da apresentação de Protágoras, Hípias, Pródico, Alcibíades e Cálias é muito diferente da sátira dura e acerba do Górgias.
  • Platão demonstra certo respeito por Protágoras, um dos ideólogos da democracia ateniense, sem distorcer demasiado sua figura, retratando-o como conversador atento e inteligente, com doutrina bem assentada em teses moderadas e ilustradas, isento da vã vaidade de outros interlocutores e dotado de notável paciência e excelente educação diante dos ataques dialéticos de Sócrates.
    • Protágoras concebe a discussão como torneio entre dois logoi ou duas posições dogmáticas, à maneira das contendas entre sofistas, e ele, que se gabava de ensinar a “fazer mais forte o argumento mais fraco”, não sai em posição airosa submetido ao método do dialégesthai e do exetázein do “jovem” Sócrates.