Do ponto de vista literário, o *Protagoras* é uma obra magnífica: a chegada de Sócrates de madrugada e sua conversa com o escravo que demora a abrir-lhe a porta da casa de Calias, o homem mais rico de Atenas, a descrição da assembleia dos sofistas e de sua corte, e o relato feito por Protágoras do mito que justifica tanto a democracia quanto as pretensões dos sofistas de ensinar a virtude são obras-primas em que a precisão do traço rivaliza com uma espécie de humor jubilatório. Do ponto de vista filosófico, encontram-se ali os indícios de discussões sobre o prazer, sobre a unidade, a semelhança e a reciprocidade das virtudes, e sobre os fundamentos da sociedade, que se darão continuidade nos outros diálogos.
Hipócrates, filho de Apolodoro, vai procurar Sócrates para que este o apresente a ele. Sócrates pede a Protágoras, cercado por outros sofistas e admiradores, que defina o objeto de seu ensino. O sofista responde: “Meu ensino trata da maneira de deliberar bem nos assuntos privados, saber como administrar da melhor forma a própria casa, bem como, nos assuntos da cidade, saber como tornar-se o mais apto a tratá-los, tanto em atos quanto em palavras.” » Sócrates apresenta duas objeções contra essa pretensão. Quando se trata de uma arte ou de um ofício, pede-se a opinião de um especialista, enquanto na política todos têm o direito de dar sua opinião; tal objeção pressupõe que a arte política se compreenda segundo o modelo das outras artes e ofícios. Além disso, nenhum político soube transmitir a virtude que lhe era própria, sendo o exemplo mais claro o de Péricles e seus dois filhos; em suma, se a virtude fosse uma arte, ela seria transmitida, e se não é transmitida, é porque não é uma arte. À primeira objeção, Protágoras responde contando um mito: a arte política tem, de fato, como modelo as outras artes, mas, ao contrário das outras artes, que são obra de especialistas, a moderação (aidṓs) e a justiça (díkē), virtudes que estão na base da arte política, foram concedidas a todos os homens para que pudessem viver em comunidade e, assim, defender-se eficazmente. E à segunda objeção, Protágoras responde com uma exposição na qual destaca uma diferença de grau: o sofista é um mestre da virtude, pois pode ser considerado aquele que possui maior competência nesse domínio.
Sócrates ataca a tese fundamental dessa exposição: “Tu afirmas que a virtude pode ser ensinada… » Como Protágoras não definiu realmente o que é a virtude, pois se limitou a enumerações sucessivas, Sócrates aproveita a brecha e reabre a discussão sobre as relações entre as virtudes. Ele defende três pontos: o da unidade das virtudes, o de sua semelhança e o de sua implicação (possuir uma implica possuir todas). E ele conclui destacando o paradoxo das conclusões: ele afirma que a virtude é uma ciência, mas que não se ensina, enquanto Protágoras se recusa a admitir que a virtude é uma ciência, ao mesmo tempo em que sustenta que ela se ensina.
O Protágoras é geralmente classificado na série dos diálogos “socráticos”, entre os quais o Laches, que trata da coragem, o Eutifrão, que trata da piedade, e o Charmides, da moderação ou da sabedoria. Neste diálogo, não se trata mais de questionar esta ou aquela virtude, mas de indagar o que é a virtude em geral, cujas cinco partes são a justiça, a piedade, a moderação, a coragem e a ciência; de fato, é o Menon que retoma essa questão, ampliando a investigação sobre as relações entre a virtude e a ciência. Por outro lado, no que diz respeito à figura de Sócrates e do ponto de vista do modo de argumentação, o Protágoras parece muito próximo do Eutidemo.